{"id":52,"date":"2008-12-15T07:52:19","date_gmt":"2008-12-15T07:52:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/novo\/?p=52"},"modified":"2008-12-15T07:52:19","modified_gmt":"2008-12-15T07:52:19","slug":"introducao-ao-budismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/en\/introducao-ao-budismo\/","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o ao Budismo &#8211; Dalai Lama"},"content":{"rendered":"<p><em>Optamos por incluir a parte preparat\u00f3ria da palestra, uma breve cerim\u00f4nia, pelo asp\u00e9cto did\u00e1tico e informativo que tem para os praticantes das outras linhagens.<\/em><!--more--><br \/>\nMeus irm\u00e3os e irm\u00e3s espirituais, vou come\u00e7ar fazendo uma ora\u00e7\u00e3o \u00e0s Tr\u00eas J\u00f3ias do budismo. A primeira, o Buda Sakiamuni, uma ora\u00e7\u00e3o de louvor a ele, ora\u00e7\u00e3o que nos faz recordar sua sabedoria, sua compaix\u00e3o e sua energia. Ap\u00f3s, \u00e0 segunda J\u00f3ia, o Darma, os ensinamentos do Buda Sakiamuni, e \u00e0 terceira J\u00f3ia, a Sanga, os seus seguidores.<br \/>\nAs pessoas aqui presentes que porventura conhe\u00e7am esta ora\u00e7\u00e3o, por favor, juntem-se a mim. Aqueles que n\u00e3o a conhecem mas que se consideram budistas podem se recordar das qualidades do Buda enquanto a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 feita. E, enfim, aqueles que n\u00e3o se consideram budistas, fiquem apenas assistindo. (&#8230;)<br \/>\nGostaria agora de poder cantar o Sutra do Cora\u00e7\u00e3o, mas cantarei apenas o mantra que corresponde ao Sutra do Cora\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o temos tempo suficiente para recit\u00e1-lo por inteiro. Este sutra \u00e9 um dos mais importantes dentro da divis\u00e3o mahaiana do budismo, importante n\u00e3o apenas no Tibete, mas tamb\u00e9m na China, no Jap\u00e3o, na Cor\u00e9ia. Este sutra est\u00e1 ligado ao significado da vacuidade e chama-se Prajna Paramita. (&#8230;)<br \/>\nCom estas recita\u00e7\u00f5es n\u00f3s procuramos criar uma motiva\u00e7\u00e3o adequada. Todas as a\u00e7\u00f5es humanas, quer positivas, quer negativas, dependem da motiva\u00e7\u00e3o que a informam. Quando um ensinamento religioso \u00e9 dado, tanto a pessoa que est\u00e1 dando este ensinamento, quanto aquelas que est\u00e3o recebendo, devem primeiramente desenvolver uma motiva\u00e7\u00e3o correta. Esta motiva\u00e7\u00e3o deveria ser o altru\u00edsmo.(&#8230;)<br \/>\nO Budismo \u00e9 uma das antigas religi\u00f5es que apareceram na \u00cdndia. Dentre estas, vamos encontrar dos grupos: O primeiro grupo \u00e9 o das religi\u00f5es que se voltaram basicamente para uma \u00fanica exist\u00eancia, num \u00fanico per\u00edodo de vida; o segundo grupo corresponde \u00e0s mais preocupadas com a sucess\u00e3o de vidas. Para estas religi\u00f5es do segundo grupo, era poss\u00edvel a teoria do renascimento.<br \/>\nDentre as religi\u00f5es que aceitavam a id\u00e9ia do ciclo sucessivo de vidas, vamos encontrar algumas que tamb\u00e9m apresentam a id\u00e9ia de um Criador, e outras que n\u00e3o aceitavam o conceito de Criador. Dentre aquelas religi\u00f5es que n\u00e3o aceitam a id\u00e9ia de Criador, tamb\u00e9m vamos encontrar duas categorias. A primeira s\u00e3o aquelas que aceitam a exist\u00eancia da alma como algo permanente, e a segunda, s\u00e3o aquelas que n\u00e3o aceitam esta proposi\u00e7\u00e3o. O budismo \u00e9 justamente aquela antiga religi\u00e3o indiana que n\u00e3o aceita nem o conceito de Criador, nem o conceito de exist\u00eancia permanente da alma.