{"id":22871,"date":"2015-09-01T16:58:23","date_gmt":"2015-09-01T19:58:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/?p=22871"},"modified":"2015-09-01T16:58:23","modified_gmt":"2015-09-01T19:58:23","slug":"lama-padma-samten-na-zero-hora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/en\/lama-padma-samten-na-zero-hora\/","title":{"rendered":"Lama Padma Samten na Zero Hora"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o meditamos para achar a felicidade: ela j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1&#8221;<br \/>\nEm entrevista a Zero Hora, o cientista fala como se tornou l\u00edder espiritual budista.<br \/>\n<!--more--><br \/>\npor Lara Ely (<a href=\"http:\/\/zh.clicrbs.com.br\/rs\/vida-e-estilo\/noticia\/2015\/08\/lama-padma-samten-nao-meditamos-para-achar-a-felicidade-ela-ja-esta-la-4836110.html\">fonte<\/a>)<br \/>\n<em>Casado, com cinco filhos, o f\u00edsico ga\u00facho Alfredo Aveline, 66 anos, disc\u00edpulo do mestre Chagdud Rinpoche (o fundador do Templo Budista de Tr\u00eas Coroas), \u00e9 presidente do Centro de Estudos Budistas Bodisatva e tornou-se uma refer\u00eancia na dissemina\u00e7\u00e3o do budismo tibetano no Brasil. Reconhecendo suas qualidades de l\u00edder espiritual, Rinpoche, em dezembro de 1996, ordenou Aveline como Lama Padma Samten \u2013 (\u201clama\u201d \u00e9 o sacerdote; \u201cpadma\u201d significa l\u00f3tus; e \u201csamten\u201d refere-se \u00e0 capacidade meditativa). Desde ent\u00e3o, Lama Samten tem viajado, ensinado e ajudado a estruturar e manter grupos pelo pa\u00eds.<\/em><br \/>\n<em>Fundada em 1986, sua organiza\u00e7\u00e3o tem sedes nas cinco regi\u00f5es brasileiras e planeja expans\u00e3o dentro do Estado. Recebeu treinamento de professores de v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es budistas, incluindo a zen, e viajou \u00e0 \u00c1sia em muitas ocasi\u00f5es. Contribuiu para trazer grandes mestres para o Brasil, incluindo o Dalai Lama.<\/em><br \/>\n<iframe src=\"http:\/\/videos.clicrbs.com.br\/rs\/zerohora\/videonews\/133671\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" width=\"640\" height=\"360\"><\/iframe><br \/>\n<em>Professor de f\u00edsica da UFRGS durante 25 anos, de 1969 a 1994, Samten \u00e9 articulista da Revista Vida Simples e teve parte de seus ensinamentos publicados nos livros Joia dos Desejos, O Lama e o Economista, Ensinamentos de Bolso: Rela\u00e7\u00f5es e Conflitos e Mandala de L\u00f3tus. Mora no centro principal do Instituto Caminho do Meio, em Viam\u00e3o, e divide-se entre os cuidados com os filhos mais jovens e as viagens pelo Brasil. Nesta entrevista, concedida em uma manh\u00e3 de inverno, em frente a sua lareira e acompanhada de bolo caseiro de milho e ch\u00e1 indiano com especiarias, o Lama fala sobre como o budismo pode deixar a vida mais calma nos dias de hoje, mas alerta: n\u00e3o \u00e9 preciso acess\u00e1-lo para sempre.<\/em><br \/>\n<em>\u2013 O budismo \u00e9 um rem\u00e9dio. Tem um momento em que ele \u00e9 abandonado \u2013 ensina.<\/em><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>O senhor foi professor universit\u00e1rio de f\u00edsica durante 25 anos. Como se tornou budista?<\/strong><br \/>\nDemorou um pouco de tempo. Praticava yoga quando adolescente, por volta dos 16 anos, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. Eu vivia na cidade de Rio Grande, que considero minha cidade natal. Nasci em Porto Alegre, mas vivi l\u00e1 toda a minha juventude, at\u00e9 voltar para estudar na Capital. Tive essa conex\u00e3o com a yoga, mas tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que tinha algo muito profundo a ser descoberto. Fui buscar por dentro da ci\u00eancia, mas acabei me encontrando com o budismo, no in\u00edcio dos anos 1970, e com o movimento ecol\u00f3gico, j\u00e1 no final da d\u00e9cada. Isso foi por meio de amigos como o Celso Marques (fil\u00f3sofo e ex-presidente da Agapan) e o Jos\u00e9 Lutzenberger (ecologista