{"id":34,"date":"2012-12-13T17:19:06","date_gmt":"2012-12-13T19:19:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/novo\/?p=34"},"modified":"2012-12-13T17:19:06","modified_gmt":"2012-12-13T19:19:06","slug":"uma-breve-introducao-ao-budismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/es\/uma-breve-introducao-ao-budismo\/","title":{"rendered":"Uma breve introdu\u00e7\u00e3o ao Budismo"},"content":{"rendered":"<p><em>por Lama Padma Samten<br \/>\n<\/em><br \/>\nExistem muitas formas de introduzir o pensamento budista. <!--more-->Farei uma abordagem geral, voltada aos aspectos mais internos do que significam os ensinamentos do Buda.<\/p>\n<h3>Apresentando o budismo como um rem\u00e9dio para duka<\/h3>\n<p>O budismo pode ser apresentado como um rem\u00e9dio. Olhemos esse aspecto em primeiro lugar. O pr\u00f3prio Buda ofereceu os ensinamentos dessa forma. Quando o Buda era um pr\u00edncipe, percebeu que todos os seres estavam submetidos a uma doen\u00e7a geral. Essa doen\u00e7a tem um nome espec\u00edfico, mas n\u00e3o existe correspondente para essa palavra no Ocidente. L\u00e1 no Oriente chamam essa doen\u00e7a de duka. Embora todos tenhamos essa doen\u00e7a, talvez n\u00e3o percebamos sua exist\u00eancia. Essa doen\u00e7a \u00e9 algo como alegria e sofrimento insepar\u00e1veis. Na vis\u00e3o budista existe uma \u00fanica palavra para esses dois conceitos, eles n\u00e3o podem ser separados. Em nossas l\u00ednguas acontece o contr\u00e1rio, estes conceitos est\u00e3o separados e n\u00e3o podem ser unificados em um \u00fanico termo.<br \/>\nDuka pode ser explicado de forma simples a partir do fato de que, quando temos alegrias, elas s\u00e3o sempre, simultaneamente, sementes de sofrimento. Dizemos que esta \u00e9 uma experi\u00eancia c\u00edclica \u2014 \u00e9 como uma roda girando entre as polaridades de estar bem e estar mal. Gostar\u00edamos de encontrar o freio quando estamos na regi\u00e3o de felicidade, e gostar\u00edamos de acelerar quando estamos tristes. \u00c0s vezes achamos que encontramos um controle de velocidade desse tipo, mas logo surgem problemas nessa tentativa de controle.<br \/>\nO primeiro exemplo que me surge \u00e9 o de uma m\u00e3e que deseja ter um filho. Quando o beb\u00ea nasce, primeiro ela pensa: &#8220;Que maravilha!&#8221; Depois ela percebe que tudo que acontece ao filho a perturba intensamente. Na exata medida da intensidade daquela alegria, surge o sofrimento. E assim \u00e9 com todas as rela\u00e7\u00f5es humanas.<br \/>\nOutro exemplo: uma pessoa est\u00e1 em algum lugar \u2014 n\u00e3o sei bem onde poderia ser \u2014 e v\u00ea um ser maravilhoso, fant\u00e1stico, inacredit\u00e1vel. Esta pessoa pede aos deuses: &#8220;Por favor, deixe-me chegar perto daquele ser t\u00e3o maravilhoso.&#8221; Se por acaso os deuses est\u00e3o de bom humor, podem at\u00e9 conceder alguma intera\u00e7\u00e3o\u2026 E logo a pessoa descobre-se vigiando aquele ser, absolutamente insegura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua t\u00eanue conex\u00e3o com ele. E o mais curioso: a intensidade da vigil\u00e2ncia, a intensidade do sofrimento causado por esta vigil\u00e2ncia e a intensidade da inseguran\u00e7a quanto aos rumos da rela\u00e7\u00e3o correspondem exatamente \u00e0 intensidade da beleza daquele ser. Ou seja, quanto maior a beleza, maior a vigil\u00e2ncia, o sofrimento e a inseguran\u00e7a.<br \/>\nChamamos isto de duka. N\u00e3o h\u00e1 como evitar este tipo de inquieta\u00e7\u00e3o. Para todas as caracter\u00edsticas favor\u00e1veis que percebemos no mundo, existem problemas correspondentes, exatamente no mesmo grau.<br \/>\nH\u00e1 problemas de outros tipos. H\u00e1 os ligados \u00e0 imperman\u00eancia. Lembro de um casal que sofreu uma trag\u00e9dia verdadeira. Seu carro foi levado por uma enchente, e a filhinha disse: &#8220;Papai, n\u00e3o me deixe morrer.&#8221; Mas os filhos ficaram dentro do carro, e os pais, ainda que tenham sobrevivido, n\u00e3o puderam resgat\u00e1-los. Todas as vezes que esses pais lembrarem disso, v\u00e3o sofrer.<br \/>\nOutra situa\u00e7\u00e3o mais amena: olhamos para uma bandeja de doces maravilhosos [algu\u00e9m havia enviado uma bandeja de doces ao lama naquele dia] e pensamos: &#8220;Que maravilha!&#8221; Podemos at\u00e9 ficar contemplando a bandeja e examinando cuidadosamente nossos apegos, examinando como surgem os ventos internos e as rea\u00e7\u00f5es condicionadas. Tiramos a tampa da bandeja, e surgem energias n\u00edtidas dentro do nosso corpo\u2026 tapamos, e as energias se v\u00e3o. Este \u00e9 um exerc\u00edcio interessante.