{"id":16272,"date":"2015-01-04T21:23:55","date_gmt":"2015-01-04T23:23:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/?p=16272"},"modified":"2015-01-04T21:23:55","modified_gmt":"2015-01-04T23:23:55","slug":"o-mahayana-e-os-aspectos-misticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/en\/o-mahayana-e-os-aspectos-misticos\/","title":{"rendered":"O Mahayana e os Aspectos M\u00edsticos"},"content":{"rendered":"<p><em> Transcri\u00e7\u00e3o da palestra realizada pelo Lama Padma Samten no CEBB Caminho do Meio, Viam\u00e3o (RS), em 13 de abril 2005.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nDurante um longo tempo temos abordado os ensinamentos aqui no Caminho do Meio dentro da perspectiva Mahayana, pensei em falar hoje os ensinamentos em uma abordagem complementar. A abordagem Mahayana \u00e9 toda l\u00f3gica, estruturada, ligada \u00e0 nossa vida cotidiana, portanto, ela n\u00e3o tem nenhum aspecto m\u00edstico. Todas as religi\u00f5es t\u00eam algum ponto m\u00edstico, mas na abordagem Mahayana n\u00e3o encontraremos nenhum tra\u00e7o m\u00edstico.<br \/>\nA abordagem Mahayana enfatiza especialmente as quatro qualidades incomensur\u00e1veis: compaix\u00e3o, amor, alegria, equanimidade; e as seis perfei\u00e7\u00f5es: generosidade, moralidade, paz, energia constante, concentra\u00e7\u00e3o e sabedoria. No ensinamento do Nobre Caminho \u00d3ctuplo tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada m\u00edstico. Em primeiro lugar vem a motiva\u00e7\u00e3o e, a seguir, n\u00e3o trazer sofrimento aos seres com a mente, n\u00e3o trazer sofrimento com a fala, n\u00e3o trazer sofrimento com o corpo, as qualidades incomensur\u00e1veis e as seis perfei\u00e7\u00f5es, medita\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio, perfei\u00e7\u00e3o da sabedoria \u2013 que \u00e9 uma forma de olharmos todas as coisas atrav\u00e9s de vacuidade e luminosidade; e, finalmente, temos a sabedoria <em>yeshe<\/em>, sabedoria que localiza aquilo que \u00e9 incessante, luminoso, sempre presente em qualquer experi\u00eancia. Localizamos atrav\u00e9s de um processo direto, n\u00e3o h\u00e1 propriamente lugar para as deidades nessa abordagem, n\u00e3o h\u00e1 nem mesmo lugar para falarmos do Buda ou qualquer ser extraordin\u00e1rio. Nessa abordagem da perfei\u00e7\u00e3o da sabedoria n\u00e3o h\u00e1 lugares para qualquer aspecto m\u00edstico.<\/p>\n<h3>Or\u00e1culo dos Dalai Lamas<\/h3>\n<p>Em nossa experi\u00eancia cotidiana percebemos que h\u00e1 as experi\u00eancias medi\u00fanicas. No budismo n\u00e3o enfatizamos isso, mas n\u00e3o negamos. H\u00e1 na tradi\u00e7\u00e3o budista tibetana a no\u00e7\u00e3o dos or\u00e1culos, Sua Santidade Dalai Lama trabalha com o or\u00e1culo de Neshung. Na vis\u00e3o m\u00edstica tibetana havia um ser de grande poder, como se fosse de uma inten\u00e7\u00e3o negativa. Guru Rinpoche atou por compromisso esse ser e ele se transformou em protetor do Darma, mais adiante se transformou no protetor dos Dalai Lamas. Todos os Dalai Lamas s\u00e3o protegidos por esse ser que se manifesta mediunicamente, os Dalai Lamas mudam, mas Neshung \u00e9 sempre o mesmo, manifestando-se desde uma posi\u00e7\u00e3o de lucidez, manifestando uma sabedoria. Ele n\u00e3o manifesta <em>prajna<\/em>, <em>yeshe<\/em>, ele manifesta uma sabedoria do mundo. Sua Santidade Dalai Lama diz \u201cEu n\u00e3o obede\u00e7o Neshung, Neshung me obedece. Eu escuto Neshung como escuto um ministro. Neshung fala, eu ou\u00e7o e fa\u00e7o o que eu quiser.\u201d<br \/>\nO or\u00e1culo n\u00e3o \u00e9 completamente onisciente, n\u00e3o tem a vis\u00e3o de um Buda, \u00e9 um ser com uma vis\u00e3o diferente. Por exemplo, se quisermos saber do tempo ligamos a televis\u00e3o em certo hor\u00e1rio e vemos um \u201cor\u00e1culo\u201d que diz: amanh\u00e3 chover\u00e1. De um modo geral ele acerta, mas nem sempre. Houve uma \u00e9poca na \u201clinhagem\u201d desses seres que preveem o tempo em que eles erravam muito mais. Hoje eles t\u00eam olhos localizados a 100 quil\u00f4metros acima das nuvens e de l\u00e1 a vis\u00e3o transcendente deles v\u00ea tudo. Agora eles est\u00e3o com esse <em>sidhi<\/em> de mostrar para n\u00f3s o que veem, eles fotografam e mostram na televis\u00e3o. Assim, a partir da prote\u00e7\u00e3o deles descobrimos se vai chover ou n\u00e3o. Mas isso s\u00e3o coisas do mundo. L\u00e1 de cima, daquele poder todo, ele n\u00e3o diz \u201cVoc\u00ea vai bater com o carro\u201d, \u201cSua mulher vai sumir\u201d. As coisas que mais importam, ele n\u00e3o diz. Um Buda veria as coisas realmente importantes, mas os or\u00e1culos dizem algumas coisas e n\u00e3o dizem outras. Esse ponto dos or\u00e1culos nos toca. De um lado, temos uma postura de fazer medita\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio, de lucidez. E por outro lado, pensamos\u00a0 \u201cagora me aparece o or\u00e1culo&#8230;\u201d Como vamos tratar disso?<br \/>\nEstou apenas introduzindo a quest\u00e3o m\u00edstica. Mesmo que se tenha uma abordagem da perfei\u00e7\u00e3o da sabedoria, pode-se pensar que h\u00e1 alguma coisa a mais. Na vis\u00e3o budista todas essas dimens\u00f5es s\u00e3o vacuidade. Curiosamente, dentro do <em>prajnaparamita<\/em> n\u00e3o se diz \u201ctodos os encostos s\u00e3o vacuidade, vacuidade \u00e9 todos os encostos. Encosto \u00e9 vacuidade, vacuidade \u00e9 encosto. Santo \u00e9 vacuidade, vacuidade \u00e9 santo\u201d. N\u00e3o tem isso, mas poderia ter<strong>. <\/strong>De qualquer maneira precisamos olhar essas quest\u00f5es e j\u00e1 vou fazer um atalho: os santos s\u00e3o vacuidade, todas essas influ\u00eancias s\u00e3o vacuidade, se usarmos <em>prajna<\/em> ultrapassamos isso.<\/p>\n<h3>Seis Bardos<\/h3>\n<p>Os aspectos m\u00edsticos se apresentam tamb\u00e9m em outra dimens\u00e3o. Especialmente os tibetanos v\u00e3o dizer que temos os seis bardos. Temos n\u00e3o apenas essa experi\u00eancia l\u00facida durante a vida, como temos tamb\u00e9m o sonho. O sonho \u00e9 uma regi\u00e3o interessante porque dentro dele muitas coisas acontecem. V\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es budistas e n\u00e3o budistas valorizam muito os sonhos. Os jungianos e diversas tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas, por exemplo, consideram os sonhos\u00a0 muito importante. No budismo h\u00e1 duas vertentes: uma que n\u00e3o valoriza o sonho, porque se a realidade comum \u00e9 vacuidade, o sonho seria supervacuidade, \u00e9 um sonho dentro da pr\u00f3pria vacuidade. E h\u00e1 uma corrente que vai atribuir certo significado ao sonho. Um significado muito h\u00e1bil, muito interessante que est\u00e1 ligado \u00e0 no\u00e7\u00e3o de vacuidade, por\u00e9m, enquanto eu posso criticar o sonho e dizer que se reduz a vacuidade, posso tamb\u00e9m reconhecer o sonho como vacuidade n\u00e3o pela inexist\u00eancia da forma, mas enquanto forma, ainda assim, ele \u00e9 vacuidade. Com isso podemos pensar: j\u00e1 que essa forma \u00e9 vacuidade, como ela surge? Qual \u00e9 a origem dela?