{"id":14174,"date":"2014-09-23T12:11:51","date_gmt":"2014-09-23T15:11:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/?p=14174"},"modified":"2014-09-23T12:11:51","modified_gmt":"2014-09-23T15:11:51","slug":"responsabilidade-universal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/es\/responsabilidade-universal\/","title":{"rendered":"Responsabilidade universal"},"content":{"rendered":"<p><em>por Lama Padma Samten<br \/>\n<\/em><br \/>\n<em>A vis\u00e3o mais elevada do Buda \u00e9 vi\u00e1vel em meio ao \u201cmundo real\u201d ou \u00e9 apenas uma utopia fora de seu tempo? Como agir segundo os princ\u00edpios budistas em meio ao mundo e como desenvolver a vis\u00e3o e a compaix\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura de paz?<br \/>\n<\/em><!--more--><br \/>\nComo coabitam os dois universos cognitivos, o universo convencional e a vis\u00e3o profunda do Buda? Ser\u00e1 poss\u00edvel manter uma vis\u00e3o espiritual profunda e, desde essa vis\u00e3o profunda gerar uma linguagem que tamb\u00e9m fa\u00e7a sentido para os seres que est\u00e3o confundidos no mundo convencional? \u00c9 poss\u00edvel que estes mundos se toquem? Como, a partir da lucidez, gerar um corpo de manifesta\u00e7\u00e3o que possa ser visto e entendido pelos seres confusos, manifestar-se atrav\u00e9s dele com prioridades que tenham sentido convencional e fazendo com que, ao mesmo tempo, estas prioridades representem de forma fiel a vis\u00e3o espiritual mais elevada? Como fazer o casamento desses dois mundos? Como compreender de modo profundo a quest\u00e3o da felicidade e da infelicidade em meio ao mundo?<\/p>\n<h3>Vis\u00e3o condicionada, lucidez e compaix\u00e3o<\/h3>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio primeiro situar essa quest\u00e3o dentro dos pr\u00f3prios ensinamentos do Buda. Por qu\u00ea? Porque a vis\u00e3o de mundo convencional \u00e9 a vis\u00e3o de samsara, \u00e9 a vis\u00e3o do mundo ilus\u00f3rio e, portanto, n\u00e3o oferece a adequada linguagem para tratarmos apropriadamente a quest\u00e3o. J\u00e1 o ensinamento do Buda trata da vis\u00e3o da realidade em uma linguagem profunda e abrangente.<br \/>\nA vis\u00e3o ilus\u00f3ria surge da separatividade e tem sequ\u00eancia com a responsividade. Assim se estrutura essa vis\u00e3o. \u00c9 o 1\u00ba elo dos doze elos da origina\u00e7\u00e3o interdependente ensinado pelo Buda, \u00e9 avidya, a ignor\u00e2ncia. A lucidez corta a vis\u00e3o condicional e ignor\u00e2ncia que praticamos e sustentamos quando estamos ligados ao mundo ilus\u00f3rio. No budismo tibetano esta lucidez que corta a ignor\u00e2ncia \u00e9 simbolizada por Manjurshi, o pr\u00edncipe do Darma do Buda. Aquele que carrega a espada do Darma que corta o engano.<br \/>\nA porta de entrada no mundo ilus\u00f3rio \u00e9 tamb\u00e9m a porta de sa\u00edda. Quando superamos avidya ultrapassamos as limita\u00e7\u00f5es de samsara. Quando focamos avidya e examinamos nossos enganos, vemos que, a este n\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 propriamente emo\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 ainda a opera\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o seres humanos, vis\u00e3o mais limitada ainda. N\u00f3s estamos lidando com uma opera\u00e7\u00e3o mental artificial mas que n\u00e3o pertence aos seres humanos em particular, mas est\u00e1 presente na base das dificuldades de todos os seres sencientes, do menor ser ao maior, aos seres alados, aos que vivem sob a terra ou na \u00e1gua. Sob este ponto de vida avidya toca toda a vida. Toca os seis reinos, toca toda a roda da vida; todos eles est\u00e3o presos aos doze elos e portanto a avydia, o primeiro deles.