morto em 2002), com quem tive bons momentos. Um deles foi a luta contra a instala\u00e7\u00f5es das centrais nucleares. Meu interesse foi se ampliando e percebi que a quest\u00e3o ecol\u00f3gica demandava uma transforma\u00e7\u00e3o interna. Estava lecionando na universidade e vi a limita\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo cient\u00edfico. Vi como os cientistas se enganam. A gente olha a realidade, ela parece de um jeito, mas na verdade \u00e9 de outro. Fiquei interessado pelo erro, em estudar como a mente se engana. O budismo ajudou a entender isso. A\u00ed juntou tudo: movimento ecol\u00f3gico, f\u00edsica e budismo.<br \/>\n<strong>Como foi sua participa\u00e7\u00e3o desse momento no ambientalismo?<\/strong><br \/>\nDepois de 1974, na \u00e9poca do general Ernesto Geisel, foi feito o acordo Brasil-Alemanha para implantar centrais nucleares. Decidiram fazer uma no Rio Grande do Sul, e fui uma das pessoas que escreveram os primeiros textos dentro da comunidade cient\u00edfica contra as centrais nucleares. Fiz isso com meus alunos da UFRGS. Passei a integrar a Sociedade Brasileira do Progresso da Ci\u00eancia. Convidaram-me para discutir o assunto na Sociedade Brasileira de F\u00edsica. Realizei v\u00e1rios encontros, f\u00f3runs sobre o tema na Assembleia Legislativa. Em um certo momento, o deputado Carlos Augusto de Souza fez uma emenda proibindo a constru\u00e7\u00e3o (de usinas nucleares) no Estado, ao lado da Borregaard. Outras assembleias legislativas no pa\u00eds come\u00e7aram a fazer o mesmo.<br \/>\nO governo veio aqui tentar convencer os deputados. Depois veio o governo federal e vetou a lei. Mas o programa ficou congelado por aqui.<br \/>\n<strong>Como o senhor fez a transi\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia para a religi\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEstava no terceiro ano de F\u00edsica, estudando teorias antigas. Minha turma era unida, e questionamos por que estudar as teorias antigas e n\u00e3o as modernas. Ach\u00e1vamos que estudar f\u00edsica qu\u00e2ntica traria mais respostas. Mas essas teorias modernas da f\u00edsica n\u00e3o eram um conte\u00fado da universidade. Quando terminei a faculdade, fiz p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e estava muito focado em entender aquilo. Comecei a estudar os cl\u00e1ssicos: Niels Bohr, Albert Einstein, Max Planck, Erwin Schr\u00f6dinger, que traziam diferentes vis\u00f5es. Eles se digladiavam! Comecei a me posicionar dentro das explica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Vi que havia um paralelismo: como a mente funciona e como ela percebe as coisas. E a\u00ed, surge o espa\u00e7o para o engano. Isso est\u00e1 nas apresenta\u00e7\u00f5es dos livros. Aquela parte que a gente costuma pular. Li um outro autor, chamado Albert Messiah (f\u00edsico franc\u00eas), que falava sobre a quest\u00e3o da medida. Me pareceu interessante. N\u00e3o consegui ir at\u00e9 o fim, pois, \u00e0 medida que descortinei, migrei para o budismo. O cientista de modo geral pensa que a medida \u00e9 neutra, mas ela n\u00e3o \u00e9. Tem sempre uma pergunta que vem dentro de uma teoria. Por isso que eu pergunto: qual a intensidade do campo el\u00e9trico? Tem uma por\u00e7\u00e3o de conceitos anteriores operando dentro da pergunta. E isso j\u00e1 enfoca as possibilidades de resposta. Niels Bohr se deu conta disso, e criou uma \u00e1lgebra e um processo de gest\u00e3o do conhecimento que leva isso em conta. Ele cria a possibilidade de sair de dentro de uma perspectiva e pular para outra. Isso se aplica n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 f\u00edsica qu\u00e2ntica, mas ao mundo inteiro. \u00c9 como se o mundo todo fosse qu\u00e2ntico. Estamos aqui calmos, em uma bolha de realidade, mas quando passarmos para outra situa\u00e7\u00f5es, vamos mudar a perspectiva, vamos para outra bolha. S\u00e3o os saltos qu\u00e2nticos.