<br \/>\nObservo o conte\u00fado do sonho e vejo que ele corresponde a uma estrutura c\u00e1rmica que est\u00e1 presente. N\u00e3o preciso atribuir uma estrutura s\u00f3lida ao sonho para considerar que tem valor a an\u00e1lise de que ele est\u00e1 indicando uma determinada estrutura c\u00e1rmica. N\u00e3o preciso negar que todas as coisas surgem por vacuidade e luminosidade, mas ainda assim, vejo que tem uma estrutura c\u00e1rmica que o sonho est\u00e1 revelando. Essa \u00e9 uma forma mais profunda de examinar o conte\u00fado do sonho. Mas para muitos de n\u00f3s o sonho \u00e9 algo importante, sonhamos com pessoas falecidas, com situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o vivemos ou aspiramos viver; encontramos pessoas \u00e0 dist\u00e2ncia e aquilo parece que diz alguma coisa. Se dissermos que o sonho simplesmente n\u00e3o diz nada, isso n\u00e3o satisfaz porque sentimos que ele diz alguma coisa.<br \/>\nTamb\u00e9m no nosso cotidiano temos uma dimens\u00e3o m\u00edstica que est\u00e1 ligada aos nossos pr\u00f3prios pensamentos. Temos uma habilidade de sonharmos acordados, vemos situa\u00e7\u00f5es futuras ou sonhamos acordados com o futuro. Temos aspira\u00e7\u00f5es. Os quadros que sonhamos e aspiramos nos tocam e surgem energias que nos deixam mais vivos, mais felizes, ou, por vezes, assustados. Ainda que a gente passe por aquela situa\u00e7\u00e3o de forma concreta, esse sobrevoo nos leva a essas regi\u00f5es. Se simplesmente dissermos \u201cos sonhos s\u00e3o sonhos, as imagina\u00e7\u00f5es s\u00e3o imagina\u00e7\u00f5es\u201d, isso n\u00e3o satisfaz completamente. Sabemos que h\u00e1 regi\u00f5es que nos tocam, regi\u00f5es que penetramos por sonhos, dormindo ou acordados.\u00a0 Eventualmente, o fato de penetrarmos nessas regi\u00f5es, afeta a nossa dire\u00e7\u00e3o no cotidiano. Dever\u00edamos ter algum tipo de lucidez para saber como aproveitar essas experi\u00eancias, que significados podemos dar e como lidamos com elas.<br \/>\nDepois temos a experi\u00eancia da pr\u00f3pria medita\u00e7\u00e3o. Em medita\u00e7\u00e3o podemos ter muitas experi\u00eancias diferentes. Algumas pessoas veem luzes, outras veem a parede e as formas diante de si, ou veem a parede se abrir e a vis\u00e3o aparentemente atravessa, a pessoa v\u00ea coisas atr\u00e1s. Essas s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que podem acontecer durante a medita\u00e7\u00e3o e n\u00e3o entendemos muito bem. Ainda assim, guardamos essas experi\u00eancias e elas v\u00e3o povoando esse conjunto de imagens que n\u00e3o conseguimos entender completamente, mas sentimos que h\u00e1 regi\u00f5es que podemos entrar e sair sem entender bem o que seja. Todas essas regi\u00f5es povoam a nossa imagina\u00e7\u00e3o, pensamos que h\u00e1 algo extraordin\u00e1rio, algo m\u00edstico que a religi\u00e3o deveria acessar, elucidar e entender. Volto a dizer que <em>prajna<\/em> entra em todas essas regi\u00f5es. Com lucidez podemos entrar, esclarecer e ter estabilidade nisso. Mas, por enquanto, estou nesse papel de provocar o contato com essas \u00e1reas que temos falado pouco.<br \/>\nTamb\u00e9m voc\u00eas v\u00e3o ver a experi\u00eancia do morrer. \u00c9 comum durante a vida termos uma ou outra proximidade com a morte, atrav\u00e9s de acidentes ou doen\u00e7as podemos passar muito perto dessas situa\u00e7\u00f5es todas e elas nos trazem um tipo de experi\u00eancia que n\u00e3o tivemos antes. Por uma raz\u00e3o ou outra, podemos ter essa proximidade com a experi\u00eancia da morte e podemos ter d\u00favidas e sensibilidade com essa regi\u00e3o. Podemos olhar e sentir que tem um mist\u00e9rio ali dentro, algo extraordin\u00e1rio. Aqueles que j\u00e1 se sentiram afetados guardam de forma n\u00edtida essas experi\u00eancias. Eles sabem que o estado de sa\u00fade, de vida, \u00e9 fr\u00e1gil. Podemos repentinamente nos aproximarmos da morte e as experi\u00eancias que teremos ser\u00e3o muito diferentes das experi\u00eancias ordin\u00e1rias da vida. Guardamos essa sensa\u00e7\u00e3o, eventualmente, de algo escuro, temos dificuldade de conduzir a nossa mente.\u00a0 A mente se acelera, adquire significados e fei\u00e7\u00f5es particulares e tentamos posicion\u00e1-la em outra dire\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a nossa mente \u00e9 arrastada numa dire\u00e7\u00e3o como se fosse um vento forte, tentamos assumir o controle e percebemos que a nossa for\u00e7a \u00e9 muito menor que a for\u00e7a das circunst\u00e2ncias c\u00e1rmicas que nos arrasta em meio a essa proximidade da morte. Diante disso, podemos nos sentir muito fr\u00e1geis e quando voltamos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o onde temos controle aparente sobre tudo, guardamos essa mem\u00f3ria de que aquela etapa n\u00e3o foi interessante. Estamos fr\u00e1geis, mas n\u00e3o sabemos o que \u00e9 essa etapa, n\u00e3o sabemos o que nos espera, temos novamente a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 regi\u00f5es que n\u00e3o entendemos bem e podemos vir a ter que nos defrontar com essas regi\u00f5es.<br \/>\nOuvimos tamb\u00e9m experi\u00eancias sobre o p\u00f3s morte. Talvez algu\u00e9m tenha lembran\u00e7a ou tenha lido sobre isso.\u00a0 Talvez voc\u00eas tenham passado por essa experi\u00eancia, estiveram em coma ou acidentaram-se, estiveram em situa\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximos da morte e retornaram por alguma raz\u00e3o. Essas regi\u00f5es podem surgir como lembran\u00e7as enevoadas, inexplic\u00e1veis, e enquanto estamos vivos, l\u00facidos, tentamos acessar novamente a experi\u00eancia e n\u00e3o conseguimos. De novo, essas experi\u00eancias povoam a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 algo que n\u00e3o acessamos propriamente durante a vida, s\u00e3o regi\u00f5es m\u00edsticas. Atrav\u00e9s de regress\u00f5es, de sonhos e outros processos, talvez voc\u00eas tenham lembran\u00e7as de terem chegado a sensa\u00e7\u00f5es antes do nascimento, de encontrarem os pais, ou de terem uma conex\u00e3o com mestres em outras vidas. Perguntamos \u201cIsso significa o qu\u00ea? Essas dimens\u00f5es s\u00e3o reais ou estou apenas sonhando?