<br \/>\nCada pequeno objeto, cada pequena pedrinha na paisagem tem uma correspond\u00eancia interna em n\u00f3s na forma de energias que percorrem nosso corpo e nervos. A isto chamamos ventos internos. Nosso apego n\u00e3o \u00e9 \u00e0s coisas, mas aos ventos internos que elas provocam. Os ventos internos s\u00e3o a experi\u00eancia \u00edntima dos objetos e tamb\u00e9m dos seres. Esta depend\u00eancia e apego s\u00e3o a base de duka.<br \/>\nOs problemas ecol\u00f3gicos s\u00e3o outros exemplos de duka. Nunca desejamos destruir a natureza. Queremos apenas meios de transporte, adubos, pl\u00e1sticos, papel, refrigeradores&#8230; Mas isso gera problemas. Cada uma das a\u00e7\u00f5es humanas tem um objetivo, mas cada uma delas tem um resultado tamb\u00e9m. Isso \u00e9 resumido pela palavra duka.<br \/>\nNo sentido geral, cada um dos seres sente duka em seu pr\u00f3prio corpo. Cada um nasce, envelhece, adoece e morre. No sentido budista, quando a morte vem, n\u00e3o \u00e9 o fim. Dentro do c\u00edrculo representado pela palavra duka, h\u00e1 uma semente de inten\u00e7\u00e3o que perdura, o que morre \u00e9 um personagem. \u00c9 como um filme que acaba no cinema; outras imagens v\u00e3o surgir na tela ap\u00f3s a proje\u00e7\u00e3o daquele filme. Se h\u00e1 um cinema, outro filme sempre entra em cartaz.<br \/>\nTemos um processo infind\u00e1vel de vida, nascimento, decrepitude, morte, vida. N\u00e3o precisamos acreditar no renascimento. Pode-se ficar em uma morte apenas, mas ainda assim n\u00e3o conseguimos frear a doen\u00e7a de duka.<br \/>\nTodos os aspectos do budismo s\u00e3o propostos como rem\u00e9dios para esta doen\u00e7a. \u00c9 por causa desta doen\u00e7a que surge o budismo. Observando de forma ampla o sentido de duka, percebemos que Buda a estudou detalhadamente e descobriu uma natureza que est\u00e1 al\u00e9m de toda esta complica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPodemos ter uma no\u00e7\u00e3o do que seja isso da seguinte forma: reconhecemos que fomos beb\u00eas, criancinhas, crian\u00e7as maiores, adolescentes, adultos \u2014 e em cada etapa \u00e9 como se houvesse toda uma vis\u00e3o de mundo correspondente. Temos uma identidade, olhamos com estranheza as vidas que os outros levam. De dentro do nosso ponto de vista, nunca entendemos completamente o que os outros fazem.<br \/>\nLembro da minha adolesc\u00eancia; eu olhava para as outras pessoas e achava aquelas vidas muito estranhas, realmente n\u00e3o conseguia entender por que as pessoas se portavam daquela forma. Via crian\u00e7as sendo maltratadas e tinha uma sensa\u00e7\u00e3o de grande vantagem por ter minha pr\u00f3pria m\u00e3e. Quando estamos imersos na nossa pr\u00f3pria forma de ver as coisas, s\u00f3 podemos ver de forma estranha o modo de vida dos outros.<br \/>\nEnt\u00e3o percebemos que nossas pr\u00f3prias vis\u00f5es anteriores eram vis\u00f5es particulares. Ao examinarmos as v\u00e1rias fases de nossa vida, percebemos que as v\u00e1rias vis\u00f5es s\u00e3o perfeitas enquanto acontecem, mas n\u00e3o s\u00e3o de forma alguma est\u00e1veis, permanentes. Quando elas mudam, pode surgir uma pergunta: &#8220;O que permaneceu ao deixarmos de ser crian\u00e7as e nos tornarmos adultos?&#8221; O que permanece \u00e9 um misterioso brilho interno. O Buda usou este mesmo exemplo da crian\u00e7a, do adolescente e do adulto. Ele apontou esta ess\u00eancia que vai transitando de um para outro, esta capacidade de discriminar, como a qualidade que est\u00e1 mais pr\u00f3xima do permanente.<br \/>\nAssim, a partir deste processo, se quisermos ver o que \u00e9 o budismo de fato, n\u00e3o devemos pensar em \u00e9pocas, pois a experi\u00eancia de duka n\u00e3o est\u00e1 limitada pelo tempo\u2026 O pr\u00f3prio Buda hist\u00f3rico, o Buda Sakyamuni, n\u00e3o foi o primeiro Buda. Como ele mesmo relata, serviu e ouviu instru\u00e7\u00f5es de incont\u00e1veis Budas no passado.<br \/>\nAo aprofundarmos o significado da palavra Buda, percebemos que os primeiros Budas surgem quando surgem as complica\u00e7\u00f5es. O budismo n\u00e3o \u00e9 algo messi\u00e2nico, Buda n\u00e3o veio anunciar alguma coisa, ele veio manifestar uma liberdade que a maior parte dos seres n\u00e3o v\u00ea. Na medida em que os Budas periodicamente aparecem e d\u00e3o ensinamentos \u00e9 que surge o budismo.