<br \/>\n<figure id=\"attachment_22875\" aria-describedby=\"caption-attachment-22875\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/cebb.org.br\/en\/lama-padma-samten-na-zero-hora\/attachment\/17600634\/\" rel=\"attachment wp-att-22875\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-22875\" title=\"lama-1982\" src=\"http:\/\/www.cebb.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/17600634-620x412.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"412\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-22875\" class=\"wp-caption-text\">1982: Aveline (\u00e0 esquerda) licenciou-se do departamento de F\u00edsica da UFRGS para viver na comunidade Rodeio Bonito, por dois anos.<\/figcaption><\/figure>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>O que s\u00e3o saltos qu\u00e2nticos?<\/strong><br \/>\nVivemos dentro de bolhas de realidade. Essas perspectivas criam realidades, que criam coer\u00eancias, causalidades, urg\u00eancias, vis\u00f5es de futuro. Saltamos de uma bolha para outra. A gente olha a realidade de um jeito, mas trocamos a base de racioc\u00ednio de acordo com a realidade que queremos ver. Isso s\u00e3o os saltos qu\u00e2nticos. A f\u00edsica qu\u00e2ntica, nessa perspectiva, \u00e9 abordada em uma vis\u00e3o mais filos\u00f3fica, mais psicol\u00f3gica. Os f\u00edsicos, quem est\u00e1 dentro da universidade, torcem o nariz para isso. Acham que \u00e9 especula\u00e7\u00e3o sem sentido. Mas, de fato, quando as pessoas est\u00e3o doentes, elas est\u00e3o doentes dentro de uma bolha de realidade. Tem alguma coisa que as adoece, trabalho, relacionamento. Elas t\u00eam algo que est\u00e1 pesado, mas se elas mudarem a posi\u00e7\u00e3o da mente, pode ser que aquilo n\u00e3o pese mais. Na \u00e1rea m\u00e9dica, especialmente dentro das terapias alternativas, as pessoas veem que, se a mente se posicionar de outra forma, isso n\u00e3o incomoda mais, alivia a tens\u00e3o, desaparece, tudo muda. \u00c9 assim que as religi\u00f5es funcionam. Elas rezam pelas pessoas, e aquilo mostra uma outra perspectiva. Quando trocamos a bolha de realidade, aquilo muda.<br \/>\n<strong>Como trocar a bolha de realidade?<\/strong><br \/>\nO budismo n\u00e3o diz que a gente deva mudar de bolha. Ele observa que a gente opera em v\u00e1rias bolhas ao mesmo tempo. Temos v\u00e1rias identidades no mundo. Cada identidade tem coer\u00eancias diferentes, regras diferentes. As pessoas t\u00eam a bolha de m\u00e3e, a bolha de funcion\u00e1rio, a bolha de aluno da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. As bolhas s\u00e3o os diferentes pap\u00e9is que a gente desempenha. Quando saio de uma bolha para a outra, o contexto muda, uso outros referenciais para me movimentar.<br \/>\n<strong>O senhor \u00e9 muito procurado por pessoas que querem mudar ou curar seu estilo de vida?<\/strong><br \/>\nSim, essa \u00e9 uma das portas de entrada. As pessoas est\u00e3o doentes, com crises familiares, querem achar uma outra sa\u00edda. Olhar de forma mais ampla a pr\u00f3pria realidade.<br \/>\n<strong>E muitos permanecem no budismo?<\/strong><br \/>\nEntre os meus alunos, quase todos passaram por esse processo de mudan\u00e7a na vida. Aqui (no Centro de Estudos Budistas Bodisatva \u2013 CEBB, em Viam\u00e3o) a gente tenta estabelecer uma base mais permanente. Vivem aqui 80 adultos e 30 crian\u00e7as. Elas n\u00e3o t\u00eam obriga\u00e7\u00f5es, elas escolhem morar neste local porque se identificam. Temos uma escola tamb\u00e9m, onde ensinamos as crian\u00e7as. \u00c9 uma escola n\u00e3o religiosa, que tem a base da filosofia budista, mas que ensina para a vida, ensina como escolher bolhas melhores.<br \/>\n<strong>Como \u00e9 feita a escolha das pessoas que vivem no CEBB?