\u201d<br \/>\nMesmo durante a vida podemos ter sensa\u00e7\u00f5es m\u00edsticas mais superficiais que est\u00e3o ligadas \u00e0s pessoas com as quais convivemos e, eventualmente, podemos imaginar que j\u00e1 vimos aquela pessoa que estamos encontrando pela primeira vez. Brota a sensa\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 vimos aquele ser. Olhamos no rosto e pensamos \u201cNossa! Eu falo alguma coisa e o ser entende! \u00c9 extraordin\u00e1rio! Outras pessoas n\u00e3o entendem, mas ele entende. N\u00e3o s\u00f3 entende como concorda e diz: sim, vamos fazer juntos\u201d. Pelo menos nos primeiros tr\u00eas meses ele concorda com tudo&#8230; Temos essa sensa\u00e7\u00e3o de uma identidade de outras vidas, tudo isso povoa esse universo m\u00edstico. Mesmo que se pratique o <em>prajnaparamita<\/em>, a compreens\u00e3o da vacuidade de todas as coisas, ficamos com certa d\u00favida: n\u00e3o haveria uma regi\u00e3o em que o <em>prajnaparamita <\/em>n\u00e3o funciona t\u00e3o bem?<\/p>\n<h3>Deidades do Budismo Tibetano<\/h3>\n<p>No caso do budismo tibetano vamos encontrar ainda outros elementos que n\u00e3o estamos acostumados, eles n\u00e3o pertencem a esse universo comum. Por exemplo, vamos encontrar os v\u00e1rios budas aqui nos<em> tankas<\/em>, no altar. Come\u00e7amos com essa figura extraordin\u00e1ria de<em> <\/em>Manjushri, com uma espada na m\u00e3o, uma flor de l\u00f3tus e o <em>prajnaparamita.\u00a0<\/em><br \/>\nDepois encontramos Arya Tara. Delicada, uma figura realmente encantadora; uma flor de l\u00f3tus, arco e flecha na flor de l\u00f3tus. Uma figura encantadoramente linda, se voc\u00eas acham ou n\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 o ponto, mas ela deveria ser.<br \/>\nDepois temos um ser com mil bra\u00e7os e um olho em cada bra\u00e7o, com onze cabe\u00e7as, todas pensando para o bem, o que \u00e9 extraordin\u00e1rio. Os mil bra\u00e7os de Cherenzig simbolizam os mil budas que vir\u00e3o, \u00e9 a vis\u00e3o de mil budas. Estamos no quarto buda dessa era, \u00e9 como se o Buda Sakiamuni fosse a emana\u00e7\u00e3o do quarto desses bra\u00e7os.\u00a0 Muitos budas ainda vir\u00e3o para nos dar suporte e nos ajudar nesse processo todo, muitos \u201cbra\u00e7os\u201d vir\u00e3o.<br \/>\nA seguir temos o Buda Sakiamuni, que \u00e9 o fundador do budismo nessa era, ele est\u00e1 sentado, est\u00e1 com uma m\u00e3o no ch\u00e3o e a outra segurando a tigela. Ao lado temos Guru Rinpoche que \u00e9 o Buda do Tibete: extraordin\u00e1rio, nascido do l\u00f3tus, glorioso, poderoso. Ele se manifestou no mundo de v\u00e1rias formas e isso \u00e9 traduzido por diferentes roupas que ele usa, uma sobre a outra.<br \/>\nUm pouco adiante vamos ver Vajrasatva. Olhamos e n\u00e3o percebemos que ele est\u00e1 abra\u00e7ado com a consorte. Se fixarmos o olho, vemos que tem uma figura apaixonada olhando para ele, \u00e9 a consorte. \u00c9 um ensinamento muito importante sobre a inseparatividade do observador e do mundo como ele v\u00ea. Consorte \u00e9 o mundo. Estamos o tempo todo insepar\u00e1vel de consorte, podemos n\u00e3o v\u00ea-la, mas estamos insepar\u00e1veis o tempo todo.<br \/>\nDepois tem outro ser poderoso, envolto em chamas e cores terr\u00edveis, que \u00e9 o devorador de dem\u00f4nios. Coisa pouca, um ser tranquilizador.<br \/>\nIsso \u00e9 s\u00f3 uma gota do pante\u00e3o tibetano. S\u00e3o todos do bem.<br \/>\nVoc\u00eas v\u00e3o ver um pouco abaixo outras imagens tridimensionais. Existem muitas imagens, todas elas significam tamb\u00e9m deidades, qualidades espec\u00edficas. Acima, est\u00e3o os cinco Diani Budas, cada um com uma sabedoria e uma forma espec\u00edfica. Nos arm\u00e1rios do altar podemos ver imagens representando outras caracter\u00edsticas, todas elas apelam para alguma coisa dentro de n\u00f3s. Surge algo m\u00edstico: onde \u00e9 que eles vivem? Quem s\u00e3o eles? O que fazem? No budismo n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico Buda? H\u00e1 uma variedade de budas? O que isso significa? Dizemos que <em>prajnaparamita <\/em>e vacuidade \u00e9 tudo, mas se <em>prajnaparamita<\/em> e vacuidade \u00e9 tudo por que tantas imagens? Por que tantos mantras? Os tibetanos t\u00eam diferentes imagens e isso nos permite perguntar onde eles residem. Eu mesmo perguntei para Chagdud Rinpoche: \u201cRinpoche, em que lugar eles est\u00e3o?\u201d<br \/>\nTemos essa diversidade, logo, os tibetanos introduzem outros tantos elementos m\u00edsticos.<\/p>\n<h3>Mundos sutis, sidhis, deidades mundanas<\/h3>\n<p>Os tibetanos v\u00e3o falar tamb\u00e9m sobre a Roda da Vida, onde temos seis reinos. Um reino \u00e9 humano, outro \u00e9 dos animais, os demais reinos s\u00e3o outros lugares. Voc\u00eas v\u00e3o ouvir dos mestres, como Trungpa Rinpoche, que diz: os seis reinos s\u00e3o aspectos da vida humana. Outros mestres v\u00e3o dizer isso tamb\u00e9m, mas todos eles p\u00f5em uma v\u00edrgula num certo momento e dizem \u201cH\u00e1 tamb\u00e9m os reinos espec\u00edficos. H\u00e1 mundos espec\u00edficos, sutis\u201d.<br \/>\nExistem os <em>tertons<\/em>, aqueles que s\u00e3o detentores da vis\u00e3o, eles voam por dentro de todos esses reinos e encontram os seres. H\u00e1 tamb\u00e9m os <em>delogs<\/em>, que abandonam a vida dentro do corpo. O corpo enrijece, esfria, os batimentos card\u00edacos cessam e eles viajam por esses reinos todos, encontram seres, ouvem o que eles dizem, trazem recados; depois eles retomam a vida, o corpo se aquece, a respira\u00e7\u00e3o volta, o cora\u00e7\u00e3o bate. Eles dizem: \u201colha, o pessoal l\u00e1 mandou uns recados para voc\u00eas&#8230;\u201d.<br \/>\nA m\u00e3e de Chagdud Rinpoche era uma <em>delog<\/em>, ela fez uma viagem desse tipo. Ela dizia \u201cVou abandonar o corpo em medita\u00e7\u00e3o e viajar pelos seis reinos.\u201d E todos os lamas diziam \u201cN\u00e3o fa\u00e7a isso, voc\u00ea vai morrer, n\u00e3o fa\u00e7a isso.