<br \/>\nEsta presente era que n\u00f3s vivemos \u00e9 chamada de &#8220;Era dos Mil Budas&#8221;. Dentro dela, tr\u00eas Budas j\u00e1 vieram e j\u00e1 se foram. O quarto Buda \u00e9 o Buda Sakiamuni, que voc\u00eas provavelmente conhecem e cujos ensinamentos ainda permanecem vivos na Terra. Depois dele aparecer\u00e3o ainda novecentos e noventa e seis Budas.<\/p>\n<h3>A lei de causa-e-efeito tanto pode conduzir ao sofrimento, quanto \u00e0 felicidade<\/h3>\n<p>Falando de uma perspectiva hist\u00f3rica, o Buda Sakiamuni era um pr\u00edncipe indiano. Na primeira parte de sua vida morava cercado de todos os confortos e prazeres que a vida \u00e9 capaz de nos oferecer a um n\u00edvel mundano. Tamb\u00e9m tinha uma esposa e um filho. Num dado momento de sua vida, tomou contato com alguns aspectos negativos da vida humana que o perturbaram intensamente: a velhice, a doen\u00e7a e a morte. Tamb\u00e9m teve a oportunidade de ver alguns praticantes, algumas pessoas santificadas. Isso fez com que, ao passar do tempo, ele abandonasse a vida mundana, se tornasse monge, e por seis anos se dedicasse a pr\u00e1ticas meditativas extremamente rigorosas. Com isso p\u00f4de atingir o estado b\u00fadico, a ilumina\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou ent\u00e3o a ensinar, baseando-se em sua experi\u00eancia pessoal.<br \/>\nSeu primeiro ensinamento foi dado na cidade de Sarnat, na \u00cdndia, e tratou das Quatro Nobres Verdades. Esses ensinamentos constituem o fundamento de todos os budistas que, sem distin\u00e7\u00e3o, os aceitam integralmente.<br \/>\nDentro do budismo, vamos encontrar diferentes escolas de pensamento. Temos a escola do Sul, a escola do Norte (ou hinaiana) e a escola mahaiana. Os tr\u00eas principais ensinamentos do Buda s\u00e3o chamados de os Tr\u00eas Giros da Roda do Darma.<br \/>\nNo primeiro giro tivemos os ensinamentos das Quatro Nobres Verdades, no segundo, os ensinamentos ligados ao Prajna Paramita Sutra, que \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o da sabedoria. O Prajna Paramita vai apresentar uma explica\u00e7\u00e3o bastante elaborada da terceira das Quatro Nobres Verdades, a da Cessa\u00e7\u00e3o do Sofrimento. No terceiro giro da Roda do Darma, vamos encontrar uma apresenta\u00e7\u00e3o elaborada da Quarta Nobre Verdade, o caminho que leva \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento. Vemos que o segundo e terceiro giros da Roda do Darma est\u00e3o ligados ao primeiro giro, que foi a apresenta\u00e7\u00e3o das Quatro Nobres Verdades.<br \/>\nQuais s\u00e3o estas Quatro Nobres Verdades? Temos a Verdade do Sofrimento, a Verdade das Causas do Sofrimento, a Verdade da Cessa\u00e7\u00e3o do Sofrimento e a Verdade do Caminho a ser seguido para se alcan\u00e7ar a Cessa\u00e7\u00e3o Permanente do Sofrimento.<br \/>\nE por que esses ensinamentos foram apresentados sob esta forma de Quatro Nobres Verdades? Porque todos os seres sencientes \u2014 dentre os quais n\u00f3s, humanos \u2014 almejam a felicidade e querem se afastar do sofrimento. Acontece, por\u00e9m, que tanto a felicidade quanto o sofrimento dependem de causas e condi\u00e7\u00f5es: da Lei de Causa-e-Efeito.<br \/>\nN\u00f3s, como seres humanos, queremos afastar de n\u00f3s o sofrimento, mas para que possamos fazer isso precisamos conhecer as causas do sofrimento e, tamb\u00e9m, se \u00e9 poss\u00edvel super\u00e1-las, sem o que n\u00e3o teremos sucesso. Esse \u00e9 o tema das duas primeiras Nobres Verdades: a Verdade de Exist\u00eancia do Sofrimento e a Verdade das Causas do Sofrimento.