<br \/>\nO budismo n\u00e3o \u00e9 propriamente algo que perten\u00e7a \u00e0 hist\u00f3ria humana. Algumas vezes as pessoas colocam os ensinamentos espirituais desta forma: &#8220;Quem foi o fundador do budismo? Quando e onde surgiu o budismo? O budismo acredita em reencarna\u00e7\u00e3o? Que tipo de preceitos morais s\u00e3o praticados pelo budista? Qual a diferen\u00e7a entre tal e tal escolas budistas?&#8221; Esta an\u00e1lise do budismo em forma de question\u00e1rio talvez n\u00e3o ajude muito.<br \/>\nPara o cristianismo existe o Antigo Testamento e a t\u00e1bua de Mois\u00e9s, que ele recebeu de Deus no topo do Monte Sinai. Assim surgem os ensinamentos crist\u00e3os: Deus se apresenta a Mois\u00e9s e revela a verdade. O cristianismo depende da B\u00edblia, ela \u00e9 a verdade para o crist\u00e3o.<br \/>\nNo sentido budista n\u00e3o existe uma b\u00edblia. J\u00e1 que colocamos os ensinamentos budistas na forma de um rem\u00e9dio destinado a remover o sofrimento originado por duka, quando isso acontece, ou seja, quando o sofrimento gerado por duka realmente cessa, atinge-se uma situa\u00e7\u00e3o al\u00e9m de espa\u00e7o e de tempo, de escrituras e profetas. Assim se d\u00e1 a libera\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia c\u00edclica.<br \/>\nMas o que fazemos quando estamos liberados? A primeira coisa que fazemos \u00e9 abandonar o rem\u00e9dio. O budismo se extingue com seu efeito. Quando a libera\u00e7\u00e3o acontece, o budismo some completamente.<br \/>\nExistem v\u00e1rias imagens para descrever este processo. A imagem do barco, por exemplo. Existe o rio do sofrimento, a margem do sofrimento e o barco da libera\u00e7\u00e3o, que leva \u00e0 margem da libera\u00e7\u00e3o. Tudo o que fazemos \u00e9 atravessar o rio e abandonar o barco. N\u00e3o teria sentido ficar no barco. Quando chegamos ao destino sa\u00edmos do barco. Tudo que fazemos \u00e9 atravessar, ent\u00e3o abandonamos o barco. Quando fazemos uma viagem de \u00f4nibus, o que se faz? Ser\u00e1 que pensamos: &#8220;Vamos ser fi\u00e9is ao \u00f4nibus?&#8221; N\u00e3o. Ao final da viagem abandonamos o \u00f4nibus.<br \/>\nQuando a pessoa se vincula aos ensinamentos budistas ela n\u00e3o est\u00e1 se filiando a uma experi\u00eancia sect\u00e1ria. Ela est\u00e1 apenas em busca da libera\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia c\u00edclica \u2014 o Buda \u00e9 apenas um guia. Por exemplo: se uma pessoa est\u00e1 na cidade de S\u00e3o Paulo e precisa ir de um extremo ao outro, talvez isto seja muito dif\u00edcil se ela n\u00e3o conhece a cidade; mas, da segunda vez, talvez seja bem mais f\u00e1cil. A fun\u00e7\u00e3o do Buda \u00e9 esta: ajudar as pessoas a percorrer o caminho at\u00e9 a libera\u00e7\u00e3o do sofrimento de duka. O Buda completou o trajeto. Depois, durante 46 anos, ele deu o ensinamento de como cruzar efetivamente para a outra margem.<br \/>\nDurante a vida do Buda, as pessoas guardavam de mem\u00f3ria o que ele falava. Quando o Buda desapareceu, elas registraram em papel. E surgiu uma vasta obra escrita baseada nos ensinamentos orais do Buda. Muitos seguidores do Buda escreveram muitos livros, sempre lembrando que &#8220;a sabedoria n\u00e3o est\u00e1 nos livros&#8221;. Ent\u00e3o estudamos minuciosamente aqueles textos e sabemos de cor que &#8220;a sabedoria n\u00e3o est\u00e1 nas palavras&#8221;.<br \/>\nAgora os ensinamentos chegam \u00e0 l\u00edngua portuguesa. Traduzimos do tibetano, chin\u00eas, japon\u00eas, s\u00e2nscrito ou p\u00e1li, para o portugu\u00eas. Parece contradit\u00f3rio traduzir textos, mesmo sabendo que a sabedoria n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1\u2026 \u00c9 que, ainda que n\u00e3o esteja, os textos podem, eventualmente, umedecer as sementes de sabedoria que temos naturalmente. Esta \u00e9 a sua fun\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEstamos apresentando o budismo atrav\u00e9s da palavra duka. H\u00e1 representa\u00e7\u00f5es dela \u2014 as imagens da roda da vida s\u00e3o exemplos. A roda da vida \u00e9 muito interessante, em outra ocasi\u00e3o abordarei isso, sobre como meditamos na roda da vida, como mudamos nosso comportamento na vida cotidiana de acordo com isso. Estes m\u00e9todos fazem do budismo algo realmente excelente.