\u201d Ela insistiu e eles se convenceram. Os lamas ficaram em volta dela por v\u00e1rios dias fazendo um \u00fanico puja, dia e noite. Ela abandou o corpo, esfriou, cessou o batimento card\u00edaco, cessou a respira\u00e7\u00e3o e foi&#8230; E os lamas seguiram rezando. Depois ela voltou, o corpo se aqueceu, respirou, bateu o cora\u00e7\u00e3o e ela contou o que viu. Ela encontrou Arya Tara, encontrou Tara branca que a levou pelos v\u00e1rios mundos; encontrou com pessoas, trouxe recados.<br \/>\nH\u00e1 essa dimens\u00e3o toda. Voc\u00eas tamb\u00e9m v\u00e3o ouvir sobre as dimens\u00f5es dos <em>sidhis<\/em>. Lamas praticaram certas coisas e desenvolveram diferentes fei\u00e7\u00f5es de corpo, desenvolveram transforma\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, habilidades extraordin\u00e1rias. Tudo isso est\u00e1 dentro dos <em>sidhis<\/em> e do aspecto m\u00edstico. Voc\u00eas v\u00e3o ouvir de mestres que, ao abandonar o corpo, o corpo se dissolveu, restaram cabelos e unhas. Voc\u00eas v\u00e3o ver mestres que desapareceram no c\u00e9u, se transformaram em luminosidade, em arco \u00edris, e n\u00e3o deixaram nenhum tra\u00e7o, sumiram. Vamos encontrando todas essas categorias de coisas inexplic\u00e1veis.<br \/>\nPodemos ainda nos conectar com a no\u00e7\u00e3o das deidades mundanas. Temos um olho que come\u00e7a a ver as deidades todas. Esse olho \u00e9 interessante, voc\u00eas v\u00e3o come\u00e7ar a desenvolv\u00ea-lo quando ao olhar os objetos perceberem a propriedade se manifestando dentro de voc\u00eas ao inv\u00e9s de vir do objeto, como acontece com os meninos pr\u00e9-adolescentes. Dizemos: \u201cAgora \u00e9 hora do banho\u201d. E est\u00e1 l\u00e1 o menino diante do chuveiro, ele n\u00e3o tem a menor vontade de entrar na \u00e1gua, especialmente se a \u00e1gua \u00e9 fria. Ele poder\u00e1 dizer \u201cA \u00e1gua \u00e9 fria, n\u00e3o quero entrar no banho.\u201d Mas se o menino for um praticante ele dir\u00e1 \u201cTem algo profundo aqui. A \u00e1gua \u00e9 apenas a \u00e1gua, mas eu tenho dentro de mim uma dimens\u00e3o energ\u00e9tica de fuga, de sair correndo\u201d. Olhamos dessa forma em vez de olharmos o aspecto externo como o gerador do nosso impulso. N\u00e3o explicamos mais \u201cA \u00e1gua est\u00e1 fria, assim, eu vou fugir\u201d, dizemos \u201cH\u00e1 algo que vejo surgir internamente porque a \u00e1gua est\u00e1 diante de mim\u201d. Come\u00e7o a examinar o surgimento interno, pode haver aquilo ou n\u00e3o. A \u00e1gua, para algumas pessoas, n\u00e3o \u00e9 uma grande coisa, mas outras querem fugir. Come\u00e7amos a olhar os objetos externos a partir desse olho e passamos a entender, lentamente, que h\u00e1 uma dimens\u00e3o dentro de n\u00f3s, essa dimens\u00e3o pode ser repetitiva: diante de certas circunst\u00e2ncias manifestamos as mesmas estruturas.<\/p>\n<h3>Cinco elementos, aspectos m\u00e1gicos<\/h3>\n<p>Eventualmente, descobrimos que os cinco elementos s\u00e3o como cinco deidades. Todos n\u00f3s temos uma rela\u00e7\u00e3o l\u00fadica com a \u00e1gua, todos n\u00f3s temos uma rela\u00e7\u00e3o l\u00fadica com o fogo, com a mat\u00e9ria; ou temos uma rela\u00e7\u00e3o l\u00fadica com a rocha, com a pedra, com a madeira. Todos n\u00f3s temos uma rela\u00e7\u00e3o l\u00fadica com o vento, com o ar, com o espa\u00e7o, com a vacuidade e com o aspecto et\u00e9reo. Vemos que o \u00e9ter nos diz alguma coisa, tamb\u00e9m a \u00e1gua, o vento, o fogo, a terra e a madeira nos dizem alguma coisa. Algo surge dentro de n\u00f3s no contato com esses elementos. Voc\u00eas v\u00e3o perceber, todas as tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas v\u00e3o fazer conex\u00f5es. A \u00e1guia n\u00e3o \u00e9 a \u00e1guia no c\u00e9u, \u00e9 a \u00e1guia dentro de n\u00f3s, ela \u00e9 insepar\u00e1vel de n\u00f3s. N\u00e3o \u00e9 o urso l\u00e1 fora, \u00e9 o urso que brota dentro de mim quando vejo o urso. \u00a0 Quando vejo o urso, vejo que h\u00e1 alguma coisa dentro de mim. Quando eu olho para o lobo, algo surge dentro de mim. Cada animal tem um efeito. Quando surge o urso isso tem um efeito, uma energia dentro de mim, pode ser que eu consiga lidar bem, assumir essa energia e o urso se torna um protetor. Se eu n\u00e3o trabalhar bem com essa energia, eu tenho medo, n\u00e3o consigo me relacionar bem com a energia.<br \/>\n\u00c9 natural, se eu estiver num espa\u00e7o da natureza devo desenvolver uma capacidade de rela\u00e7\u00e3o com os v\u00e1rios elementos: \u00e1gua, terra, fogo, ar, \u00e9ter, urso, lobo, c\u00e3o, gato, tigre&#8230; \u00c9 necess\u00e1rio que eu desenvolva uma rela\u00e7\u00e3o l\u00facida com todos os elementos. Cada um desses elementos e animais vivem dentro de mim. Assim, na vis\u00e3o xam\u00e2nica, todos esses processos s\u00e3o deidades.<br \/>\nTamb\u00e9m os homens, por exemplo, ao olharem as mulheres surge uma energia dentro deles; as mulheres olham os homens e surge uma energia dentro delas<strong>. <\/strong>Podemos olhar homens e mulheres como deidades tamb\u00e9m.\u00a0 Essas deidades ultrapassam o fato de que a mulher se chama Maria ou o nome que ela tiver, vemos uma dimens\u00e3o feminina<strong>.<\/strong> Do mesmo sentido que eu posso ter uma chama no ch\u00e3o hoje, amanh\u00e3 vou ter outra fogueira, outra chama, mas \u00e9 o fogo; posso ter uma \u00e1gua que encontro hoje, uma \u00e1gua que encontro amanh\u00e3, mas \u00e9 \u00e1gua.\u00a0 Vou encontrando esses elementos que podemos chamar arquet\u00edpicos, mas \u00e9 prefer\u00edvel n\u00e3o usarmos essa no\u00e7\u00e3o, essa \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. \u00c9 mais que isso. Assim, podemos encontrar v\u00e1rios ursos, mas todos\u00a0 s\u00e3o ursos. V\u00e1rios lobos, mas todos s\u00e3o lobos. Temos essa dimens\u00e3o. Do mesmo modo encontramos v\u00e1rias deidades, como Cherenzig, Arya Tara, Manjushri, todos eles simbolizam estruturas dentro de n\u00f3s, por\u00e9m, a nossa linguagem agora \u00e9 diferente. Quando vejo os objetos, vejo essa linguagem dentro mim, \u00e9 uma linguagem particular, vamos nos relacionar com o mundo a partir dessa linguagem que \u00e9 totalmente m\u00e1gica. \u00c9 outra linguagem, outro processo. N\u00e3o lido mais com processos externos, vejo em todas as dimens\u00f5es aspectos m\u00e1gicos. Porque estou vendo essas deidades, vejo o objeto e a energia do objeto, vejo a a\u00e7\u00e3o da energia dentro de mim. Dessa forma, sei que estou na rela\u00e7\u00e3o com tal deidade.