<\/strong><br \/>\nElas v\u00eam a partir de contato com outras pessoas. As pessoas se unem por afinidade. Sempre me consultam. Temos uma coordena\u00e7\u00e3o que opina, monitora, mas neste momento n\u00e3o temos mais lugares por aqui. Temos outros espa\u00e7os como este no pa\u00eds. Estamos na Bahia, em Pernambuco, Goi\u00e1s, Paran\u00e1, Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Aqui \u00e9 a matriz, \u00e9 o maior centro. Eu os visito constantemente, viajo muito para acompanhar esses espa\u00e7os e fazer esse esfor\u00e7o administrativo. Temos tr\u00eas escolas, uma aqui, outra na Vila Castelinho (pr\u00f3ximo \u00e0 sede do Caminho do Meio) e outra que fica no Alto Para\u00edso, em Goi\u00e1s. Estamos seguindo nosso processo, expandindo. Compramos uma \u00e1rea na regi\u00e3o dos c\u00e2nions, em breve tem mais um vindo.<br \/>\n<strong>Quem paga para manter esses centros?<\/strong><br \/>\nAqui n\u00e3o tem mensalidade. A gente acha importante que seja assim, para manter a pureza. Nosso m\u00e9todo \u00e9 a tigela do Buda. Ele pedia. Fazemos eventos, e quem pode contribuir, contribui. Umas pessoas pagam para estar aqui, outras recebem. Mas fazemos muitos eventos. A\u00ed as pessoas ajudam. Por exemplo, os pais colaboram na escola.<br \/>\n<figure id=\"attachment_22874\" aria-describedby=\"caption-attachment-22874\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/cebb.org.br\/en\/lama-padma-samten-na-zero-hora\/attachment\/17600639\/\" rel=\"attachment wp-att-22874\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-22874\" title=\"Lama-e-Chagdud-1998\" src=\"http:\/\/www.cebb.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/17600639-620x412.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"412\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-22874\" class=\"wp-caption-text\">1998: Aveline com o fundador do templo de Tr\u00eas Coroas, o tibetano Chagdud Rinpoche (\u00e0 esquerda), que o ordenou como Lama em 96.<\/figcaption><\/figure>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>O papa Francisco manifestou recentemente, por meio de uma enc\u00edclica do Vaticano, a preocupa\u00e7\u00e3o com o cuidado com a natureza. O que isso representa para o senhor?<\/strong><br \/>\nAchei algo maravilhoso. N\u00e3o diria que foi tardio. Est\u00e3o corajosamente adotando quest\u00f5es mais abertas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, abuso, corrup\u00e7\u00e3o dentro da Igreja. N\u00e3o sei se \u00e9 maior agora, ou n\u00f3s \u00e9 que estamos olhando de forma mais profunda. Hoje \u00e9 importante n\u00e3o apenas criticar governos e lideran\u00e7as, mas exigir uma consci\u00eancia por parte das pessoas. Precisamos mudar a forma de pensar e de agir. \u00c9 como um beija-flor que pega uma gota e joga no inc\u00eandio. \u00c9 o que fazemos aqui. Constitu\u00edmos as diversas comunidades e vamos tentando viver de forma equilibrada.<br \/>\n<strong>Como o senhor v\u00ea a associa\u00e7\u00e3o entre pol\u00edticos conservadores e religi\u00f5es como as evang\u00e9licas?<\/strong><br \/>\nAs diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas podem se manifestar de diferentes modos. Os evang\u00e9licos tiveram que se distanciar dos cat\u00f3licos, pois eles esperam milagre. Mas vejo que est\u00e3o menos radicais nos \u00faltimos tempos. Os cat\u00f3licos pensam na salva\u00e7\u00e3o. Eles t\u00eam essa vis\u00e3o ligada ao cotidiano. Eu escuto not\u00edcias aqui e ali. Em um ou outro caso evang\u00e9lico tenho visto posi\u00e7\u00f5es mais abertas, atentas para aprender sobre outras religi\u00f5es.<br \/>\n<strong>Se fosse resumir para uma crian\u00e7a o que \u00e9 o budismo, o que diria?<\/strong><br \/>\nO budismo \u00e9 um rem\u00e9dio. Tem um momento em que ele \u00e9 abandonado. O objetivo dele \u00e9 a sa\u00fade e a lucidez. A partir de dado momento, o budismo \u00e9 um peso. Eu n\u00e3o preciso carregar um tratamento. Eu diria: \u201cMeu filho, seja budista, mas n\u00e3o seja para sempre. Se livre dele ali adiante\u201d.<br \/>\n<strong>E o senhor, ser\u00e1 budista at\u00e9 quando?