<\/p>\n<h3>Apresentando o budismo por meio do Buda<\/h3>\n<p>Outra forma de explicar o budismo seria de uma forma positiva. Ao inv\u00e9s de come\u00e7ar com o sofrimento de duka, explicamos o budismo atrav\u00e9s da forma do Buda. Ou seja, atrav\u00e9s da palavra Buda. O que \u00e9 Buda? A natureza completamente liberta dos h\u00e1bitos, dos condicionamentos grosseiros e sutis. Como sabemos que somos presas de tais comportamentos? Basta olharmos para uma bandeja de doces. Dizemos: &#8220;Muita gordura, muito a\u00e7\u00facar, isso n\u00e3o faz bem.&#8221; Mas, ainda assim, percebemos que os doces seguem nos atraindo, independentemente de nossas convic\u00e7\u00f5es e tratados m\u00e9dicos a respeito, ou de sabermos por experi\u00eancia pr\u00f3pria que doces nos deixam enjoados ap\u00f3s comermos alguns a mais.<br \/>\nCada vez que decidimos n\u00e3o mais fazer alguma coisa, dizer n\u00e3o a algo, h\u00e1 uma regi\u00e3o, onde surgem os impulsos, que parece n\u00e3o ser afetada pelas decis\u00f5es\u2026 Podemos dizer n\u00e3o ao cigarro, n\u00e3o ao \u00e1lcool, n\u00e3o ao videogame, mas estas coisas seguem nos atraindo. Podemos dizer n\u00e3o \u00e0 inveja, ao desejo-apego, ao cansa\u00e7o, \u00e0 gan\u00e2ncia, \u00e0 raiva ou ao orgulho. Mas parece que tudo continua funcionando da mesma forma, apesar de nossa decis\u00e3o.<br \/>\nAlgumas vezes brinco que Charles Bronson \u00e9 meu mestre. Fa\u00e7o o teste: &#8220;lamas n\u00e3o podem matar&#8221;; da\u00ed ponho a fita no v\u00eddeo, coloco uma estatuazinha do Buda sobre a TV e fico rezando durante o filme, mas aos dez minutos de filme j\u00e1 surge o impulso: &#8220;Mata, mata logo, vai!&#8221; Por isto ele \u00e9 um mestre, aponta a viol\u00eancia oculta, mas presente. Aponta a fragilidade latente\u2026<br \/>\nIsso quer dizer que temos emo\u00e7\u00f5es perturbadoras. E ent\u00e3o descobrimos o sentido de uma palavra muito importante \u2014 a palavra carma. Porque, se estudamos a libera\u00e7\u00e3o, temos que estudar o processo oposto, o aprisionamento, que chamamos de carma.<br \/>\nAo observar as grandes poesias e m\u00fasicas, vemos que s\u00e3o sempre sobre nossos impulsos: &#8220;Eu n\u00e3o devia fazer tais coisas, no entanto, elas s\u00e3o mais fortes.&#8221; Elas s\u00e3o sempre sobre duka, da\u00ed h\u00e1 duas correntes opostas: &#8220;Aqueles cinco minutos valeram a pena&#8221;, e &#8220;n\u00e3o, aquilo nunca mais, o custo \u00e9 demasiado&#8221;. Por que esses poemas, m\u00fasicas e fic\u00e7\u00f5es nos atraem? Por que vivenciamos aquilo? Por que aquela energia percorre nossas veias? Isso acontece porque estamos presos no mesmo tipo de situa\u00e7\u00e3o mental. Ent\u00e3o, quando falamos de Buda, inevitavelmente temos que falar de carma. Estamos inevitavelmente presos no mesmo tipo de situa\u00e7\u00e3o descrita na m\u00fasica ou no romance.<br \/>\nQuando olhamos nossa experi\u00eancia, ao reconhecer tudo isso, vemos que nossa vida tem sido sempre composta de muitos ciclos desse tipo. E de novo voltamos \u00e0quele mesmo lugar: &#8220;Por que fui atropelado?&#8221;, &#8220;por que ela me deixou?&#8221;, &#8220;por que sempre fa\u00e7o tudo errado?&#8221;. E ent\u00e3o come\u00e7a tudo de novo, e dizemos: &#8220;Ah, agora j\u00e1 sei como \u00e9&#8221;. E as coisas v\u00e3o assim.<br \/>\nUm mestre j\u00e1 falecido dizia: &#8220;Se voc\u00ea culpa seu marido por seus problemas, voc\u00ea tem uma condena\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua \u2014 os pr\u00f3ximos v\u00e3o ter a mesma cara, os mesmos problemas do primeiro.&#8221; Com namoradas \u00e9 assim tamb\u00e9m. Podemos simplificar todo este processo com uma palavra \u2014 carma. \u00c9 um processo muito sutil, n\u00e3o \u00e9 uma lei que nos condena. Se fosse assim, n\u00e3o existiria a palavra Buda. Buda n\u00e3o \u00e9 o ser, n\u00e3o \u00e9 uma pessoa. Buda \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o de todos esses impulsos.<br \/>\nO Buda tamb\u00e9m diz: &#8220;N\u00e3o acreditem no que eu digo, testem por si pr\u00f3prios.&#8221; Ou seja, o que eu ensino n\u00e3o precisa ser tomado como uma verdade a ser aceita. Escutem e testem \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira.<\/p>\n<h3>Apresentando o budismo por meio dos ensinamentos<\/h3>\n<p>A fala do Buda, seus ensinamentos e explica\u00e7\u00f5es sobre o rem\u00e9dio para duka seriam uma terceira forma de apresenta\u00e7\u00e3o do budismo. \u00c9 uma apresenta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das Quatro Nobres Verdades e do Nobre Caminho \u00d3ctuplo. Se voc\u00eas observarem apenas o que est\u00e1 nas Quatro Verdades e no Nobre Caminho, ter\u00e3o dificuldade de reconhecer o budismo, pois estes ensinamentos est\u00e3o presentes em outras tradi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m.