<br \/>\nIsso \u00e9 outra forma de intelig\u00eancia, outra forma de dar conta de tudo, muito mais sofisticada do que a usual, ainda assim, \u00e9 menos sofisticada que o budismo. \u00c9 uma forma xam\u00e2nica. O budismo tamb\u00e9m entra nisso, ele decomp\u00f5e e ultrapassa com<em> prajna<\/em>, que \u00e9 o pr\u00f3prio <em>prajnaparamita<\/em>. Pode-se usar essa linguagem, mas o <em>prajnaparamita<\/em> olha essa linguagem n\u00e3o no sentido do que o fogo faz sobre mim, do que o aspecto masculino\/feminino, ou o aspecto et\u00e9reo opera sobre n\u00f3s, mas no sentido de que podemos olhar os aspectos variados, entendemos como eles operam, utilizamos isso e, ainda assim, somos completamente independentes, livres de todas as energias que atuam sobre n\u00f3s atrav\u00e9s desses pr\u00f3prios processos; enquanto esse mestre xam\u00e3 vai compor os elementos como um m\u00e9dico administra princ\u00edpios ativos qu\u00edmicos para nos curar. O xam\u00e3 usa isso e reequilibra o nosso funcionamento porque ele pega um elemento, combina com o outro e nos ajuda a fazer isso. O mestre Xam\u00e3 \u00e9 capaz de entrar no nosso sonho e transformar a base do conte\u00fado do sonho. \u00c9 capaz de nos levar a ter um sonho espec\u00edfico que resignifica as nossas estruturas e nos deixa, por exemplo, imunes a elementos desse tipo. No budismo, ainda que isso seja visto como muito favor\u00e1vel, n\u00e3o estamos aqui compondo elementos como se fosse uma medicina, vamos nos tornar imunes pelo poder de <em>prajna<\/em> e n\u00e3o por uma combina\u00e7\u00e3o de elementos.<br \/>\nVoc\u00eas veem que todos esses universos s\u00e3o xam\u00e2nicos, m\u00e1gicos. Se pensarmos que n\u00e3o existe, estamos nos enganando, porque isso opera o tempo todo. Dentro do mundo da racionalidade convencional n\u00e3o percebemos, mas h\u00e1 essa presen\u00e7a incessante operando dentro de n\u00f3s, quer a gente entenda ou n\u00e3o. O mundo m\u00edstico, extraordin\u00e1rio, est\u00e1 presente onde estamos, o tempo todo.\u00a0 Os xam\u00e3s entendem de observar os p\u00e1ssaros e os animais todos, eles entendem como os v\u00e1rios elementos atuam dentro desses animais. Do mesmo modo, ouvimos um cachorro latindo porque h\u00e1 algo sobre o qual o cachorro est\u00e1 sens\u00edvel, existe um mundo interno no cachorro que d\u00e1 significado \u00e0s apar\u00eancias. Ao perceber o comportamento das plantas, dos cursos d\u2019\u00e1gua, dos animais, eles est\u00e3o sempre olhando isso e eles se tornam muito h\u00e1beis em perceber que em pequenas varia\u00e7\u00f5es h\u00e1 uma teia de respostas, de significados e de sonhos. A natureza inteira sonha e os xam\u00e3s veem os sonhos da natureza. Quando eles veem os sonhos da natureza, eles entendem os sinais, as transforma\u00e7\u00f5es, entendem o que est\u00e1 acontecendo. Essa \u00e9 uma vis\u00e3o muito mais profunda que a do ca\u00e7ador. Ele n\u00e3o est\u00e1 olhando isso porque quer ca\u00e7ar os animais, quer enriquecer ou quer poder. O xam\u00e3 \u00e9 um contemplador desses fatos todos. Essa contempla\u00e7\u00e3o do mestre xam\u00e2nico j\u00e1 tem uma compreens\u00e3o de vacuidade que pode ser real ou parcial, mas h\u00e1 essa dimens\u00e3o toda que temos que admitir que exista.<\/p>\n<h3>Fontes de ref\u00fagio | Ensinamentos de Jamgon Kongtrul Rinpoche<\/h3>\n<p>Iniciamos olhando esses aspectos m\u00edsticos e, aparentemente, eles seriam poucos. Mas agora j\u00e1 estamos vendo que h\u00e1 um universo m\u00edstico enorme. Como o budismo lida com isso? Qual \u00e9 a abordagem do budismo nesse sentido? Como vamos olhar esses fatos todos t\u00e3o complexos?<br \/>\nJamgon Kongtrul Rinpoche foi o primeiro mestre que eu ouvi falar. Curiosamente, \u00e9 uma conex\u00e3o interessante porque eu continuo vendo os ensinamentos dele, por uma raz\u00e3o ou outra ocorre esse fato. Jamgon Kongtrul Rinpoche \u00e9 Jamgon Kongtrul III. Encontrei-o em 1989 no Rio de Janeiro, alguns amigos da tradi\u00e7\u00e3o Shambala de Trungpa Rinpoche, que eram aqui do sul, sabiam o que se fazia no Cebb e disseram \u201cvoc\u00ea tem que conhecer Jamgon Kongtrul\u201d. Jamgon Kongtrul veio ao Rio de Janeiro, eles pagaram a passagem e me levaram para assistir o retiro com ele. Ele era um jovem, deveria ter em torno de 36 anos. Fiquei muito feliz com os ensinamentos sobre a vacuidade, sobre a natureza da realidade, especialmente sobre a compaix\u00e3o. \u00c9 muito bonito ver um grande mestre dizer \u201cN\u00e3o se sintam bobos ao praticar amor, alegria, equanimidade, entendam que isso \u00e9 lucidez.\u201d \u00c9 muito bom, porque temos poucas oportunidades de ouvir sobre isso. Na nossa vida ouvimos muitas coisas, mas pouco sobre a necessidade de praticarmos essas qualidades. Lembro da minha felicidade, voltando de \u00f4nibus de uma longa viagem do Rio de Janeiro, olhando todos aqueles ensinamentos que reafirmavam o que j\u00e1 est\u00e1vamos fazendo. \u00c9 maravilhoso poder ouvir os grandes mestres e dizer: esta \u00e9 a linhagem dos mestres budistas.<br \/>\nNa \u00e9poca eu estava conectado ao Zen, a palavra compaix\u00e3o \u00e9 muito pouco usada no Zen.\u00a0 Compaix\u00e3o e amor, se voc\u00eas ouvirem alguma vez num centro Zen, realmente \u00e9 alguma coisa extraordin\u00e1ria, porque eles n\u00e3o falam sobre isso. Nesse retiro, lembro que Jamgon Kongtrul falou sobre seis reinos e sobre ref\u00fagio. Falou sobre v\u00e1rias coisas, sobre a natureza da realidade tamb\u00e9m, mas me chamou a aten\u00e7\u00e3o essa quest\u00e3o dos seis reinos e dos ref\u00fagios, ele analisou as fontes de ref\u00fagio. Assim, vou iniciar a abordagem desse tema m\u00edstico atrav\u00e9s das fontes de ref\u00fagio, que \u00e9 um crit\u00e9rio especial que podemos imediatamente aproveitar.<br \/>\nCitei muitas diferentes deidades, muitos diferentes processos m\u00edsticos. Jamgon Kongtrul Rinpoche dizia: \u201cO ref\u00fagio \u00e9 alguma coisa que est\u00e1 al\u00e9m da imperman\u00eancia. Voc\u00eas n\u00e3o tomem ref\u00fagio em seres poderosos, for\u00e7as da natureza, manifesta\u00e7\u00f5es medi\u00fanicas, pessoas famosas, pessoas de poder, ou pessoas que tenham morrido. N\u00e3o tomem ref\u00fagio em pedras, montanhas, cursos d\u2019\u00e1gua. N\u00e3o percam tempo, todos esses aspectos s\u00e3o impermanentes, n\u00e3o t\u00eam a lucidez da natureza \u00faltima.\u201d A natureza \u00faltima n\u00e3o tem origem e n\u00e3o tem fim. Se pensarmos assim: urso, lobo, c\u00e3o, \u00e1guia, fogo, \u00e1gua, terra, ar, todas essas coisas t\u00eam um comportamento relacional, elas pertencem ao mundo, s\u00e3o for\u00e7as reais, mas n\u00e3o s\u00e3o fontes de ref\u00fagio.