{"id":42,"date":"2008-12-12T03:00:00","date_gmt":"2008-12-12T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/novo\/?p=42"},"modified":"2008-12-12T03:00:00","modified_gmt":"2008-12-12T03:00:00","slug":"conversando-com-chagdud-rinpoche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/fr\/conversando-com-chagdud-rinpoche\/","title":{"rendered":"Conversando com Chagdud Rinpoche"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Seria ing\u00eanuo supor que praticantes novos conseguir\u00e3o imediatamente eliminar todas as suas defici\u00eancias e desenvolver todas as qualidades positivas da pr\u00e1tica. Por\u00e9m, se ao entrar pela porta do Darma, seja em que est\u00e1gio for de suas vidas, eles continuarem a praticar, ent\u00e3o o amor, compaix\u00e3o e sabedoria crescer\u00e3o. Se as pessoas praticam, conseguem melhorar. Aqui n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a alguma entre orientais e ocidentais.&#8221;<br \/>\n<!--more--><br \/>\n<strong>O senhor sempre ensina que a diferen\u00e7a entre o praticante e o n\u00e3o-praticante est\u00e1 em que este \u00faltimo percebe o mundo dos fen\u00f4menos com se estivesse olhando por uma janela, ao passo que o praticante o faz como se estivesse olhando num espelho.<\/strong><br \/>\nSe queremos ajudar os outros a eliminar seus defeitos e desenvolver suas qualidades positivas, precisamos nos assegurar de que, primeiro, n\u00f3s mesmos estejamos livres de defeitos e dotados de qualidades positivas. Mesmo que n\u00e3o estejamos totalmente isentos de defeitos, mesmo que n\u00e3o tenhamos revelado por inteiro todas as nossas qualidades positivas, devemos, pelo menos, ter purificado a nossa mente o suficiente para ajudar os outros, em vez de simplesmente critic\u00e1-la.<br \/>\nPor isso \u00e9 t\u00e3o importante examinarmos a nossa pr\u00f3pria mente. Quando temos um pensamento negativo, ou mesmo um pensamento neutro, \u2014 um que n\u00e3o seja particularmente n\u00e3o-virtuoso \u2014, precisamos tentar transform\u00e1-lo em virtuoso. Quanto mais redirecionamos a mente, mais sua express\u00e3o externa em palavras e a\u00e7\u00f5es se torna virtuosa. A raiz de todos os fen\u00f4menos do samsara e nirvana est\u00e1 na mente. Os estados mentais virtuosos e n\u00e3o-virtuosos s\u00e3o respons\u00e1veis pelo carma que leva ao sofrimento ou \u00e0 felicidade.<br \/>\nSe repetidamente examinarmos nossos pensamentos, palavras e a\u00e7\u00f5es, e domesticamos a nossa mente, nossas defici\u00eancias come\u00e7ar\u00e3o a diminuir e nossas qualidades positivas a crescer. Quanto mais se reduzirem nossos defeitos, mais ir\u00e3o se beneficiar as pessoas a nossa volta. Quanto mais forem incrementadas as nossas qualidades positivas, maior ser\u00e1 nossa capacidade de ajudar os outros a cultivarem eles pr\u00f3prios essas qualidades.<br \/>\n<strong>Dentre as Tr\u00eas J\u00f3ias \u2014 O Buda, o Darma e a Sanga \u2014 as qualidades preciosas da Sanga s\u00e3o, as vezes, as mais dif\u00edceis de enxergarmos. Como \u00e9 que podemos fazer nascer a vis\u00e3o pura e apreciarmos as qualidades positivas dos membros da Sanga?<\/strong><br \/>\nSe considerarmos o n\u00famero infinito de seres nos seis reinos do samsara, em termos proporcionais, poder\u00edamos dizer que o n\u00famero de seres nos reinos dos infernos \u00e9 como o n\u00famero de part\u00edculas de p\u00f3 de um pa\u00eds imenso. O n\u00famero de pretas, ou fantasmas famintos, \u00e9 equivalente aos gr\u00e3os de areia do rio Ganges, e o n\u00famero de animais, ao n\u00famero de gr\u00e3os em uma grande tina de malte, usada para fermentar cerveja. Os semi-deuses s\u00e3o iguais ao n\u00famero de flocos de neve em uma nevasca ou os pingos d\u2019\u00e1gua numa tempestade. O n\u00famero de deuses e humanos \u00e9 como o n\u00famero de gr\u00e3os de areia que cabem sobre uma unha de um dedo.