<\/strong><br \/>\nEu penso assim: utilizo o budismo para ajudar as pessoas. Fa\u00e7o uma compara\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus. Eles s\u00e3o h\u00e1beis, eles v\u00e3o mudando, gerando resist\u00eancias. Assim como os v\u00edrus, as fontes de infelicidade e de obscurecimento v\u00e3o mudando. Consequentemente, temos que descobrir outras formas de ajudar. Hoje, h\u00e1 outros obst\u00e1culos. Temos que nos adaptar. O papa Francisco tem que falar da quest\u00e3o ambiental. Jesus Cristo n\u00e3o precisou.<br \/>\n<strong>O budismo diz que, para n\u00e3o haver sofrimento, dever\u00edamos eliminar nossos desejos. Mas isso \u00e9 da natureza humana, n\u00e3o? Como atingir a ilumina\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEssa perspectiva \u00e9 artificial, n\u00e3o \u00e9 o resultado final. O budismo olha o aspecto de energia. Por exemplo, quando temos o desejo por algo, nossa energia est\u00e1 baixa. Um objeto ou uma circunst\u00e2ncia faz nossa energia levantar e a gente brilha. Mas a\u00ed h\u00e1 a insatisfa\u00e7\u00e3o e a transitoriedade: aquilo funciona por um tempo, daqui a pouco n\u00e3o funciona mais. Como uma crian\u00e7a com um brinquedo novo. Uma caracter\u00edstica nossa \u00e9 a transmigra\u00e7\u00e3o. Um p\u00e1ssaro est\u00e1 sempre olhando qual o pr\u00f3ximo galho em que ele vai pousar. E quando ele chega no galho, chegou porque teve desejo, aspirou, se organizou, mas o galho perde o vi\u00e7o, e ele precisa esvoa\u00e7ar para outro galho. Outro p\u00e1ssaro olha o galho vazio e quer ocupar. N\u00e3o \u00e9 que o galho perde o vi\u00e7o, mas a pessoa enxerga o vi\u00e7o em outro lugar. Estamos em um tempo em que a transmigra\u00e7\u00e3o se acelera. Um sintoma na atualidade s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es amorosas transit\u00f3rias. Tudo parece ser descart\u00e1vel. Buda n\u00e3o \u00e9 contra o desejo, \u00e9 contra o sofrimento. Estou sempre saltando de um galho para o outro. Se fixar na medita\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m me fixo no desejo de algo, que se esgota. Ent\u00e3o, aparentemente n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o. Mas tem.<br \/>\n<strong>Onde est\u00e1 o caminho do meio? Como a medita\u00e7\u00e3o pode ajudar nesta busca?<\/strong><br \/>\nNa medita\u00e7\u00e3o, a pessoa se acalma. \u00c9 mais f\u00e1cil localizar aquilo que somos dentro da medita\u00e7\u00e3o do que dentro das coisas agitadas. Estando sempre em transi\u00e7\u00e3o. Por exemplo, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o seu trabalho, voc\u00ea \u00e9 um ser meditando. O desafio ser\u00e1 entender: aqui n\u00e3o est\u00e1 acontecendo nada. Ainda assim, tem energia dentro de ti. Se deixar vir, tem um brilho, dentro de uma experi\u00eancia simples. Essa felicidade est\u00e1 ali, dentro. A forma de viver muda. Em vez de saltar para os lugares para colher um pouco de felicidade passageira, tu ofereces, irradiando felicidade. A gente n\u00e3o medita para encontrar a felicidade: ela j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1. S\u00f3 encontramos algo que j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1. Em vez de chegar como algu\u00e9m faminto, sedento, voc\u00ea chega como algu\u00e9m que<br \/>\nvai oferecer algo.<br \/>\n<strong>Qual o papel das redes sociais nessa busca?<\/strong><br \/>\nAs redes sociais levam informa\u00e7\u00f5es bastante valiosas para as pessoas. O budismo n\u00e3o tem a percep\u00e7\u00e3o de que o samsara, o mundo que aparece aos meus olhos, \u00e9 mau. Acho at\u00e9 que (as redes) melhoram as rela\u00e7\u00f5es. As coisas ficam claras, pois as v\u00e1rias vers\u00f5es dos fatos est\u00e3o dispon\u00edveis e ao nosso alcance. O budismo trabalha muito com o aspecto de transpar\u00eancia. Trabalhamos com a realidade que se apresenta. N\u00e3o tentamos convencer ningu\u00e9m. S\u00f3 convidamos as pessoas para observarem as coisas como elas est\u00e3o postas.