<br \/>\nQuando buscarmos apoio nos aspectos m\u00edsticos que n\u00e3o representam a natureza ilimitada, sem origem e sem fim, sem espa\u00e7o e tempo, sem nome e forma, estaremos nos fixando a fontes de ref\u00fagio que nos levam a perpetuar o comportamento de equilibristas. Se estiver doente, eu tomo um rem\u00e9dio e esse rem\u00e9dio equilibra a minha febre, por exemplo. \u00c9 muito importante que eu saiba tomar um rem\u00e9dio e baixar a febre, isso \u00e9 muito \u00fatil, mas esse rem\u00e9dio que baixa a febre n\u00e3o \u00e9 a sa\u00fade; ele \u00e9 um rem\u00e9dio que baixa a febre, n\u00e3o podemos comparar isso com a sa\u00fade.\u00a0 Chegamos numa farm\u00e1cia e temos milhares de subst\u00e2ncias a nossa disposi\u00e7\u00e3o, cada uma delas nos arrasta numa dire\u00e7\u00e3o. Nenhuma delas \u00e9 um frasco que eu abro e digo \u201cisso \u00e9 sa\u00fade\u201d. Todos eles s\u00e3o processos h\u00e1beis que n\u00f3s, como se tiv\u00e9ssemos um bambu, estamos equilibrando e em nenhum momento vamos poder parar, se parar o bambu cai.\u00a0 Todas as fontes de ref\u00fagio que v\u00eam do movimento do meu bra\u00e7o s\u00e3o importantes, por isso o bambu est\u00e1 equilibrado, mas tenho um movimento incessante. Ele est\u00e1 equilibrado, mas com uma sucess\u00e3o de movimentos desequilibrados, uma sucess\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es em desequil\u00edbrio. \u00c9 necess\u00e1rio que eu esteja constantemente focado para equilibrar isso.<br \/>\nH\u00e1 uma \u00fanica posi\u00e7\u00e3o que, enfim, h\u00e1 o equil\u00edbrio, chamamos essa posi\u00e7\u00e3o de fonte de ref\u00fagio. Essa fonte de ref\u00fagio \u00e9 a origem de todas as manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 um movimento desequilibrado. Essa origem de todas as manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 a pr\u00f3pria natureza de Buda dentro de n\u00f3s, est\u00e1 fora da roda da vida. Quando estamos dentro da roda da vida oscilamos com isso. Essa \u00e9 a resposta parcial, isso n\u00e3o encerra a nossa conversa. Mas, dentro de toda essa diversidade m\u00edstica, ela nos oferece um elemento. Dentro dessa diversidade toda de influ\u00eancias h\u00e1 uma fonte de ref\u00fagio que \u00e9 a natureza ilimitada que n\u00e3o tem in\u00edcio e n\u00e3o tem fim, n\u00e3o tem nome e forma. Nossa natureza \u00e9 incessante, luminosa, onisciente, compassiva, amorosa. Ela n\u00e3o \u00e9 assim porque certo evento surge, \u00e9 assim incessantemente. Come\u00e7amos a comparar as fontes de ref\u00fagio verdadeiras com as fontes de ref\u00fagio que s\u00e3o rem\u00e9dio, elas t\u00eam qualidades, mas s\u00e3o rem\u00e9dios, s\u00e3o fontes de ref\u00fagio parciais. Por exemplo, a nossa conta banc\u00e1ria \u00e9 uma fonte de ref\u00fagio parcial. N\u00e3o posso pensar que ela vai durar para sempre. A nossa conta banc\u00e1ria pode ser roubada, podemos ter v\u00e1rios problemas. Mas se eu disser que ela n\u00e3o tem nenhum valor, isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade, ela tem um valor, a conta banc\u00e1ria \u00e9 algo extraordin\u00e1rio.<br \/>\nAs fontes de ref\u00fagio comuns s\u00e3o muito importantes. Se adoecermos chamaremos um m\u00e9dico, chamaremos um xam\u00e3. Vamos pedir\u00a0 \u201cPor favor, me ajude. Eu queria uma sobrevidazinha.\u201d Ele vai dizer \u201cIsso \u00e9 f\u00e1cil: n\u00e3o coma tal coisa, abandone o a\u00e7\u00facar branco, farinha branca e provavelmente tudo vai melhorar. Fa\u00e7a uma dieta de dez dias de arroz integral bem cozido, etc.\u201d E a partir disso melhoramos e recobramos a sa\u00fade,\u00a0 porque o arroz integral \u00e9 um bom protetor. Existem muitos bons protetores, mas nenhum desses protetores \u00e9 n\u00e3o nascido, ilimitado, incessante, nenhum deles cura a morte.\u00a0 Esses protetores s\u00e3o \u00fateis, mas eles n\u00e3o se comparam com a natureza ilimitada, porque a natureza ilimitada nos protege da morte, nos leva al\u00e9m de vida e morte, al\u00e9m de nome e forma. Essa natureza se manifesta incessantemente. Se soubermos disso, \u00f3timo, se n\u00e3o soubermos, estamos perdidos. Mas, de fato, mesmo n\u00e3o sabendo, nos achando perdidos, n\u00e3o estamos perdidos. Nossa natureza \u00e9 infal\u00edvel, ela \u00e9 \u00f3tima no sentido de que mesmo que eu n\u00e3o saiba, eu n\u00e3o me perco. Todas as tradi\u00e7\u00f5es v\u00e3o dizer isso, n\u00f3s morremos e n\u00e3o termina. At\u00e9 mesmo na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o termina. Apenas na tradi\u00e7\u00e3o niilista, n\u00f3s morremos e viramos um buraco negro.<\/p>\n<h3>Grande Perfei\u00e7\u00e3o | Aspectos m\u00edsticos como express\u00f5es da natureza ilimitada<\/h3>\n<p>Existem as fontes de ref\u00fagio que, na verdade, s\u00e3o uma \u00fanica fonte de ref\u00fagio que representa a natureza ilimitada. Esse \u00e9 o grande diferencial. A natureza ilimitada est\u00e1 al\u00e9m de espa\u00e7o e tempo, nome e forma, vida e morte; somos insepar\u00e1veis disso, esse \u00e9 o aspecto m\u00edstico budista m\u00e1ximo. Quando praticamos em sil\u00eancio n\u00e3o estamos olhando nada dos aspectos m\u00edsticos, estamos centrados diretamente em localizar isso que n\u00e3o tem in\u00edcio e n\u00e3o tem fim, nem nome e nem forma. Essa \u00e9 a nossa experi\u00eancia fundamental, portanto, mesmo que a gente n\u00e3o tenha focado a compara\u00e7\u00e3o com as tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas, medi\u00fanicas, ou seja qual for a tradi\u00e7\u00e3o, naturalmente estamos focando o ponto principal.\u00a0 Se localizarmos essa natureza, ultrapassamos todas as outras fontes num \u00fanico salto sem precisar passar por dentro delas, e isso o caminho Mahayana faz.<br \/>\nAssim, vem a pergunta: essa diversidade de budas, como fica? O que veremos agora j\u00e1 \u00e9 algo mais sofisticado ainda. Por exemplo, dentro desse olho extraordin\u00e1rio onde vemos todas as coisas aparentes como insepar\u00e1veis da natureza de Buda, vamos reconhecer todas as coisas como vacuidade, isso \u00e9 o <em>prajnaparamita<\/em>. Todos os <em>darmas<\/em> s\u00e3o vacuidade, s\u00e3o surgidos, s\u00e3o express\u00f5es dessa natureza luminosa e vazia. Os ursos s\u00e3o assim, os lobos s\u00e3o assim, todas as formas s\u00e3o surgidas dessa manifesta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgora fizemos um <em>up grade<\/em> na nossa vis\u00e3o.