<br \/>\nEnquanto descrevo isto, mesmo que estejamos tocando pontos de extrema import\u00e2ncia, n\u00e3o h\u00e1 emo\u00e7\u00e3o ou tens\u00e3o nas conclus\u00f5es ou no racioc\u00ednio. Estamos examinando a &#8220;opera\u00e7\u00e3o da mente&#8221;. \u00c9 uma forma de intelig\u00eancia diferente da intelig\u00eancia convencional humana. \u00c9 o processo que os meditantes acessam, mas n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser traduzido facilmente na linguagem do cotidiano. A maior parte das pessoas n\u00e3o v\u00ea isso, n\u00e3o consegue detectar; mesmo que elas sejam introduzidas a isso. Eventualmente elas reconhecem, mas daqui a pouco elas perdem a capacidade de reconhecimento e \u00e9 muito dif\u00edcil que elas alterem a sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o a partir disso que \u00e9 t\u00e3o vol\u00e1til.<br \/>\nEnt\u00e3o, ainda que esta vis\u00e3o seja de grande import\u00e2ncia, \u00e9 muito vol\u00e1til, \u00e9 muito dif\u00edcil, \u00e9 muito sutil de ser percebida e de ser traduzida em altera\u00e7\u00e3o do nosso pr\u00f3prio comportamento. Portanto, ainda que seja uma verdade, n\u00f3s precisamos de uma linguagem que seja entendida pelas pessoas e assim n\u00f3s vamos precisar da abordagem compassiva e amorosa simbolizada por Chenrezig, o Buda da Compaix\u00e3o.<br \/>\nAinda que a abordagem de Chenrezig esteja estruturada na compreens\u00e3o da Verdade \u00daltima, ela produz um outro tipo de linguagem no contato com as pessoas. \u00c9 uma abordagem que desenvolve uma linguagem que aceita a forma como o outro est\u00e1 reconhecendo a realidade.<br \/>\nMesmo nas formas que brotam da vis\u00e3o ilus\u00f3ria com que os seres reconhecem a realidade, existe ali uma uni\u00e3o perfeita, completa, entre o mundo ilus\u00f3rio e o mundo ilimitado. A experi\u00eancia de lucidez incessante est\u00e1 sempre dispon\u00edvel como possibilidade, uma experi\u00eancia tal que se v\u00ea a inexist\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o entre a apar\u00eancia convencional e a natureza \u00faltima.<br \/>\nH\u00e1 o reconhecimento de que dentro da apar\u00eancia condicionada h\u00e1 a incessante presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o da natureza \u00faltima. E assim, mesmo que haja o surgimento das apar\u00eancias condicionadas, esse pr\u00f3prio reconhecimento j\u00e1 manifesta a natureza \u00faltima. Assim os praticantes da lucidez da perfei\u00e7\u00e3o da sabedoria (Prajnaparamita), mesmo em meio ao jogo das apar\u00eancias das mentes obstru\u00eddas, nunca se perdem, primeiro porque eles n\u00e3o rejeitam as apar\u00eancias, e segundo porque eles contemplam a natureza \u00faltima justo dentro do que surge como apar\u00eancia condicionada. Assim opera a vis\u00e3o da inseparatividade entre o mundo aparente e a natureza ilimitada. Sua Santidade o Dalai Lama \u00e9 um exemplo disso, ele que tem esta estabilidade de vis\u00e3o da Natureza \u00daltima e, ao mesmo tempo, manifesta a capacidade de chegar \u00e0s pessoas e falar na linguagem delas.