<br \/>\nAs Quatro Nobres Verdades s\u00e3o: a experi\u00eancia de exist\u00eancia c\u00edclica; o reconhecimento de que a experi\u00eancia c\u00edclica \u00e9 criada artificialmente; a afirma\u00e7\u00e3o da possibilidade de dissolu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da exist\u00eancia c\u00edclica; o Caminho de Oito Passos ou Caminho do Meio, que leva \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da fixa\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia de exist\u00eancia c\u00edclica.<br \/>\nPodemos apresentar o budismo atrav\u00e9s destas quatro verdades, e o caminho para descobrir a liberdade \u00e9 o Caminho do Meio, o Nobre Caminho \u00d3ctuplo.<br \/>\nO primeiro passo \u00e9 a decis\u00e3o de abandonar a exist\u00eancia c\u00edclica e a imperman\u00eancia. \u00c9 muito dif\u00edcil chegar a este ponto. A maior parte do tempo estamos preocupados em ganhar jogos. Isso significaria dizer a um gremista que, se ele abandonasse o campeonato, n\u00e3o sofreria mais. Mas a pessoa diz: &#8220;Se eu abandonar o campeonato, n\u00e3o sou mais uma pessoa. Mas e a\u00ed? Eu vou desaparecer!&#8221; A primeira etapa das oito \u00e9 muito dif\u00edcil, \u00e9 como saltar de um abismo. Parece haver um grande sofrimento nela. Mas, se temos a coragem de ultrapassar este obst\u00e1culo aparente, nossa vida muda por completo. Curiosamente, isto \u00e9 o oposto do que pensamos convencionalmente. Apenas se liberarmos nossa conex\u00e3o com a roda da vida \u00e9 que estaremos livres de fato. Presos \u00e0 roda, podemos querer reconhecimento, dinheiro, uma d\u00fazia de CDs \u2014 buscamos essas coisas. \u00c9 como falar com algu\u00e9m que est\u00e1 num campeonato de futebol. A pessoa quer ser campe\u00e3 da Libertadores, campe\u00e3 do mundo, ou, como naquele decalque muito engra\u00e7ado que vi outro dia: &#8220;Gr\u00eamio, Campe\u00e3o do Planeta&#8221;. Se tiramos isso da pessoa, parece que a vida perde completamente o sentido. O amadurecimento desta etapa tem uma certa conex\u00e3o com outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<br \/>\nSe a pessoa realiza o segundo passo, v\u00ea-se liberada de todos os impulsos negativos da mente. Quando atinge a liberdade correspondente ao terceiro passo, est\u00e1 livre de todos os defeitos da fala e das emo\u00e7\u00f5es E, quando atinge a realiza\u00e7\u00e3o, a maturidade do quarto passo, est\u00e1 livre de todas as manipula\u00e7\u00f5es de corpo e identidades, est\u00e1 livre de causar mal para si ou para os outros atrav\u00e9s do corpo, fala (ou emo\u00e7\u00e3o) e mente.<br \/>\nNo quinto passo ela se v\u00ea contemplada com o que poder\u00edamos chamar de sorte. \u00c9 como se o universo inteiro come\u00e7asse a conspirar pela pessoa. Nesse momento, tudo funciona n\u00e3o apenas para a pessoa, mas para os outros ao redor dela. Este \u00e9 o resultado da maturidade da quinta etapa.<br \/>\nA maturidade do sexto passo d\u00e1 \u00e0 pessoa uma grande estabilidade. Uma estabilidade de sa\u00fade, de vigor f\u00edsico, de energia. Esta energia est\u00e1vel significa tamb\u00e9m destemor. Qualquer tra\u00e7o de medo desaparece \u2014 isto caracteriza a vit\u00f3ria na sexta etapa.<br \/>\nQuando a pessoa atinge a maturidade relacionada ao s\u00e9timo passo, consegue conceber a natureza divina de todas as coisas. V\u00ea com nitidez o que se chama de dupla verdade, o aspecto luminoso, sagrado. Percebe o aspecto ilimitado dos gr\u00e3os de poeira, das estrelas, da pr\u00f3pria mente, da apar\u00eancia f\u00edsica dos seres, dos carrapatos, de tudo. Tamb\u00e9m percebe o aspecto ilimitado presente nos seres abstratos, os seres que n\u00e3o precisam de corpos. Dito assim parece muito m\u00edstico, mas a culpa \u00e9 das palavras, elas s\u00e3o assim mesmo. Neste terceiro contexto de introdu\u00e7\u00e3o ao budismo que estou explicando, coloco as palavras desta forma. Mesmo que elas sejam verdadeiras, n\u00e3o produzem as experi\u00eancias, produzem apenas curiosidade e predisposi\u00e7\u00e3o pelas experi\u00eancias verdadeiras.