<br \/>\nPara os budistas, a lei de causa-e-efeito \u00e9 b\u00e1sica. O budista vai estudar essa lei e ver o seu aparecimento nos fen\u00f4menos que constantemente surgem e desaparecem, na transforma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de tudo. Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel porque as experi\u00eancias baseiam-se em fatores, n\u00e3o surgem do nada, surgem sob depend\u00eancia. Uma decorr\u00eancia dessa teoria, para os que a aceitam, \u00e9 a de que n\u00e3o existe um Criador. As coisas n\u00e3o acontecem por des\u00edgnio de um Criador, e sim sob a depend\u00eancia de suas causas e condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3>Todas as a\u00e7\u00f5es est\u00e3o ligadas \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es sutis cujo exame \u00e9 essencial dentro do budismo<\/h3>\n<p>Buda explicou que a lei de causa-e-efeito se manifesta tanto na vertente negativa, que leva ao sofrimento, quanto na vertente positiva, que leva \u00e0 felicidade. Em ambos os casos, essa lei se manifesta dentro de um determinado padr\u00e3o, os Doze Elos da Cadeia de Origina\u00e7\u00e3o Interdependente; cada elo influenciado e determinado pelo elo que o antecede. Percorrendo-os em um sentido, vamos ao sofrimento, no sentido inverso, \u00e0 felicidade.<br \/>\nO primeiro elo da cadeia \u00e9 a ignor\u00e2ncia, o segundo o carma, e assim vamos progredindo at\u00e9 chegarmos ao d\u00e9cimo-primeiro \u2014 o nascimento \u2014 e ao d\u00e9cimo-segundo \u2014 a velhice e a morte. Se formos do primeiro ao d\u00e9cimo-segundo, isto nos leva ao sofrimento. Se viajamos de forma inversa, ou seja, para superar a velhice e morte, superamos o nascimento, e assim vamos superando a ignor\u00e2ncia. Mas como implementar em nossas vidas estas Quatro Verdades?Se queremos superar o sofrimento de forma permanente, precisamos fazer muito esfor\u00e7o, o que exige determina\u00e7\u00e3o. Para termos determina\u00e7\u00e3o, precisamos clareza quanto a meta. Quando focamos a meta e reconhecemos os benef\u00edcios que da\u00ed podem decorrer, adquirimos a determina\u00e7\u00e3o e isso nos leva a envidar esfor\u00e7os. No budismo, a compreens\u00e3o clara dos benef\u00edcios da meta est\u00e1 ligada \u00e0 nossa pr\u00f3pria compreens\u00e3o, a vis\u00e3o das desvantagens, de toda a infelicidade de estar imerso nessa exist\u00eancia sams\u00e1rica. Se convencidos disso, se examinamos o sofrimento, reconhecemos suas causas, entendemos a possibilidade de super\u00e1-lo e visualizamos claramente o estado de cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento \u2014 a felicidade permanente \u2014 ent\u00e3o vamos ter determina\u00e7\u00e3o e, por conseq\u00fc\u00eancia, vamos empreender todos os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para atingir esta meta.<br \/>\nDentro desta perspectiva, \u00e9 importante examinar e conhecer o sofrimento. Segundo o budismo, existem tr\u00eas tipos de sofrimento. O primeiro \u00e9 o sofrimento do sofrimento, \u00e9 o que todos conhecemos na forma de doen\u00e7as f\u00edsicas, dor de cabe\u00e7a, desconfortos f\u00edsicos, etc. O segundo tipo de sofrimento \u00e9 chamado de sofrimento da mudan\u00e7a. Muitas experi\u00eancias que temos aqui no mundo, aparentemente s\u00e3o bastante prazerosas e elas nos atraem. Por\u00e9m, \u00e0 medida que nos envolvemos com essas experi\u00eancias, muitas vezes elas nos trazem frustra\u00e7\u00e3o. Essas experi\u00eancias, aparentemente atraentes, s\u00e3o, de alguma forma, permeadas pelo sofrimento, na medida em que seus aspectos se transformam. Este \u00e9 sofrimento da mudan\u00e7a. O terceiro tipo de sofrimento \u00e9 o nascimento. Esse \u00e9, na verdade, a base, a causa de todos os tipos de sofrimento. Enquanto temos o nascimento influenciado pelo apego e ignor\u00e2ncia, temos uma exist\u00eancia que vai estar sendo permeada de sofrimento.