<\/p>\n<h3>Compaix\u00e3o como exerc\u00edcio da liberdade natural<\/h3>\n<p>Por que parece t\u00e3o dif\u00edcil para n\u00f3s? Percebemos que perdemos a clareza diante das condi\u00e7\u00f5es quando operamos como algu\u00e9m que est\u00e1 jogando um jogo a partir de uma identidade; ou seja, nos colocamos no mundo a partir de uma identidade e vemos surgir as respostas autom\u00e1ticas que aquela inser\u00e7\u00e3o exige de n\u00f3s. Ou seja, quando cada um de n\u00f3s diz &#8220;sou isso\u201d, ent\u00e3o, naturalmente d\u00e1-se conta que no mundo tem de fazer isso e fazer aquilo. T\u00e3o pronto constru\u00edmos o ator, o script est\u00e1 pronto apontando o que temos que fazer. Em resumo, a pr\u00f3pria identidade, ou seja, o 10\u00ba elo (bhava) nos obriga ao 11\u00ba (jeti) que \u00e9 como a a\u00e7\u00e3o incessante dos equilibristas fazendo coisas. Quanto mais r\u00e1pido e mais perfeitamente respondermos de acordo com o nosso papel, parece que \u00e9 melhor. Isso \u00e9 a responsividade.<br \/>\nContemplemos agora essa capacidade de surgir no mundo de forma livre capaz de reconhecer os v\u00e1rios tipos de universos onde as pessoas habitam, reconhecer suas diferentes paisagens mentais e os sucessivos problemas que aquelas paisagens mentais e formas de comportamento produzem. Vemos que isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando a pessoa n\u00e3o est\u00e1 jogando um jogo pessoal particular. Se a pessoa est\u00e1 fazendo um jogo pr\u00f3prio ela olha para o outro sempre com a tend\u00eancia a buscar apoio para seu pr\u00f3prio jogo.<br \/>\nOlhando com liberdade a experi\u00eancia \u00e9 diferente, original. Surge a possibilidade de entender como o outro vive, quais s\u00e3o os problemas que tem, mas ela mesma, enquanto identidade convencional n\u00e3o tem nenhuma inser\u00e7\u00e3o dentro desse jogo, nenhuma responsividade. V\u00ea-se que essa liberdade \u00e9 necess\u00e1ria e faz grande diferen\u00e7a. Se pudermos atuar com essa liberdade, ent\u00e3o a compaix\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Se n\u00e3o pudermos olhar com essa liberdade, a compaix\u00e3o verdadeira n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<br \/>\nObserve, essa compaix\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se n\u00f3s pudermos manifestar a liberdade frente a n\u00f3s mesmos. Se n\u00f3s atuarmos como algu\u00e9m fazendo um jogo, mesmo que traga benef\u00edcio ao outro, trata-se de um acordo, uma conveni\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 propriamente uma manifesta\u00e7\u00e3o de compaix\u00e3o na forma como os bodisatvas praticam. Ent\u00e3o essa \u00e9 a conex\u00e3o com o mundo e ao mesmo tempo a liberdade. A conex\u00e3o que os seres de sabedoria t\u00eam com o mundo \u00e9 atrav\u00e9s desse m\u00e9todo. \u00c9 assim que eles mant\u00eam a liberdade frente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do mundo de modo que eles mesmos n\u00e3o se prendem.<br \/>\nO que esses seres de sabedoria v\u00e3o ensinar para as pessoas? Eles v\u00e3o ensinar como sair do ponto onde elas est\u00e3o e avan\u00e7ar etapa por etapa at\u00e9 a pr\u00f3pria lucidez e liberdade que eles manifestam. Ent\u00e3o a\u00ed surge uma etapa de treinamento, um caminho gradual que podemos estudar passo a passo, segui-lo, complet\u00e1-lo. O caminho gradual nos encontra onde estamos e nos conduz paulatinamente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de bodisatvas, aquela condi\u00e7\u00e3o onde estamos livres da limita\u00e7\u00e3o do autointeresse e vivos, sustentados pela energia din\u00e2mica que sustenta a todos os Budas.<br \/>\nVemos que esta forma de liberdade manifesta-se como um outro tipo de intelig\u00eancia. Essa intelig\u00eancia permite trazer benef\u00edcios aos seres dentro do mundo condicionado onde eles se sentem existindo, usando a pr\u00f3pria linguagem desses seres, manifestando lucidez e liberdade.