\u00a0 N\u00e3o estamos dizendo: os lobos s\u00e3o lobos. Os lobos s\u00e3o manifesta\u00e7\u00e3o da natureza \u00faltima, por isso s\u00e3o lobos. Olhamos os ursos, os animais todos, olhamos cada vegeta\u00e7\u00e3o. Ao olhar para uma roseira observe o que acontece dentro de voc\u00ea, com a rosa e com a planta. Capture essa energia da roseira, ela est\u00e1 presente dentro de voc\u00ea.\u00a0 Ela est\u00e1 ali, mas tem uma presen\u00e7a luminosa que produz a apar\u00eancia da roseira como ela \u00e9. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da natureza ilimitada que se fez roseira, outra natureza ilimitada se fez pinheiro, outra se fez pedra, se fez as v\u00e1rias coisas, tem uma energia correndo por dentro dela, tem uma liberdade se manifestando assim. Todos esses seres s\u00e3o aquela apar\u00eancia, mas aquela apar\u00eancia est\u00e1 em cont\u00ednua muta\u00e7\u00e3o, portanto elas s\u00e3o essencialmente uma energia de vacuidade e luminosidade em constante transforma\u00e7\u00e3o, em constante busca de equil\u00edbrio, como n\u00f3s tamb\u00e9m. As folhas v\u00eam, as folhas caem, a seiva sobe, a seiva diminui, a chuva vem, o sol vem e tem mudan\u00e7as incessantes. Tem uma presen\u00e7a viva ali dentro, uma presen\u00e7a c\u00f3smica, extraordin\u00e1ria, n\u00e3o h\u00e1 nada na natureza que n\u00e3o tenha essa energia circulando, essa energia viva operando. Olhamos desse modo e vemos budas com diferentes faces, com todas as manifesta\u00e7\u00f5es. Vemos a energia de budas se manifestando e produzindo aquelas faces todas. Desse modo, estamos contemplando a vacuidade e luminosidade, porque essa energia de Buda \u00e9 a pr\u00f3pria vacuidade e luminosidade, incessantemente se manifestando em todas as apar\u00eancias.<br \/>\nVeremos que h\u00e1 apar\u00eancias mais sutis, extraordin\u00e1rias, como a bondade dentro de n\u00f3s, por exemplo. Vemos surgir bondade, compaix\u00e3o, amor, alegria, mas n\u00e3o sabemos de onde surgem. Surge amor, mas vem de onde mesmo? Com isso, come\u00e7amos a intuir as deidades, localizamos esse amor como manifesta\u00e7\u00e3o dos budas, do mesmo modo que as pedras, as plantas, os ursos, os lobos, as minhocas, os cachorros, os gatos, n\u00f3s, os seres.\u00a0 H\u00e1 um n\u00edvel mais sutil, vamos chamar isso, nos n\u00edveis das deidades, de Buda. Veremos os grandes meditantes em retiros, parados, sem piscar, eles localizam a natureza \u00faltima. Eles v\u00eam que dessa natureza \u00faltima surge a medita\u00e7\u00e3o, da medita\u00e7\u00e3o surgem os cinco Diani Budas, dos cinco Diani Budas surgem outras express\u00f5es mais sutis que n\u00e3o s\u00e3o propriamente humanas ou f\u00edsicas, s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se traduzir dentro de n\u00f3s e dos seres. A compaix\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma qualidade apenas dos seres humanos, ela j\u00e1 \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria porque a compaix\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de autoprote\u00e7\u00e3o, \u00e9 um mecanismo de prote\u00e7\u00e3o mais amplo. \u00c9 uma deidade, isso \u00e9 Buda se manifestando. E assim vamos ver diferen\u00e7as que v\u00e3o ser representadas, enfim, por deidades, com corpo antropom\u00f3rfico, com corpo com apar\u00eancia humana, human\u00f3ides.<br \/>\nVoc\u00eas olhem Dorje Drolo,\u00a0 que pode ser mal interpretado, porque aquela apar\u00eancia dele est\u00e1 mais ou menos. Dorje Drolo significa o devorador de dem\u00f4nios, um nome tamb\u00e9m n\u00e3o muito tranquilizador. Dorje Drolo representa a capacidade de nos defrontarmos com tudo aquilo que \u00e9 negativo e ultrapassarmos esse aspecto de negatividade. Quando entendemos a natureza da vacuidade dentro de n\u00f3s, imediatamente sabemos que nada resiste a essa vacuidade. Todas as coisas ultrapassam as apar\u00eancias, todas as apar\u00eancias s\u00e3o transit\u00f3rias. Quando nos valemos dessa vacuidade, olhamos os aspectos atemorizadores diante de n\u00f3s e dizemos \u201cIsso \u00e9 constru\u00eddo.\u201d A sua ess\u00eancia \u00e9 vacuidade e luminosidade, n\u00e3o tenho porque temer.\u00a0 Mas \u00e9 Dordje Drolo o protetor, porque \u00e9 apenas o aspecto externo que \u00e9 tocado,\u00a0 a nossa ess\u00eancia n\u00e3o pode ser tocada. Ent\u00e3o, devorador de dem\u00f4nios \u00e9 aquele que olha para os dem\u00f4nios, ele n\u00e3o tem medo. Na verdade, revelando a natureza aparente do dem\u00f4nio como uma constru\u00e7\u00e3o, ele dissolve o dem\u00f4nio, todos os dem\u00f4nios se assustam.<br \/>\nAo olharmos para Dorje Drolo o que \u00e9 que treme dentro de n\u00f3s? Quando vemos uma figura assustadora, o que \u00e9 que treme dentro de n\u00f3s? Voc\u00eas acham que a nossa natureza ilimitada treme? Ou \u00e9 a nossa natureza de fragilidade, s\u00e3o as nossas constru\u00e7\u00f5es que tremem? S\u00e3o elas que tremem! Quando voc\u00eas olham uma figura assustadora e tremem, Dorje Drolo est\u00e1 presente ali, por que ele fez tremer o que? Aquilo que n\u00e3o somos. Dorje<em> <\/em>Drolo apareceu e olhou para n\u00f3s e vimos que fomos olhados, a nossa fragilidade viu Dorje<em> <\/em>Drolo. Dorje Drolo est\u00e1 ali. Tudo isso \u00e9 o aspecto m\u00edstico. Vemos uma imagem e trememos, porque dentro de n\u00f3s o aspecto de fragilidade, de engano que queremos sustentar de qualquer jeito tremeu. Dorje Drolo est\u00e1 vivo e faz um contato direto com os dem\u00f4nios que acalentamos como se fossem n\u00f3s mesmos , carcereiros, que prendem a nossa mente. Dordje Drolo faz um contato direto, \u00e9 a habilidade dessa linguagem. Quando voc\u00eas olharem uma imagem desse tipo, que \u00e9 um buda irado, e voc\u00eas tremerem dentro ou sentirem respeito, voc\u00eas agrade\u00e7am, voc\u00eas receberam uma transmiss\u00e3o, voc\u00eas foram tocados por esse Buda. Ofere\u00e7am pelo menos um incenso e guardem isso porque \u00e9 muito importante. Essa \u00e9 uma linguagem n\u00e3o verbal, uma linguagem extraordin\u00e1ria. Voc\u00eas n\u00e3o pensem que isso \u00e9 por acaso, todos esses elementos foram desenvolvidos pelos budas.