<\/p>\n<h3>&#8220;Vacuidade&#8221; n\u00e3o que dizer &#8220;vazio&#8221;, aquilo que \u00e9 &#8220;oco&#8221;, mas interdepend\u00eancia<\/h3>\n<p>Quanto \u00e0s causas, s\u00e3o de dois tipos. A primeira \u00e9 o carma, que quer dizer a\u00e7\u00e3o. De modo geral, para que as coisas aconte\u00e7am neste mundo, \u00e9 necess\u00e1rio uma a\u00e7\u00e3o. Por exemplo, se voc\u00ea quer tomar ch\u00e1, precisa praticar v\u00e1rios atos que possibilitem isso: comprar a erva, arrumar uma x\u00edcara, preparar a \u00e1gua, etc., at\u00e9 que, enfim, esteja em condi\u00e7\u00f5es de beb\u00ea-lo. Essas a\u00e7\u00f5es, como toda e qualquer a\u00e7\u00e3o, tem seus resultados; esta \u00e9 a lei do carma.<br \/>\nExistem a\u00e7\u00f5es que frutificam de imediato; outras, por\u00e9m, frutificam em alguns meses ou anos, ou depois de v\u00e1rias vidas, ou mesmo depois de v\u00e1rias eras, mas apesar do tempo que possa mediar, sempre haver\u00e1 uma correspond\u00eancia entre a a\u00e7\u00e3o e seu fruto.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 tempo aqui para falar sobre os diferentes tipos de a\u00e7\u00f5es e de causas. Na verdade, h\u00e1 no budismo uma elabora\u00e7\u00e3o detalhada e sofisticada disso. A grosso modo, no entanto, poderia dizer que existem dois tipos de a\u00e7\u00e3o: as positivas e as negativas. As negativas s\u00e3o as que conduzem ao sofrimento; muitas vezes no Ocidente s\u00e3o chamadas de &#8220;pecados&#8221;. As a\u00e7\u00f5es positivas s\u00e3o as que levam \u00e0 felicidade.<br \/>\nTodas as a\u00e7\u00f5es est\u00e3o ligadas \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es que lhe deram causa. O exame da motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial dentro do budismo. Se a motiva\u00e7\u00e3o for o apego, a raiva, o \u00f3dio, a ignor\u00e2ncia, a inveja, a a\u00e7\u00e3o que vai seguir tender\u00e1 a ser uma a\u00e7\u00e3o negativa. Mesmo ao praticarmos uma a\u00e7\u00e3o aparentemente positiva, se a motiva\u00e7\u00e3o n\u00e3o for correta, isto afeta a qualidade da a\u00e7\u00e3o. Por exemplo, uma pessoa tem f\u00e9 no Buda, mas, na verdade, n\u00e3o conhece de fato a a\u00e7\u00e3o. Por exemplo, uma pessoa tem f\u00e9, ou seja, \u00e9 ignorante. Se a sua motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 a ignor\u00e2ncia, ela n\u00e3o vai poder colher frutos dessa f\u00e9, e vai ainda permanecer presa no ciclo de exist\u00eancia \u2014 samsara. V\u00e1rios s\u00e3o os tipos de motiva\u00e7\u00e3o negativa, mas todos esses tipos se originaram de uma \u00fanica fonte, a ignor\u00e2ncia. Poder\u00edamos dizer que, em \u00faltima an\u00e1lise, a ignor\u00e2ncia \u00e9 o tipo de motiva\u00e7\u00e3o que d\u00e1 causa ao samsara, que d\u00e1 causa a todo o sofrimento.<br \/>\nConhecer a fundo a ignor\u00e2ncia \u00e9 dif\u00edcil, complexo, a ignor\u00e2ncia se apresenta de diferentes formas. Para conhec\u00ea-la em suas formas mais sutis \u00e9 necess\u00e1rio conhecer a natureza \u00faltima da realidade, que \u00e9 tamb\u00e9m um conhecimento bastante sutil. Por isso, dentro do budismo encontramos textos como o Prajna Paramita, a Perfei\u00e7\u00e3o da Sabedoria, que trata justamente disso. O conhecimento da ignor\u00e2ncia no seu n\u00edvel mais sutil est\u00e1 intimamente relacionado ao conhecimento da cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento e, portanto, para entendermos esses n\u00edveis mais sutis da ignor\u00e2ncia, precisamos entender este conceito de cessa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara conhecermos a fundo esta verdade, que \u00e9 a Terceira Nobre Verdade, a cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento, \u00e9 preciso examinar as apresenta\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feitas pelas quatro principais escolas de pensamento budista, Vaibhashika, Sautrantika, Chittamatra e Madhyamika, e suas sub-escolas. De todas, a escola Madhyamika, e dentro desta a sub-escola Prasangika, parece-nos a mais profunda.<\/p>\n<h3>A qualidade unidirecionada da mente, \u00e9 insepar\u00e1vel da conduta, &#8220;Sila&#8221;<\/h3>\n<p>Como poderemos chegar \u00e0 completa elimina\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia e \u00e0 completa compreens\u00e3o da realidade \u00faltima da exist\u00eancia, que propicia a cessa\u00e7\u00e3o de todo sofrimento? Nessa busca come\u00e7amos examinando a realidade \u00faltima da exist\u00eancia, passamos \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es negativas e, por fim, \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia \u2014 o que vai nos apresentar esta verdade \u00faltima. Quando esse trabalho investigativo \u00e9 realizado tendo por objetivo a verdadeira natureza da mente, ou seja, tomando por objeto a pr\u00f3pria natureza \u00faltima e n\u00e3o algum outro fator da exist\u00eancia, focando a pr\u00f3pria mente, trilha-se o caminho da verdadeira cessa\u00e7\u00e3o final de todo o sofrimento.<br \/>\nFalo aqui da natureza \u00faltima da exist\u00eancia ou da verdade \u00faltima da exist\u00eancia; dentro deste conceito vai surgir a no\u00e7\u00e3o de duas verdades, a que corresponde \u00e0 natureza \u00faltima da exist\u00eancia, e a relativa que se contrap\u00f5e \u00e0 primeira. Esta apresenta\u00e7\u00e3o da verdade em dois n\u00edveis n\u00e3o \u00e9 particular do budismo, vamos encontr\u00e1-la em outras religi\u00f5es da \u00cdndia, e essa divis\u00e3o \u00e9 aceita pelas quatro escolas de pensamento budista. Para o que segue vou utilizar o enfoque da escola que havia referido como sendo a mais profunda de todas, a escola Prasangika-Madhyamica.<br \/>\nEm poucas palavras, a verdade \u00faltima da exist\u00eancia, segundo o budismo, \u00e9 Sunya, ou a vacuidade. Por\u00e9m, &#8220;vacuidade&#8221; n\u00e3o quer dizer &#8220;vazio&#8221;, aquilo que \u00e9 &#8220;oco&#8221;, mas sim que todos os fen\u00f4menos, todas as coisas, existem sob depend\u00eancia ou interdependentemente, e n\u00e3o por si mesmas. Por esse motivo, porque nada existe por si s\u00f3 mas por depend\u00eancia, cada fen\u00f4meno, isoladamente considerado, \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, vazio. Assim, quando temos a aus\u00eancia dessa independ\u00eancia da exist\u00eancia, temos a experi\u00eancia da vacuidade.<br \/>\nDe modo geral os seres n\u00e3o conhecem esses n\u00edveis sutis de ignor\u00e2ncia; isso faz com que certas predisposi\u00e7\u00f5es apare\u00e7am e se tornem mais enf\u00e1ticas, vindo at\u00e9 mesmo a aparecer de forma mais violenta, num ciclo sucessivo de renascimentos, at\u00e9 que temos, a partir disso, estados mais n\u00e9scios de ignor\u00e2ncia. Por\u00e9m, a ignor\u00e2ncia, seja ela qual for, por mais s\u00f3lida que pare\u00e7a aos nossos olhos, em \u00faltima an\u00e1lise \u00e9 apenas ilus\u00e3o. A ignor\u00e2ncia est\u00e1 constru\u00edda sobre premissas falsas e, por isso, pode ser dissipada atrav\u00e9s da investiga\u00e7\u00e3o