<\/p>\n<h3>Caminho para a liberdade atrav\u00e9s da vis\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o no mundo<\/h3>\n<p>Dentre as formas tradicionalmente usadas, apresento este caminho aos meus alunos dividindo-o em tr\u00eas partes. Os ensinamentos ligados ao conte\u00fado (vis\u00e3o), os ensinamentos que est\u00e3o ligados \u00e0 medita\u00e7\u00e3o e ensinamentos que est\u00e3o ligados \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNaturalmente n\u00f3s vamos come\u00e7ar com o conte\u00fado. O conte\u00fado que se descortina atrav\u00e9s da vis\u00e3o ultrapassa as limita\u00e7\u00f5es c\u00e1rmicas e obstru\u00e7\u00f5es da mente. Para tornar esta vis\u00e3o mais est\u00e1vel e n\u00edtida, mais dispon\u00edvel de forma pr\u00e1tica, n\u00f3s usamos a medita\u00e7\u00e3o. Depois, ultrapassando a obstru\u00e7\u00e3o mental caracterizada pelo auto interesse percebemos que estes ensinamentos t\u00eam por culmin\u00e2ncia a opera\u00e7\u00e3o l\u00facida em meio ao mundo para benef\u00edcio dos seres \u2014 a a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPercorrer o caminho para nos isolamos em algum lugar tentando nos afastar do mundo n\u00e3o faria qualquer sentido na perspectiva budista. Seria algo como por exemplo, um m\u00e9dico aprender medicina e dizer &#8220;bem, agora eu aprendi medicina e posso me isolar das doen\u00e7as&#8221;, ou de uma enfermeira dizer &#8220;bom, agora eu j\u00e1 sei muito bem como me cuidar, sei como me isolar&#8221;.<br \/>\nNa verdade n\u00f3s vamos aprender e seguir o caminho como quem busca m\u00e9todos para agir lucidamente e com liberdade no mundo. Ent\u00e3o a terceira parte do caminho surge de forma natural \u2014 ou seja \u2014 a\u00e7\u00e3o no mundo. N\u00f3s voltamos ao mundo, reencontramos os seres e temos meios efetivos para estabelecermos conex\u00f5es positivas.<br \/>\nTemos ent\u00e3o a vis\u00e3o produzindo a compreens\u00e3o e se estabilizando pela medita\u00e7\u00e3o. Com a vis\u00e3o estabilizada podemos agir lucidamente e livres do carma mesmo em meio ao mundo. Assim podemos entender como o caminho espiritual, com todas suas disciplinas e meios h\u00e1beis, culmina na a\u00e7\u00e3o em meio ao mundo.<br \/>\nA minha experi\u00eancia \u00e9 que o budismo desenvolve a vis\u00e3o de modo muito profundo. A minha conex\u00e3o com o budismo vem devido ao reconhecimento da lucidez dessa abordagem da vis\u00e3o. Tenho completa f\u00e9 nos budas, nos seres de sabedoria e por isso ensino atrav\u00e9s do budismo. Mas n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e9 cega. Porque olhei com a mente cr\u00edtica, anal\u00edtica, e atrav\u00e9s da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia vi no budismo esse conjunto de m\u00e9todos.<\/p>\n<h3>Vis\u00e3o e responsabilidade universal<\/h3>\n<p>O conte\u00fado come\u00e7a com a apresenta\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de um bom cora\u00e7\u00e3o, ou seja, com a no\u00e7\u00e3o de responsabilidade universal e, ao final, culmina na nossa capacidade de libertos, l\u00facidos, podermos agir dentro do mundo. A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de responsabilidade universal nunca chega a ser abandonada, \u00e9 usada em todas as etapas de modo mais e mais refinado, atingindo a culmin\u00e2ncia como a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do bodisatva. O referencial da responsabilidade universal e do bom cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o ponto de entrada no caminho e o apoio seguro em todas suas etapas at\u00e9 o final.