<br \/>\nQual foi a intelig\u00eancia que gerou esse procedimento para nos ajudar a localizar isso? Quem foi que gerou isso? \u00c9 uma intelig\u00eancia b\u00fadica, uma intelig\u00eancia como Manjushri, como Cherenzig, Avalokitesvara, que olha para os seres atrapalhados e tenta gerar um mecanismo de ajud\u00e1-los, mesmo que n\u00e3o tenham capacidade de entender, com dificuldade de racioc\u00ednio, que n\u00e3o sejam alfabetizados, eles olham para Dorje Drolo e entendem alguma coisa. Essa \u00e9 uma linguagem extraordin\u00e1ria, assim surgem as v\u00e1rias deidades. Voc\u00eas respeitem cada um dos protetores porque eles est\u00e3o trabalhando nessa dimens\u00e3o.<br \/>\nEssa dimens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais sutil que a dimens\u00e3o do sil\u00eancio, da decomposi\u00e7\u00e3o das apar\u00eancias e a compreens\u00e3o da natureza ilimitada dentro do sil\u00eancio. Se pudermos avan\u00e7ar assim, estamos andando num caminho direto muito r\u00e1pido. Com essa forma do sil\u00eancio que usamos aqui avan\u00e7amos diretamente no ponto.\u00a0 N\u00e3o precisamos palmilhar todos os nossos medos. Nos refor\u00e7amos no contato com a natureza \u00faltima e quando encontramos os medos, n\u00f3s sorrimos para eles, \u00e9 mais f\u00e1cil. Se n\u00e3o temos essa compreens\u00e3o, no in\u00edcio olhamos as v\u00e1rias deidades e nos assustamos. Talvez n\u00e3o seja no in\u00edcio, durante um longo tempo n\u00f3s desenvolvemos uma rela\u00e7\u00e3o de susto e de incompreens\u00e3o. Vamos recitar muitas vezes os mantras, vamos ouvir ensinamentos, receber inicia\u00e7\u00f5es para poder operar dentro disso, at\u00e9 que a gente tenha uma realiza\u00e7\u00e3o. Mas se temos o caminho direto e olhamos de forma nua, direta, com a perfei\u00e7\u00e3o da sabedoria avan\u00e7amos mais r\u00e1pido.<br \/>\nH\u00e1 esse universo m\u00edstico, essa linguagem maravilhosa. Espero com o tempo que a gente tamb\u00e9m tenha templos aqui dentro para a \u00e1gua, para o ar, para o fogo, para as v\u00e1rias deidades. Temos uma \u00e1rea aqui no Cebb Caminho do Meio onde podemos ter pequenos templos, pequenos recantos, que nos permitir\u00e3o ter contato com essas deidades, podemos senti-las todas como representando a natureza ilimitada. Isso seria um avan\u00e7o, algo maravilhoso podermos nos relacionar a partir dessa no\u00e7\u00e3o de <em>prajnaparamita<\/em>. Temos a no\u00e7\u00e3o de luminosidade e vacuidade, n\u00e3o precisamos virar os olhos, abandonar, podemos olhar e ver que todas as deidades se curvam a Guru Rinpoche. Guru Rinpoche entra no Tibete, todas as deidades fazem prostra\u00e7\u00f5es, todas as imagens, todos os yidans fazem prostra\u00e7\u00f5es para Guru Rinpoche.\u00a0 Dizemos que quando o Buda Sakiamuni entra na sala todas as deidades se curvam ao Buda. Por mais poderosas e gigantescas, por mais maravilhosas que sejam, elas se curvam a Cherenzig, se curvam a Buda Sakiamuni, a Guru Rinpoche. Quando Guru Rinpoche entrou no Tibete, as montanhas se curvaram a Guru Rinpoche, os cursos d\u2019\u00e1gua, todas as deidades comuns se tornaram protetores do Darma.<br \/>\nA linguagem m\u00edstica existe, existe o mundo m\u00edstico, existe o olho m\u00edstico, mas a primeira transi\u00e7\u00e3o que fazemos quando acessamos esse ponto m\u00edstico \u00e9 observar: as deidades s\u00e3o permanentes ou n\u00e3o? Est\u00e3o submetidas \u00e0 roda da vida ou n\u00e3o? Voc\u00eas v\u00e3o ver que todas as deidades est\u00e3o submetidas \u00e0 roda da vida, exceto \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es dos budas. As manifesta\u00e7\u00f5es dos budas n\u00e3o t\u00eam origem e n\u00e3o t\u00eam fim, elas s\u00e3o a natureza ilimitada, s\u00e3o as fontes verdadeiras de ref\u00fagio. Agora, quando vemos as fontes verdadeiras de ref\u00fagio, podemos entender que todas as manifesta\u00e7\u00f5es comuns, todas as apar\u00eancias da roda da vida, t\u00eam por ess\u00eancia a natureza ilimitada. Somos capazes de converter qualquer linguagem comum na manifesta\u00e7\u00e3o da sabedoria de todos os budas e desse modo podemos olhar os ursos, os lobos, as plantas, os cursos d\u2019\u00e1gua, os cinco elementos, podemos v\u00ea-los como express\u00f5es da natureza \u00faltima tamb\u00e9m. Assim, a vis\u00e3o xam\u00e2nica se funde com a vis\u00e3o b\u00fadica. Esse \u00e9 o di\u00e1logo que aconteceu dentro do Tibete quando v\u00eam os budas,\u00a0 se defrontam com as tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas antigas e se fundem com o budismo tibetano, olhando tudo isso de forma m\u00edstica e, al\u00e9m disso, transcendo o aspecto m\u00edstico, mas usando a pr\u00f3pria linguagem.<br \/>\nDesse modo, voc\u00eas n\u00e3o tenham medo e procurem compreender as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es dessa maneira. A forma como trabalhamos no Cebb \u00e9, especialmente, com essa dimens\u00e3o do sil\u00eancio e da lucidez, que \u00e9 a dimens\u00e3o que usei para explicar isso hoje. Passeamos por dentro do universo m\u00edstico, mas usamos uma linguagem Mahayana, uma linguagem que explica, examina, v\u00ea exemplos, compreende e traz a perfei\u00e7\u00e3o da sabedoria;\u00a0 linguagem pela qual entendemos que todos os fen\u00f4menos, portanto, todas as deidades, fontes de ref\u00fagio, todo o samsara, todos os seis reinos s\u00e3o express\u00f5es da mesma natureza ilimitada. E, assim, vamos chamar tudo isso de Grande Perfei\u00e7\u00e3o, de <em>Kadag<\/em>. Tudo isso tem uma pureza natural. Quando os budas olham as coisas eles n\u00e3o acham que est\u00e3o erradas, eles olham e sorriem porque veem a perfei\u00e7\u00e3o em todas as coisas.<br \/>\n<em><br \/>\nTranscri\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o: Andiara Paz<\/em><br \/>\n&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transcri\u00e7\u00e3o da palestra realizada pelo Lama Padma Samten no CEBB Caminho do Meio, Viam\u00e3o (RS), em 13 de abril 2005.<\/p>","protected":false},"author":119,"featured_media":16273,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[417],"tags":[],"class_list":["post-16272","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensinamentos"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Mahayana e os Aspectos M\u00edsticos - Centro de Estudos Budistas Bodisatva<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/cebb.org.br\/en\/o-mahayana-e-os-aspectos-misticos\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_GB\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Mahayana e os Aspectos M\u00edsticos - 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