<br \/>\nO oitavo passo significa a libera\u00e7\u00e3o completa de todos os sentidos convencionais. Alcan\u00e7a-se a percep\u00e7\u00e3o est\u00e1vel do aspecto ilimitado e da inseparatividade de todas as coisas, sem o aspecto convencional. No s\u00e9timo passo ainda existe uma dupla verdade, pois h\u00e1 um aspecto convencional em contraponto a um aspecto absoluto. Esses dois \u00faltimos passos s\u00e3o a ilumina\u00e7\u00e3o, a s\u00e9tima \u00e9 um tipo de ilumina\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de superar, e a oitava tamb\u00e9m. Na oitava apenas n\u00e3o h\u00e1 percep\u00e7\u00e3o dual.<br \/>\nE, por curioso que possa parecer, h\u00e1 um passo adicional al\u00e9m do Nobre Caminho \u00d3ctuplo. Buda atingiu as oito etapas sentado sob a \u00e1rvore bodhi, a figueira sagrada, mas depois levantou-se para ir ao encontro dos seres e ajud\u00e1-los. \u00c9 o ponto da manifesta\u00e7\u00e3o completa da compaix\u00e3o pelos seres. Ele se levanta para benef\u00edcio de todos. N\u00e3o \u00e9 uma etapa de libera\u00e7\u00e3o propriamente dita \u2014 a libera\u00e7\u00e3o foi conclu\u00edda no oitavo passo \u2014, \u00e9 o momento da a\u00e7\u00e3o iluminada.<br \/>\nExiste uma divis\u00e3o comum de tr\u00eas modos de praticar o budismo. Come\u00e7amos ouvindo ensinamentos, depois meditamos sobre eles e a seguir agimos de acordo. \u00c9 por isso que precisamos de centros, como temos aqui [o Centro de Estudos Budistas Bodisatva, na estrada do Caminho do Meio, cidade de Viam\u00e3o, Rio Grande do Sul]. \u00c9 por isso que estamos construindo um templo. Para fazer girar as v\u00e1rias etapas da roda do Darma. Precisamos de uma sala onde possamos ouvir, outra onde meditar e ainda o ambiente onde agir. Nosso objetivo \u00e9 ajudar os seres das mais diferentes formas. \u00c9 a manifesta\u00e7\u00e3o de uma dimens\u00e3o humana transcendente. Quando ajudamos algu\u00e9m h\u00e1 um aspecto extraordin\u00e1rio, c\u00f3smico. Quando ajudamos algu\u00e9m j\u00e1 estamos atuando segundo a compreens\u00e3o de uma outra pessoa, j\u00e1 nos colocamos em marcha transcendente em rela\u00e7\u00e3o a nossos pr\u00f3prios impulsos, nossa identidade.<br \/>\nNo Centro Budista Caminho do Meio temos esse objetivo. Por isso estamos montando uma escola, planejamos uma cl\u00ednica etc. \u00c9 para, na medida do poss\u00edvel, ajudar as pessoas a viverem uma vida mais sensata, mais cordial. Tamb\u00e9m tentamos estruturar atividades que resultem em formas de sustento. O centro deve ser um lugar de for\u00e7a para beneficiar os seres.<br \/>\nAgora, se quisermos explicar de uma outra forma, ainda dentro dessa perspectiva descritiva, o budismo inteiro pode ser resumido em tr\u00eas palavras. A primeira \u00e9 Buda, que j\u00e1 expliquei. A segunda \u00e9 Darma, que mencionei h\u00e1 pouco; \u00e9 o ensinamento que surge na mente do Buda para beneficiar os seres \u2014 como ele tem liberdade perante o que para n\u00f3s \u00e9 dificuldade, ele examina o duka dos outros seres e resolve os problemas, manifestando solu\u00e7\u00f5es. A terceira \u00e9 Sanga, e est\u00e1 relacionada ao Buda.<br \/>\nA Sanga surgiu porque o Buda surgiu, 26 s\u00e9culos atr\u00e1s. Se n\u00e3o fosse assim, n\u00e3o estar\u00edamos aqui estudando esses ensinamentos. \u00c9 como se fosse uma fogueira, a chama em si n\u00e3o pertence a um ou dois dos paus queimando. \u00c9 um calor que surge a partir do conjunto: se separamos um dos paus da fogueira, o fogo termina neste pau. Temos dificuldade de seguir o caminho da libera\u00e7\u00e3o sozinhos, mas quando estamos juntos \u00e9 mais f\u00e1cil. Chamamos isso de Sanga. Ela \u00e9 capaz de queimar nossos problemas. Tamb\u00e9m \u00e9 comparada a um recipiente e um pil\u00e3o. Um centro de Darma, um grupo de praticantes, \u00e9 como se fosse o recipiente, e o sucessivo bater do pil\u00e3o \u00e9 a vida cotidiana. Somos os gr\u00e3os de arroz com casca. A vida vai batendo, e as cascas v\u00e3o caindo. Este \u00e9 o efeito da Sanga. O exemplo \u00e9 do Zen, claro \u2014 exemplo Zen \u00e9 sempre com arroz\u2026<\/p>\n<h3>Apresentando o budismo por meio da medita\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de introduzir os ensinamentos, v\u00e1rios estilos de ensinamentos. Uma das avenidas tradicionais, ensinada pelo pr\u00f3prio Buda, \u00e9 o caminho da medita\u00e7\u00e3o tranq\u00fcilizadora. A gente simplesmente senta e pratica o primeiro dos oito passos, e os outros seguem-se sucessivamente. Com a mesma apar\u00eancia externa da posi\u00e7\u00e3o de l\u00f3tus, segue-se etapa por etapa.