e da medita\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, n\u00e3o temos familiaridade com esses n\u00edveis sutis de conhecimento, a compreens\u00e3o da ignor\u00e2ncia em seu n\u00edvel mais sutil. Ainda que haja essa dificuldade, podemos fazer um esfor\u00e7o para nos familiarizarmos com essa experi\u00eancia, para investigarmos essas quest\u00f5es, para meditarmos sobre sunya, a vacuidade. Portanto, \u00e9 como se houvesse uma balan\u00e7a com dois pratos, o negativo e o positivo. \u00c0 medida que se vai cultivando o positivo, este prato vai subindo e o prato negativo vai descendo, at\u00e9 chegar a uma situa\u00e7\u00e3o em que toda a emo\u00e7\u00e3o negativa, toda a vis\u00e3o equivocada vem a ser eliminada por completo. Esta \u00e9 a verdade da cessa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>O budismo tibetano inclui o hinaiana, o mahaiana e o tantraiana<\/h3>\n<p>Falando agora da Quarta Verdade, que \u00e9 o caminho que leva a cessa\u00e7\u00e3o, muitos m\u00e9todos existem no budismo; vou falar de dois, os principais. Antes de tudo precisamos desenvolver a compreens\u00e3o, a sabedoria que compreende a vacuidade, Vipassana. Para algu\u00e9m desenvolver isso, e adquirir os instrumentos para usar essa sabedoria, precisa desenvolver uma capacidade de concentra\u00e7\u00e3o de mente, precisa ter uma mente unidirecionada. Hoje somos vassalos de nossa mente, ela nos controla, mas podemos nos desenvolver at\u00e9 um ponto em que nossa mente fique na posi\u00e7\u00e3o onde a coloquemos e que se torne poss\u00edvel us\u00e1-la para a penetra\u00e7\u00e3o profunda em um tema ou objeto de medita\u00e7\u00e3o. Esta qualidade, este treinamento da mente se chama &#8220;Shamatha&#8221;. Para podermos desenvolver essa qualidade unidirecionada da mente, precisamos ter moralidade, auto-disciplina, a conduta \u00e9 importante, \u00e9 insepar\u00e1vel, o que \u00e9 chamado &#8220;Sila&#8221;.<br \/>\nEssas Quatro Nobres Verdades comp\u00f5e a base do budismo, e s\u00e3o assim aceitas por todos os budistas, mas h\u00e1 um segundo desenvolvimento no budismo, o mahaiana. O mahaiana se assenta sobre essa base, mas adiciona dois conceitos importantes: o conceito das Seis Perfei\u00e7\u00f5es e Bodhicitta, o Altru\u00edsmo Universal. H\u00e1 ainda um terceiro n\u00edvel, o mantraiana ou tantraiana que, aceitando os dois primeiros n\u00edveis, vai introduzir outras pr\u00e1ticas; pr\u00e1ticas que envolvem visualiza\u00e7\u00f5es, deidades e mandalas.<br \/>\nO budismo tibetano como tal inclui esses tr\u00eas grandes grupos do budismo, o hinaiana, o mahaiana e o tantraiana.<br \/>\n<em>* O monge Tenzin Gyatzo, XIV Dalai Lama do Tibete, l\u00edder espiritual e temporal do povo tibetano, ganhou o Pr\u00eamio Nobel da Paz em 1989. No Brasil recebeu os t\u00edtulos de Cidad\u00e3o da Cidade de S\u00e3o Paulo, Doutor Honoris Causa da PUC-SP e Cidad\u00e3o de Porto Alegre. Recebeu tamb\u00e9m a Medalha Irm\u00e3o Afonso da PUC-RS e a Medalha Pedro Ernesto da C\u00e2mara de Vereadores do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"caption\" src=\"http:\/\/www.cebb.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/dalai_lama_200x200.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/><em>Em sua visita ao Brasil em 1992, S. S. o Dalai Lama ofereceu uma palestra especialmente \u00e0 comunidade de praticantes budistas do Brasil, no teatro Ruth Escobar, em S\u00e3o Paulo. Essa palestra foi gravada e transcrita por Bruno D\u2019Avanzo, colaborador da revista <\/em><em>Bodisatva. 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