<br \/>\n<figure id=\"attachment_22872\" aria-describedby=\"caption-attachment-22872\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/cebb.org.br\/en\/lama-padma-samten-na-zero-hora\/attachment\/17600636\/\" rel=\"attachment wp-att-22872\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-22872\" title=\"lama-e-talitha\" src=\"http:\/\/www.cebb.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/17600636-620x412.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"412\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-22872\" class=\"wp-caption-text\">2015: Padma Samten tem cinco filhos, frutos de diferentes relacionamentos. Na foto, a ca\u00e7ula, Talitha, seis anos.<\/figcaption><\/figure>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Buda \u00e9 pop nas revistas de decora\u00e7\u00e3o, nas novelas, nos programas de gastronomia. O zen-budismo \u00e9 bastante comercializ\u00e1vel. Isso \u00e9 um sinal de qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nIsso n\u00e3o \u00e9 problema. Representa um n\u00edvel de engajamento. N\u00e3o acho interessante que a pessoa se sinta budista por usar alguns apetrechos. Ela precisa transformar aspectos internos. Mas se quer usar, tudo bem, com o tempo a transforma\u00e7\u00e3o vem junto. N\u00e3o adianta aderir por fora. Tem que haver mudan\u00e7as internamente, tomando as decis\u00f5es.<br \/>\n<strong>Muita gente flerta com o budismo, mas n\u00e3o se aprofunda na filosofia. O que o senhor acha disso?<\/strong><br \/>\nPara o budismo, n\u00e3o tem problema que isso ocorra. Existem v\u00e1rias perspectivas da forma como o budismo traz benef\u00edcio. Existe uma forma mais abrangente, inspirado no trabalho de Sua Santidade Dalai Lama. Ele tem recuado e tenta se livrar do pr\u00f3prio budismo, explicando a import\u00e2ncia das tradi\u00e7\u00f5es religiosas dentro do esfor\u00e7o de criar uma \u00e9tica secular. Ele acha que a primeira coisa que dever\u00edamos fazer \u00e9 conviver melhor dentro deste ambiente de diversidade. A gente precisa fazer uma esp\u00e9cie de pacto, de como a gente pode viver melhor, cuidar uns aos outros. Temos um desafio, que \u00e9 fazer essa conviv\u00eancia. Aparentemente \u00e9 muito melhor se a gente puder viver de forma mais pac\u00edfica. Criar uma bandeira que unifique as pessoas independentemente de suas cren\u00e7as ou religi\u00f5es.<br \/>\n<strong>Quais os desafios do budismo na atualidade?<\/strong><br \/>\nA globaliza\u00e7\u00e3o rompeu a base social que havia de substrato para o budismo no Oriente. Hoje, estamos vivendo uma sociedade igual para todos os lados, uma sociedade que est\u00e1 destruindo o planeta. O tipo de ambiente onde os mosteiros surgiram desapareceu, e isso afeta o budismo. O budismo tradicional no Brasil veio com os imigrantes, mas est\u00e1 desaparecendo, enquanto tem outra vertente que est\u00e1 crescendo. Considero crucial estabelecer centros que preservem a forma tradicional. Ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio que exista um budismo que dialogue com a cultura do mundo. Nosso desafio \u00e9 ter o budismo contempor\u00e2neo e manter preservada a cultura antiga.<\/p>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o meditamos para achar a felicidade: ela j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1&#8221; Em entrevista a Zero Hora, o cientista fala como se tornou l\u00edder espiritual budista.<\/p>","protected":false},"author":128,"featured_media":22876,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[417,347],"tags":[],"class_list":["post-22871","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensinamentos","category-midia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Lama Padma Samten na Zero Hora - Centro de Estudos Budistas Bodisatva<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/cebb.org.br\/en\/lama-padma-samten-na-zero-hora\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_GB\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Lama Padma Samten na Zero Hora - 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