<br \/>\nPortanto, antes de mais nada, a exist\u00eancia humana \u00e9 muito rara, pois os seres humanos s\u00e3o, de longe, menos numerosos do que os outros seres. Al\u00e9m disso, embora muitos pa\u00edses sejam povoados por centenas de milh\u00f5es de seres humanos, quantos destes est\u00e3o ativamente buscando um caminho de virtudes e benef\u00edcio ao pr\u00f3ximo, por meio de seus pensamentos, palavras e a\u00e7\u00f5es? Quantos est\u00e3o tentando evitar ferir os outros, evitar agir por formas n\u00e3o-virtuosas? O n\u00famero de tais pessoas pode ser comparado ao n\u00famero de estrelas que podemos ver durante o dia \u2014 de fato, muito poucas.<br \/>\nA palavra em tibetano que corresponde ao termo sanga \u00e9 &#8220;gedun&#8221; , que quer dizer &#8220;aquele que anseia pela virtude&#8221; , ou que \u00e9 motivado por ela. Se uma pessoa possui essa qualidade de procurar a virtude, muito embora n\u00e3o esteja isenta de defeitos, sua motiva\u00e7\u00e3o e compromisso pessoal a tornam muito especial.<br \/>\nOs membros da Sanga mahaiana tomam votos n\u00e3o s\u00f3 de liberar a si mesmos da exist\u00eancia c\u00edclica, como de liberar tamb\u00e9m os outros. Como podemos deixar de ver nesse compromisso a melhor de todas as qualidades? N\u00e3o dever\u00edamos ignorar isso e nos voltarmos para defici\u00eancias pessoais que s\u00e3o mais tempor\u00e1rias. Aqueles com quem nos associamos na Sanga, s\u00e3o nossos companheiros at\u00e9 que alcancemos a ilumina\u00e7\u00e3o. Quando os enxergamos com respeito e aprecia\u00e7\u00e3o, estamos beneficiando a n\u00f3s mesmos porque isso faz crescer o nosso m\u00e9rito; purifica nossos h\u00e1bitos negativos e os efeitos do carma negativo. Existe, ent\u00e3o, uma rela\u00e7\u00e3o direta entre nossa atitude de respeito pela Sanga e o benef\u00edcio que auferimos como praticantes individuais.<br \/>\n<strong>Como o praticante que inicia pode desenvolver entusiasmo e const\u00e2ncia?<\/strong><br \/>\nPara desenvolvermos dilig\u00eancia, precisamos pensar, vez ap\u00f3s vez, sobre a oportunidade preciosa que a vida humana oferece \u2014 recordarmo-nos da liberdade e oportunidade que temos de buscar o desenvolvimento espiritual, e lembrarmos que a pr\u00e1tica espiritual \u00e9 o \u00fanico meio de descobrirmos a ess\u00eancia da nossa exist\u00eancia humana.<br \/>\nAl\u00e9m disso, dever\u00edamos compreender que precisamos fazer bom uso dessa oportunidade preciosa, pois n\u00e3o temos no\u00e7\u00e3o de quando iremos morrer. Depois que estivermos mortos, a \u00fanica coisa que contar\u00e1 ser\u00e1 o nosso carma positivo ou negativo. O carma positivo vai nos levar \u00e0 felicidade tempor\u00e1ria e \u00faltima, e o carma negativo a mais sofrimento. Esta compreens\u00e3o deve estar assentada sobre uma s\u00f3lida cren\u00e7a na infabilidade do carma, e n\u00e3o apenas em uma no\u00e7\u00e3o abstrata.<br \/>\nSe nossa mente seguir padr\u00f5es c\u00e1rmicos negativos, seremos impelidos em dire\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es de renascimento onde haver\u00e1 apenas sofrimento \u2014 contempl\u00e1-los, traz\u00ea-los \u00e0 mente, vez ap\u00f3s vez, e por fim, meditar sobre eles, constitui a melhor forma de cultivarmos dilig\u00eancia inabal\u00e1vel.<br \/>\n<strong>Por vezes, emo\u00e7\u00f5es como raiva, desejo ou paix\u00e3o aparecem em nossa mente com tanta for\u00e7a que parecem ter vida pr\u00f3pria, podendo nos obcecar. Que fazer?