<br \/>\nA no\u00e7\u00e3o de responsabilidade universal, um bom cora\u00e7\u00e3o, vem da compreens\u00e3o inicial de que todos n\u00f3s somos seres interdependentes. Ao dizer isso estou retornando \u00e0 linguagem usual do mundo, a linguagem onde os seres s\u00e3o vistos como se fossem separados, onde se d\u00e1 nome para cada um de n\u00f3s.<br \/>\nO primeiro movimento de retorno a compreens\u00e3o mais elevada e ver que somos interdependentes, \u00e9 o primeiro passo do caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 compreens\u00e3o mais sutil. Por exemplo, a roupa que usamos n\u00e3o foi feita por n\u00f3s, a comida que n\u00f3s comemos n\u00e3o foi plantada por n\u00f3s. Mesmo que ela tenha sido plantada por n\u00f3s, ela foi gerada por outros seres que s\u00e3o capazes de fazer coisas que n\u00f3s n\u00e3o fazemos, como por exemplo, a fotoss\u00edntese. N\u00e3o somos capazes de retirar nutrientes do solo, do ar, sintetizar prote\u00ednas, armazenar energia na forma de carbono, etc, para produzir o alimento. N\u00f3s n\u00e3o sabemos como fazer isso. Podemos comer e jogar fora sem perceber a inseparatividade que temos em rela\u00e7\u00e3o a todos os seres.<br \/>\nDessa compreens\u00e3o come\u00e7a a surgir a no\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia e responsabilidade universal: somos insepar\u00e1veis, para preservar nossas vidas precisamos preservar as vidas deles. Se mantivermos uma vis\u00e3o estreita que surge da responsividade c\u00e1rmica automatizada n\u00e3o alcan\u00e7aremos a no\u00e7\u00e3o de responsabilidade universal e inevitavelmente enfrentaremos problemas graves decorrentes da falta de uma vis\u00e3o mais ampla. Em meio \u00e0s dificuldades lentamente talvez comecemos a analisar nossa situa\u00e7\u00e3o e a dos outros seres e compreendemos que desejamos a felicidade e queremos evitar os sofrimento, assim \u00e9 preciso que alimentemos essa coletividade de seres e nos harmonizemos ao universo. Se simplesmente predarmos esse universo, pode ser que no futuro aquilo que eu aspiro como felicidade n\u00e3o seja mais poss\u00edvel, porque a felicidade n\u00e3o \u00e9 algo que a gente possa obter de forma isolada.<br \/>\nSomos dependentes do ambiente em todas suas formas. N\u00e3o dependemos apenas do ambiente vivo mas tamb\u00e9m de estruturas &#8220;n\u00e3o vivas&#8221;. Por exemplo, podemos dizer que a temperatura do nosso corpo nesse momento \u00e9 regulada pelo metabolismo, queima de mais carbono ou de menos carbono, associada aos batimentos card\u00edacos, \u00e0 respira\u00e7\u00e3o, etc. Isso \u00e9 uma verdade, mas uma verdade parcial, porque n\u00f3s dependemos da temperatura ao nosso redor. A regula\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica \u00e9 uma pequena fra\u00e7\u00e3o apenas, porque n\u00f3s estamos recebendo irradia\u00e7\u00e3o do ambiente o tempo todo. Como podemos ver isso? Por exemplo, se o ambiente n\u00e3o irradiasse calor sobre n\u00f3s isso significaria que o ambiente estaria 0\u00baK, ou seja, a -273\u00baC, e n\u00f3s congelar\u00edamos rapidamente. N\u00e3o h\u00e1 respira\u00e7\u00e3o ou metabolismo que sustente essa necessidade. Nossa pele congelaria, quebraria toda. Precisamos do calor que as paredes emitem sobre n\u00f3s. J\u00e1 nem \u00e9 o calor que o ar ao encostar proporciona, e sim o calor da irradia\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos corpos no ambiente.