<br \/>\nNeste caminho a pessoa entra, senta e vai colhendo as experi\u00eancias profundas sentado. Este \u00e9 o caminho que o Buda ensinou. Podemos chamar isto de diana, shamata, vipassana ou samadhi; podemos chamar de samassati, mahasandi, mahamudra. De acordo com o conte\u00fado, com o que acontece por dentro. O Buda descreve minuciosamente estes passos. O Buda diz: &#8220;N\u00e3o acreditem!&#8221;, ou: &#8220;Nos textos n\u00e3o est\u00e1 a verdade! Testem!&#8221;\u2026 Mas ainda assim o Buda descreve. O Buda diz que a verdade n\u00e3o est\u00e1 nos textos, mas, dependendo da realiza\u00e7\u00e3o da pessoa, o texto pode espelhar essa realiza\u00e7\u00e3o, e a\u00ed pode ser \u00fatil de alguma forma.<br \/>\nTemos ent\u00e3o o aspecto discursivo, que pode ser misturado com o anterior. Cada um deles precisa dos outros. Se a pessoa s\u00f3 fica sentada, pode ficar apenas em confus\u00e3o, \u00e9 preciso algum tipo de instru\u00e7\u00e3o. O obst\u00e1culo da medita\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 resolvido na medita\u00e7\u00e3o. A pessoa precisa ouvir os ensinamentos e meditar, mas s\u00f3 ouvir n\u00e3o adianta, ela precisa aplicar na vida cotidiana, e ent\u00e3o a medita\u00e7\u00e3o funciona.<\/p>\n<h3>Apresentando o budismo por meio da bondade<\/h3>\n<p>Depois existe uma outra abordagem, que \u00e9 simplesmente praticar bondade. A bondade \u00e9 uma capacidade de ir al\u00e9m da pr\u00f3pria identidade e encontrar os outros seres. \u00c9 uma imediata pr\u00e1tica de transcend\u00eancia ativa. O Dalai Lama diz: &#8220;Eu n\u00e3o sou budista, a minha religi\u00e3o \u00e9 bondade, amor e compaix\u00e3o.&#8221; A instru\u00e7\u00e3o seria assim: apenas pratique bondade; se tiver d\u00favidas e pensar: &#8220;Isto \u00e9 f\u00e1cil, isto \u00e9 ing\u00eanuo&#8221;, chame o &#8220;mestre&#8221; Charles Bronson \u2014 vai ficar claro como este caminho \u00e9 desafiador.<br \/>\nPodemos acreditar que existem seres terr\u00edveis, respons\u00e1veis pelos problemas do mundo. Mas h\u00e1 uma liberdade que n\u00e3o conseguimos captar na sua natureza terr\u00edvel. Apenas dizer que s\u00e3o terr\u00edveis n\u00e3o explica tudo. Um psiquiatra poderia dizer: &#8220;Trato todas as pessoas, menos os loucos&#8221; \u2014, mas seria um absurdo. O psiquiatra \u00e9 algu\u00e9m que tem afinidade com os loucos, ou seja, esta \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o dele. Por isso, n\u00e3o negamos que os seres sejam terr\u00edveis ou loucos, mas \u00e9 porque as coisas s\u00e3o dessa forma que o psiquiatra \u00e9 necess\u00e1rio.<br \/>\nNa verdade n\u00e3o negamos as caracter\u00edsticas dos outros, mas vamos nos comportar de forma diferente. Os chineses est\u00e3o trucidando os budistas no Tibete, mas o Dalai Lama, embora n\u00e3o diga que eles s\u00e3o bonzinhos, ainda assim \u00e9 m\u00e9dico deles tamb\u00e9m. Os chineses t\u00eam suas caracter\u00edsticas e est\u00e3o dentro da roda.<br \/>\nH\u00e1 algum tempo aconteceu um incidente com monges na Cor\u00e9ia. Pode parecer que isso apenas &#8220;suje&#8221; o nome do budismo, mas h\u00e1 um aspecto maravilhoso. As pessoas devem abrir os olhos e ver que n\u00e3o basta fazer os votos, \u00e9 necess\u00e1rio cumpri-los. N\u00e3o \u00e9 por usar uma roupa diferente que se abandona o carma e os impulsos n\u00e3o virtuosos dos seres humanos. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil. Seria como dizer que apenas por se dizer budista uma pessoa estaria iluminada.<br \/>\nIsso me lembra aquele ministro religioso que foi reconhecido em um motel com uma senhora que n\u00e3o era propriamente sua esposa. Foi uma coisa terr\u00edvel, ele era admirado por muitas e muitas pessoas. A\u00ed ele foi para a TV e disse: &#8220;Viram? Eu sempre disse a voc\u00eas, o diabo \u00e9 um perigo verdadeiro!&#8221;<br \/>\nDa\u00ed os monges aparecem na TV revelando dimens\u00f5es de grande agress\u00e3o. Na verdade devemos entender que a roda \u00e9 um perigo\u2026 As coisas s\u00e3o assim, isto revela um lado humano. Os monges s\u00e3o seres humanos. A forma mon\u00e1stica \u00e9 uma forma de viver. Raspar a cabe\u00e7a n\u00e3o raspa as emo\u00e7\u00f5es perturbadores. O importante \u00e9 rir. Rir das nossas expectativas e idealiza\u00e7\u00f5es.<br \/>\nLembro do primeiro mestre tibetano que ouvi, Sua Emin\u00eancia Jangom Kongtrul Rinpoche III. Perguntaram a ele: &#8220;Os tibetanos est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da ilumina\u00e7\u00e3o que os ocidentais?