<\/strong><br \/>\nQuer experimentemos apego ou avers\u00e3o, o objeto da nossa emo\u00e7\u00e3o \u2014 a pessoa ou coisa pela qual sentimos raiva ou desejo \u2014 n\u00e3o \u00e9 permanente, individualizado ou aut\u00f4nomo. Todos os objetos das nossas emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o impermanentes, compostos de muitas partes diferentes, sujeitos a influ\u00eancias externas, desprovidos de autonomia ou poder pr\u00f3prio. Uma vez que tenhamos entendido isso, precisamos contemplar esse fato vez ap\u00f3s vez. N\u00e3o basta reconhecer que isso seja verdade, e ent\u00e3o deixar de lado esse dado. Precisamos pensar sobre ele repetidas vezes, para que, gradualmente, cheguemos \u00e0 compreens\u00e3o de que os objetos do nosso apego ou avers\u00e3o, na realidade, n\u00e3o existem, mas s\u00e3o como imagens em um sonho. Este \u00e9 o principal ant\u00eddoto para as emo\u00e7\u00f5es fortes.<br \/>\nUma outra abordagem implica em usarmos uma emo\u00e7\u00e3o, como a raiva, como ant\u00eddoto de si mesma: a forma da raiva \u00e9 empregada com habilidade, para domar o aspecto ordin\u00e1rio e confuso da raiva. Por exemplo, em certas pr\u00e1ticas vajrayana iradas, podemos utilizar imagens em que os inimigos s\u00e3o mortos. No entanto, isso n\u00e3o implica em uma agress\u00e3o externa, pois reconhecemos que o inimigo, que sentimos existir fora de n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 impedindo de alcan\u00e7ar a libera\u00e7\u00e3o: o obst\u00e1culo real \u00e9 a nossa raiva em rela\u00e7\u00e3o ao inimigo. Ent\u00e3o, n\u00f3s focamos nossa mente n\u00e3o em derrotar o inimigo externo, mas em liberar o inimigo interno, o verdadeiro inimigo: nosso pr\u00f3prio \u00f3dio e raiva, que, quando nos levam a agir, acabam por criar carma negativo. Nessas pr\u00e1ticas, liberamos esse inimigo interno no contexto das quatro qualidades incomensur\u00e1veis do amor, compaix\u00e3o, alegria e equanimidade, e, da perspectiva da sabedoria, atrav\u00e9s da compreen\u00e7\u00e3o de que nem o &#8220;eu&#8221; nem os fen\u00f4menos possuem uma natureza intr\u00ednseca real.<br \/>\nPodemos usar uma abordagem semelhante com o desejo. Por exemplo, a atra\u00e7\u00e3o sexual abranje o objeto do desejo de uma pessoa, ela pr\u00f3pria que deseja, e a atividade sexual ou as intera\u00e7\u00f5es entre a pessoa e o objeto de sua atra\u00e7\u00e3o. Dentro do vajrayana estas s\u00e3o as chamadas &#8220;tr\u00eas esferas&#8221; do sujeito, objeto e atividade entre eles. Do ponto de vista de sua natureza essencial, nunca ser\u00e1 poss\u00edvel estabelecer que o objeto do desejo, ou a pessoa que \u00e9 o sujeito que deseja, ou qualquer atividade baseada naquele desejo, possuem exist\u00eancia pr\u00f3pria e verdadeira. N\u00e3o obstante, a energia din\u00e2mica que \u00e9 inerente \u00e0 vacuidade manifesta-se de forma incessante. Temos aqui a consci\u00eancia primordial exibindo-se atrav\u00e9s dos fen\u00f4menos que se manifestam.<br \/>\nDessa forma, podemos praticar uma atividade baseada no desejo de uma perspectiva mais elevada. Se n\u00f3s o compreendermos do ponto de vista de sua natureza essencial, e n\u00e3o em termos daquilo que acontece quando sentimos e agimos impulsionados por ele, podemos experimentar o prazer ordin\u00e1rio da atividade sexual de forma n\u00e3o-dualista, como sendo a uni\u00e3o da felicidade extasiante e da vacuidade. Assim, usamos a forma do desejo como habilidade para domar o desejo comum e confuso. Entretanto, sem essa vis\u00e3o de sua natureza essencial, nossa atividade vai estar baseada no desejo comum e iremos acumular carma.