<br \/>\nPercebemos, ent\u00e3o, que estamos completamente dependentes do mundo vivo ao nosso redor e do mundo material tamb\u00e9m. Vamos entendendo lentamente que tudo o que fizermos para esse mundo ao redor ia produzir resultados sobre n\u00f3s. Se agirmos de uma forma correta, n\u00f3s obtemos resultados positivos. Se agirmos de uma forma negativa, n\u00f3s vamos colher resultados negativos.<br \/>\nIsso vai nos conectar com a necessidade de criarmos rela\u00e7\u00f5es positivas em quatro n\u00edveis. \u00c9 natural que devemos criar um relacionamento positivo com o ambiente natural, proteger o ambiente social ao nosso redor, promover rela\u00e7\u00f5es interpessoais positivas e tamb\u00e9m olhar para n\u00f3s de forma mais l\u00facida e benigna, fazendo o que seja melhor para a nossa sa\u00fade e para sustentar nossa vida e evitar aquilo que a afeta negativamente. \u00c9 preciso examinar de modo claro para como estamos estabelecendo nossas rela\u00e7\u00f5es nesses quatro n\u00edveis.<br \/>\nEste \u00e9 o olhar da responsabilidade universal, um tema a ser tratado de modo priorit\u00e1rio. Os educadores podem tratar desse tema, as escolas podem fazer isso. Deveria ser um tema transversal em qualquer atividade nossa em qualquer \u00e2mbito que seja. N\u00e3o faz sentido, por exemplo, um cientista criar perturba\u00e7\u00f5es a esse ambiente. Todas as atividades de todos os seres deveriam estar relacionadas a esse princ\u00edpio de responsabilidade universal. No que diz respeito \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o, podemos entender o princ\u00edpio de responsabilidade universal como uma extens\u00e3o natural da declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos humanos. Para verdadeiramente preservar a vida humana precisamos do princ\u00edpio da responsabilidade universal.<br \/>\nQuando percebermos isso, mesmo que n\u00e3o tenhamos gerado ainda a no\u00e7\u00e3o sutil de unidade e de n\u00e3o separatividade (a vis\u00e3o mais elevada), j\u00e1 h\u00e1 a no\u00e7\u00e3o de rede, a no\u00e7\u00e3o de que atuamos em rede, somos interdependentes e que felicidade e seguran\u00e7a s\u00f3 podem ser efetivas dentro desta vis\u00e3o de interdepend\u00eancia. Percebendo assim, vemos que somos fortes n\u00e3o porque conseguimos arrancar coisas dos outros, mas porque somos capazes de nos harmonizar em uma coletividade ampla.<br \/>\nN\u00f3s somos capazes de trabalhar dentro de um sentido coletivo e ajudar pessoas que nem conhecemos. Somos capazes de construir estradas que todos usam, somos capazes de construir pontes que todos usam, somos capazes de construir redes el\u00e9tricas, redes de telefonia que todos usam. Somos capazes de organizar estudos para ver o impacto humano sobre os outros seres. Somos capazes de aspirar a redu\u00e7\u00e3o desse impacto. Somos capazes ver a prioridade da preserva\u00e7\u00e3o de florestas, da preserva\u00e7\u00e3o do mar, da preserva\u00e7\u00e3o dos seres em v\u00e1rios \u00e2mbitos. Entendemos isso. Somos capazes de plantar \u00e1rvores hoje para que as gera\u00e7\u00f5es futuras usem. A responsabilidade universal \u00e9 natural em nossos cora\u00e7\u00f5es, \u00e9 a vis\u00e3o que constr\u00f3i a no\u00e7\u00e3o de cultura de paz. A cultura de paz reside em nossos cora\u00e7\u00f5es como uma aspira\u00e7\u00e3o maior.