&#8221; Quando Tenzin, o tradutor tibetano, traduziu, o mestre n\u00e3o parava de rir. &#8220;Ser\u00e1 que \u00e9 mesmo assim, Tenzin?&#8221;, Rinpoche perguntou, jocoso. E n\u00e3o parava de rir\u2026 Certamente ele sabia algumas boas hist\u00f3rias do Tenzin. Rir \u00e9 uma coisa bem boa. Rimos de n\u00f3s mesmos.<br \/>\nLevar as coisas muito a s\u00e9rio \u00e9 um grave problema. O Buda mesmo disse: &#8220;Se algu\u00e9m fizesse as prostra\u00e7\u00f5es para mim pelas minhas 32 marcas, este seria um herege.&#8221; Pois um ser liberto n\u00e3o \u00e9 identificado por caracter\u00edsticas particulares. Ent\u00e3o, quando criamos expectativas e depois nos frustramos, estamos apenas criando seres e colocando idealmente qualidades ilimitadas neles.<br \/>\nMas isto foi apenas um longo par\u00eantese sobre a quest\u00e3o da bondade. Essa bondade pode tamb\u00e9m ser descrita em dez n\u00edveis. Mas n\u00e3o h\u00e1 tempo para este estudo aprofundado agora.<\/p>\n<h3>Apresentando o budismo por meio da perfei\u00e7\u00e3o de todas as coisas<\/h3>\n<p>Outra forma aparentemente diferente de se aproximar do budismo \u00e9 olharmos para as deidades e suas qualidades e procurarmos copiar de imediato estas qualidades. Em vez de pensar na roda, na estabiliza\u00e7\u00e3o meditativa, ou na bondade, praticamos sadanas referentes a Yidams. \u00c9 um outro caminho, pode ser praticado sozinho, mas caracteriza uma abordagem em si mesma.<br \/>\nExiste ainda uma outra forma, na qual resumidamente se compreende o primeiro passo do Nobre Caminho \u00d3ctuplo e se utiliza a vontade de supera\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da exist\u00eancia c\u00edclica como combust\u00edvel poderoso para penetrar nas pr\u00e1ticas de medita\u00e7\u00e3o na perfei\u00e7\u00e3o de todas as coisas. N\u00e3o vamos usar conceitos de amor e compaix\u00e3o, n\u00e3o vamos praticar virtudes nem a supress\u00e3o das n\u00e3o-virtudes; focamos diretamente a natureza ilimitada. O reconhecimento da natureza ilimitada produz a supera\u00e7\u00e3o de todas as pris\u00f5es e carmas, nada mais \u00e9 necess\u00e1rio.<br \/>\nTodos esses m\u00e9todos t\u00eam superposi\u00e7\u00f5es uns com os outros, e cada um apresenta dificuldades espec\u00edficas. Neste \u00faltimo m\u00e9todo, por exemplo, o foco n\u00e3o est\u00e1 na pr\u00e1tica, no trabalho, na fam\u00edlia ou nos centros de atendimento. A \u00eanfase est\u00e1 especialmente nos retiros.<\/p>\n<h3>Para praticar o budismo\u2026<\/h3>\n<p>H\u00e1 uma grande diversidade de formas de pr\u00e1tica no que diz respeito aos ensinamentos. Este \u00e9 o corpo de ensinamentos do Buda, mas muitos ensinamentos podem vir a ser necess\u00e1rios antes mesmo de se poder entrar no Nobre Caminho \u00d3ctuplo. Podemos dizer que 90% ou 95% dos seres n\u00e3o podem praticar imediatamente as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho \u00d3ctuplo, pois estes ensinamentos pareceriam demasiado sofisticados ou fora de prop\u00f3sito. As pessoas est\u00e3o presas a ideologias, formas de compreens\u00e3o, h\u00e1bitos mentais, solu\u00e7\u00f5es aparentes, prioridades invasivas que as impedem. Ajudar estes seres \u00e9 o foco da maior parte dos ensinamentos dos mestres. Se eles compreenderem a bondade, o amor e a compaix\u00e3o, isto ser\u00e1 maravilhoso.<br \/>\n\u00c9 como o Buda disse: &#8220;Pratiquem a bondade, n\u00e3o criem sofrimento, dirijam a pr\u00f3pria mente. Esta \u00e9 a ess\u00eancia do Budismo.&#8221;<br \/>\n<em>* Este texto originou-se da transcri\u00e7\u00e3o de palestra proferida no Centro de Estudos Budistas Bodisatva, na estrada do Caminho do Meio, em Viam\u00e3o, em 19 de outubro de 1999. A presente vers\u00e3o do texto \u00e9 fruto da compila\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de Padma Dorje (dorje@tzal.org), da revis\u00e3o de Gustavo Guerra (gguerra@ced.ufsc.br), e da edi\u00e7\u00e3o final do texto por L\u00facia Brito em novembro de 2000, sob a orienta\u00e7\u00e3o do lama, para benef\u00edcio de todos os seres.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"caption\" src=\"http:\/\/www.cebb.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/lama-sorrindo.jpg\" border=\"0\" title=\"Lama Padma Samten\" align=\"left\" \/>Existem muitas formas de introduzir o pensamento budista. 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