<br \/>\nMesmo que tenhamos optado por seguir por esse caminho, e fa\u00e7amos uso de tal medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o iremos imediatamente transformar nossas percep\u00e7\u00f5es, pois estamos lidando com padr\u00f5es habituais muito potentes. Entretanto, atrav\u00e9s de uma pr\u00e1tica consistente e est\u00e1vel, nossas negatividades gradativamente diminuir\u00e3o, e tudo aquilo que \u00e9 positivo e contribui para a ilumina\u00e7\u00e3o crescer\u00e1. Independentemente de quais meios espec\u00edficos estejamos empregando, o importante \u00e9 aplic\u00e1-los vez ap\u00f3s vez, sem desanimarmos, recordando que o processo leva tempo.<br \/>\n<strong>H\u00e1 uma menina na nossa Sanga cujo gatinho quebrou a perna. Ela fez ora\u00e7\u00f5es a Tara, pedindo ajuda, mas o animal terminou morrendo. Em outro caso, uma jovem saud\u00e1vel fez pr\u00e1ticas meditativas com Vajrasattva por um ano, e sentia-se protegida pela divindade, mas um c\u00e2ncer declarou-se e ela passou a ter uma vis\u00e3o negativa do Darma.<\/strong><br \/>\nPara dar uma explica\u00e7\u00e3o que a menina entenda, podemos usar o exemplo de um excelente mec\u00e2nico. Se voc\u00ea tem um carro que n\u00e3o est\u00e1 funcionando bem, qu\u00e3o realista \u00e9 esperar que um mec\u00e2nico muito habilidoso possa consert\u00e1-lo? Na maioria dos casos, podemos esperar que o mec\u00e2nico consiga isso. Por\u00e9m, por mais habilidoso que ele seja, se o carro estiver muito desgastado, n\u00e3o haver\u00e1 conserto poss\u00edvel.<br \/>\nO que acontece com um ser vivo, quer seja uma pessoa ou um gato, depende do carma, bem como das circunst\u00e2ncias incidentais e imediatas da sua vida. Se tivermos o carma para sustentar este nosso corpo, vamos viver. Mas quando a for\u00e7a que sustenta a nossa exist\u00eancia se dissipa, n\u00e3o h\u00e1 quem consiga traz\u00ea-la de volta. Embora as ora\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a terem dado a impress\u00e3o de n\u00e3o produzir resultado imediato, isso n\u00e3o significa que a pr\u00e1tica feita em proveito do gatinho foi equivocada ou in\u00fatil; ela ir\u00e1 beneficiar aquele ser em uma vida futura.<br \/>\nUma pessoa pode, \u00e0s vezes, mesmo nesta vida, superar obst\u00e1culos enormes atrav\u00e9s de sua pr\u00e1tica, quando tr\u00eas fatores se juntam: f\u00e9, carma que permita que os obst\u00e1culos sejam superados, e as b\u00ean\u00e7\u00e3os e compaix\u00e3o do objeto a que a pessoa dirige suas preces.<br \/>\n<strong><br \/>\nQual \u00e9 a origem dos mantras? Qual \u00e9 a sua fun\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA for\u00e7a e a efic\u00e1cia dos mantras adv\u00e9m, em primeiro lugar, do fato de que os sons e formas das s\u00edlabas m\u00e2ntricas, em ess\u00eancia, n\u00e3o est\u00e3o al\u00e9m da vacuidade ou do Darmakaia e, portanto, s\u00e3o estabelecidos pela verdadeira natureza da pr\u00f3pria realidade. Em segundo lugar, a forma particular que os mantras assumem \u2014 a combina\u00e7\u00e3o de certas s\u00edlabas e seu som \u2014 surge por si s\u00f3 da compaix\u00e3o inata dos Budas e Bodisatvas. Assim se estabelece sua for\u00e7a intr\u00ednseca dos fen\u00f4menos. Em terceiro lugar, os mantras foram usados por grandes praticantes que provaram seu valor, consagraram-nos e imbu\u00edram-nos com suas pr\u00f3prias preces e aspira\u00e7\u00f5es. A isso chamamos o estabelecimento por meio das b\u00ean\u00e7\u00e3os. Por fim, se uma pessoa recita mantras repetidamente, com f\u00e9 em sua efic\u00e1cia, ela purificar\u00e1 seus obscurecimentos e carma, e adquirir\u00e1 os siddhis tanto ordin\u00e1rios quanto sublimes, ou seja, as realiza\u00e7\u00f5es espirituais. A isso chamamos o estabelecimento atrav\u00e9s da for\u00e7a e energia do mantra. Em nossa pr\u00e1tica, tanto os mantras que usamos quanto as deidades associadas a eles, s\u00e3o dotados desses quatro tipos de estabelecimento.