<br \/>\nSempre fico comovido ao reconhecer o esfor\u00e7o de Sua Santidade o Dalai Lama em estabelecer a vis\u00e3o da responsabilidade universal e, assim, os verdadeiros fundamentos de uma cultura de paz que talvez ele nunca veja com seus olhos dessa vida mas que certamente v\u00ea com os olhos puros e atemporais de um Bodisatva.<\/p>\n<h3>A naturalidade da responsabilidade universal em meio ao mundo \u201creal\u201d<\/h3>\n<p>Muitas vezes nos parece que a l\u00f3gica do \u201cmundo real\u201d \u00e9 vitoriosa sobre as nossas aspira\u00e7\u00f5es elevadas e vis\u00f5es espirituais que terminam por mostrar-se fr\u00e1geis diante da concretitude das circunst\u00e2ncias. Na vis\u00e3o budista n\u00e3o \u00e9 assim. Quando nos comportamos ferindo as rela\u00e7\u00f5es, temos problemas. Quando promovemos rela\u00e7\u00f5es positivas somos recompensados.<br \/>\nSe criarmos condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para os outros seres, estabelecemos rela\u00e7\u00f5es satisfat\u00f3rias; ent\u00e3o surge felicidade para n\u00f3s. Por outro lado, se n\u00f3s exercemos a\u00e7\u00f5es \u00e1speras, negativas, agressivas com os outros seres, n\u00f3s n\u00e3o conseguimos construir uma civiliza\u00e7\u00e3o, porque uma civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda pela agress\u00e3o, mas pela coordena\u00e7\u00e3o a partir de uma aspira\u00e7\u00e3o de paz e harmonia entre as pessoas e seu mundo. Nenhum ato corrupto e agressivo constr\u00f3i rela\u00e7\u00f5es positivas e portanto n\u00e3o produz felicidade e seguran\u00e7a e nem cultura sustent\u00e1vel, n\u00e3o importa o qu\u00e3o poderoso seja.<br \/>\nEsta compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo artificial. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos em uma escola da vida onde aprendemos que fazer assim \u00e9 melhor e que fazer de outro modo \u00e9 catastr\u00f3fico. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma \u00e9tica artificial basta aprendermos com a experi\u00eancia real que todos temos durante nossas vidas. A no\u00e7\u00e3o de responsabilidade universal nos leva em dire\u00e7\u00e3o a uma cultura que reconhecendo isso vai ser naturalmente uma cultura de vis\u00e3o ampla e paz.<br \/>\nA conex\u00e3o da responsabilidade universal com a vis\u00e3o espiritual \u00e9 introduzida por S. S. o Dalai Lama atrav\u00e9s da seguinte reflex\u00e3o: &#8220;N\u00e3o importa quanto poder tenhamos, nem quanto recursos tenhamos, a felicidade vai depender de nossa dimens\u00e3o de afeto, de carinho, de compaix\u00e3o e de amor. Se n\u00f3s n\u00e3o tivermos isso, a nossa vida vai parecer muito infeliz e sem sentido&#8221;. N\u00f3s, seres humanos, somos cooptados por uma aspira\u00e7\u00e3o de atingir poder e recursos, mas isso \u00e9 um engano. Esses poderes e recursos n\u00e3o v\u00e3o proporcionar a experi\u00eancia que todos buscamos e que s\u00f3 vem com compaix\u00e3o, amor e afeto.<br \/>\nNo tempo da nossa cultura atual vemos a\u00e7\u00f5es de desenvolvimento que n\u00e3o contemplam estes valores, \u00e9 como se fossem originadas fora do \u00e2mbito humano. S\u00e3o geradas por uma l\u00f3gica que n\u00e3o \u00e9 mais propriamente humana uma vez que n\u00e3o tem por objetivo explicito trazer felicidade e reduzir o sofrimento, mas s\u00e3o referenciadas por n\u00fameros abstratos e sem emo\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs organiza\u00e7\u00f5es referenciadas assim n\u00e3o t\u00eam emo\u00e7\u00f5es humanas mas t\u00eam aspira\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e de recursos. Dentro dessa perspectiva podemos dizer que n\u00f3s, seres