<br \/>\n<strong><br \/>\nEm \u00faltima an\u00e1lise, qual \u00e9 de fato, a natureza daquilo que chamamos &#8220;deidade&#8221;?<\/strong><br \/>\nO termo deidade refere-se tanto a Darmakaia quanto a Rupakaias, ou seja, manifesta\u00e7\u00f5es com forma. Quando dizemos &#8220;o Darmakaia do Buda&#8221;, estamos nos referindo a um estado sem imperfei\u00e7\u00f5es, dotado de todas as qualidades positivas, no qual a natureza fundamental de todos os fen\u00f4menos encontra-se inteiramente evidente, livre de elabora\u00e7\u00f5es conceituais. A radi\u00e2ncia do Darmakaia manifesta-se incessantemente como Rupakaias: como Sambogakaia, na percep\u00e7\u00e3o daqueles com carma purificado, e como Nirmanakaia para aqueles com carma comum, n\u00e3o-purificado.<br \/>\nAtualmente, por estarmos temporariamente, superficialmente, sujeitos \u00e0 confus\u00e3o, vivenciamos a realidade de modo dualista, como esperan\u00e7a e medo, como &#8220;eu&#8221; e &#8220;outro&#8221;, alto e baixo. Embora as m\u00e1culas superficiais e distor\u00e7\u00f5es de nossa corrente mental n\u00e3o tenham sido purificadas, nossa natureza essencial \u00e9 pura. A diferen\u00e7a entre a deidade e n\u00f3s mesmos est\u00e1 em que ela corporifica uma pureza dupla \u2014 a da natureza essencial da mente e a devida \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o dos obscurecimentos \u2014, ao passo que n\u00f3s somos, em ess\u00eancia, puros, mas ainda n\u00e3o puros no n\u00edvel tempor\u00e1rio, superficial. Por causa disso, vivenciamos a deidade como separada de n\u00f3s. Uma vez que o h\u00e1bito de perceber as coisas como distintas de n\u00f3s tenha sido purificado e nossos obscurecimentos tenham assim sido removidos, iremos reconhecer que n\u00e3o h\u00e1 deidade alguma al\u00e9m das apar\u00eancias auto-manifestadas da deidade e da terra pura, as quais est\u00e3o adiante dos conceitos de separado ou id\u00eantico.<br \/>\n<strong>Como s\u00e3o os praticantes ocidentais e como se d\u00e1 sua rela\u00e7\u00e3o com o Darma?<\/strong><br \/>\nMuitos s\u00e3o inteligentes, capazes de avaliar aquilo que as diferentes tradi\u00e7\u00f5es t\u00eam a oferecer e tomar boas decis\u00f5es sobre o que \u00e9 importante, com base nesse exame inteligente. Mas os estudantes ocidentais do Darma padecem de falta de informa\u00e7\u00e3o, simplesmente porque os ensinamentos budistas n\u00e3o t\u00eam estado dispon\u00edveis no Ocidente por muito tempo. Al\u00e9m disso, quando novatos, os ocidentais \u00e0s v\u00eazes n\u00e3o s\u00e3o capazes de discernir se os ensinamentos de Darma est\u00e3o sendo apresentados de uma maneira tendenciosa ou preconceituosa. Isto n\u00e3o acontece com frequ\u00eancia \u2014 a maioria dos lamas ensina de uma forma n\u00e3o-sect\u00e1ria e com bom cora\u00e7\u00e3o \u2014 mas quando isso acontece e os alunos s\u00e3o inexperientes para reconhecer a distor\u00e7\u00e3o do Darma genu\u00edno, isso pode representar um obst\u00e1culo s\u00e9rio. Fora isso, n\u00e3o vejo nenhum problema especial que seja caracter\u00edstico deles. Os praticantes ocidentais t\u00eam facilidade para alterar comportamentos e h\u00e1bitos externos, etc., mas tamb\u00e9m se d\u00e3o conta de que uma transforma\u00e7\u00e3o interna, atrav\u00e9s da pr\u00e1tica, \u00e9 mais importante.<br \/>\nNum sentido mais amplo, estamos todos lidando com padr\u00f5es habituais e carma negativo, que v\u00eam sendo refor\u00e7ado ao longo do tempo sem princ\u00edpio. A maioria dos ocidentais tem ainda que lidar com o fato de que, durante a primeira parte de sua vida, n\u00e3o teve contato algum com os ensinamentos do Darma, e portanto, n\u00e3o teve oportunidade de se famializar com sua pr\u00e1tica, muito menos de dedicar a ela o tempo necess\u00e1rio \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o interior. Est\u00e3o come\u00e7ando do zero.<br \/>\nSeria ing\u00eanuo supor que praticantes novos conseguir\u00e3o eliminar todas as suas defici\u00eancias e desenvolver todas as qualidades positivas da pr\u00e1tica. Por\u00e9m, se ao entrar pela porta do Darma, seja em que est\u00e1gio for de suas vidas, eles continuarem a praticar, ent\u00e3o o amor, compaix\u00e3o e sabedoria crescer\u00e3o. Se as pessoas praticam, elas conseguem melhorar. Aqui n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre ocidentais e orientais. Se, ao tomarmos nosso primeiro contato com o Darma, pensarmos que vamos ser perfeitos desde o in\u00edcio, e que se isso n\u00e3o acontecer n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para praticarmos, estaremos nos afastando do \u00fanico meio que temos de nos tornarmos perfeitos, de nos tornarmos verdadeiros praticantes. Primeiro precisamos ser expostos aos ensinamentos para que, ent\u00e3o, passo a passo, possamos nos tornar verdadeiras corporifica\u00e7\u00f5es do Darma.<br \/>\nPossam todos os seres ser beneficiados!<\/p>\n<h3><a href=\"http:\/\/senhordadanca.chagdud.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #800000;\">Leia passagens sobre a vida do Rinpoche!<\/span><\/a><\/h3>\n<p><em>* Chagdud Tulku Rinpoche, um mestre de medita\u00e7\u00e3o altamente realizado, artista e m\u00e9dico tibetano, nasceu no Tibete Oriental em 1930. Reconhecido na primeira inf\u00e2ncia como a reencarna\u00e7\u00e3o do abade do monast\u00e9rio de Chagdud Gompa, recebeu treinamento completo, junto com muitos dos melhores lamas do Tibete, na filosofia e pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o do budismo vajrayana. Deixou seu pa\u00eds por ocasi\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o chinesa, em 1959, e por solicita\u00e7\u00e3o de S.S. Dudjom Rinpoche, auxiliou na administra\u00e7\u00e3o do estabelecimento de v\u00e1rios campos de refugiados na \u00cdndia e no Nepal. Atendendo a pedidos de v\u00e1rios alunos americanos, Rinpoche transferiu-se para os Estados Unidos em 1979. Desde ent\u00e3o, por interm\u00e9dio da Funda\u00e7\u00e3o Chagdud Gompa, criou centros para a pr\u00e1tica e estudo do budismo vajrayana por todos os Estados Unidos, Canad\u00e1, Europa e Brasil.<\/em><br \/>\nAs perguntas dirigidas a Chagdud Tulku Rinpoche no presente texto foram feitas por estudantes brasileiros, tendo o texto completo sido organizado pelo Dr. Manoel Vidal, do Centro Nyingma Odsal Ling, de S\u00e3o Paulo, fundado sob a responsabilidade do Rinpoche.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"caption\" src=\"http:\/\/www.cebb.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/chagdud_tulku_rinpoche.jpg\" border=\"0\" title=\"Chagdud Tulku Rinpoche\" align=\"left\" \/><em>&#8220;Seria ing\u00eanuo supor que praticantes novos conseguir\u00e3o imediatamente eliminar todas as suas defici\u00eancias e desenvolver todas as qualidades positivas da pr\u00e1tica. Por\u00e9m, se ao entrar pela porta do Darma, seja em que est\u00e1gio for de suas vidas, eles continuarem a praticar, ent\u00e3o o amor, compaix\u00e3o e sabedoria crescer\u00e3o. Se as pessoas praticam, conseguem melhorar. 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