humanos, estamos quase \u201ccolonizados\u201d por este tipo de intelig\u00eancia alien\u00edgena. Ou seja, \u00e9 como se surgisse uma \u201cintelig\u00eancia\u201d, que n\u00e3o \u00e9 uma intelig\u00eancia humana propriamente, e que come\u00e7a a gerar os processos todos com uma l\u00f3gica pr\u00f3pria onde a felicidade ou infelicidade dos seres humanos nem \u00e9 contemplada. E a\u00ed, n\u00f3s, seres humanos, temos que nos juntar e priorizar a reintrodu\u00e7\u00e3o dos valores humanos. Nossa fragilidade \u00e9 sermos cooptados por este tipo de intelig\u00eancia cuja a\u00e7\u00e3o, se continuada, n\u00e3o apenas nos trar\u00e1 crescente infelicidade como tamb\u00e9m destruir\u00e1 o suporte da vida sobre o planeta.<br \/>\nSob o ponto de vista dessa intelig\u00eancia n\u00e3o humana e fria, quando n\u00f3s n\u00e3o estamos bem, ela n\u00e3o oferece uma vis\u00e3o investigativa que busque a origem dos desequil\u00edbrios, mas indica solu\u00e7\u00f5es externas na forma de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas de felicidade ou de al\u00edvio ou apoio psicol\u00f3gico como se voc\u00ea fosse unilateralmente desequilibrado. Em todos os momentos h\u00e1 por tr\u00e1s a vis\u00e3o de que a realidade \u00e9 s\u00f3lida na forma como se oferece, assim \u00e9 o mundo real. Surge sempre a sugest\u00e3o: reprograme sua mente, pois o problema \u00e9 seu! A verdade \u00e9 isso que est\u00e1 aqui!<br \/>\nEntendendo assim tentamos nos \u201cajustar\u201d. As dificuldades s\u00e3o tratadas a portas fechadas como se fossem problemas individuais. Mesmo que a introdu\u00e7\u00e3o desta cultura acarrete o surgimento de uma epidemia de doen\u00e7as comportamentais e emocionais o que as pessoas pensam \u00e9: &#8220;esse desajuste \u00e9 meu!&#8221; O problema parece individual e a pessoa \u00e9 tratada individualmente. Surge uma epidemia de pessoas que se drogam e s\u00e3o tratadas uma a uma. Surge uma epidemia de pessoas que n\u00e3o tem inser\u00e7\u00e3o social e que tentam romper isso do jeito que puderem, e a\u00ed tamb\u00e9m s\u00e3o tratadas com viol\u00eancia, uma a uma. Gostaria de ver estudos estat\u00edsticos que tratem disso.<br \/>\nEm dois pontos temos o desequil\u00edbrio. As pessoas que abandonam a vis\u00e3o ampla e tentam em v\u00e3o obter o resultado de felicidade e seguran\u00e7a que almejam e as pessoas que mesmo aspirando n\u00e3o encontram a entrada e est\u00e3o alijadas deste processo tamb\u00e9m ficam infelizes. Em nenhum ponto h\u00e1 um ganho real.<br \/>\nEste \u00e9 o desafio. Sem uma cultura de paz, sem a vis\u00e3o da responsabilidade universal a vida se torna insatisfat\u00f3ria e a pr\u00f3pria sustentabilidade da biosfera fica amea\u00e7ada. Nesse sentido o mundo real enquanto o mundo poss\u00edvel e sustent\u00e1vel \u00e9 o mundo da cultura de paz e n\u00e3o o mundo como pensamos que ele \u00e9 desde nossas vis\u00f5es obstru\u00eddas!<br \/>\n<em>* Este texto est\u00e1 baseado na transcri\u00e7\u00e3o de uma palestra na comunidade do Coque, em Recife, em 12 de agosto de 2004. \u00c9 um trecho do livro <a href=\"http:\/\/cebbsp1.webstorelw.com.br\/products\/mandala-do-lotus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mandala do l\u00f3tus<\/a>, de Lama Padma Samten.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Lama Padma Samten A vis\u00e3o mais elevada do Buda \u00e9 vi\u00e1vel em meio ao \u201cmundo real\u201d ou \u00e9 apenas uma utopia fora de seu tempo? 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