{"id":56129,"date":"2018-05-10T17:35:28","date_gmt":"2018-05-10T20:35:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/?p=56129"},"modified":"2018-05-10T17:35:28","modified_gmt":"2018-05-10T20:35:28","slug":"como-acompanhar-alguem-que-esta-morrendo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/fr\/como-acompanhar-alguem-que-esta-morrendo\/","title":{"rendered":"Como acompanhar algu\u00e9m que est\u00e1 morrendo?"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><br \/>\n<em>Algu\u00e9m tem uma m\u00e3e na UTI, super mal, para morrer e os m\u00e9dicos dizem: olha talvez esteja na hora de desligar os aparelhos. A\u00ed vem a pergunta: desliga ou n\u00e3o desliga? O que significa desligar o aparelho? Que conex\u00e3o c\u00e1rmica levou essa m\u00e3e a estar nessa situa\u00e7\u00e3o?<\/em><br \/>\nEsse ponto \u00e9 crucial. De um modo geral, quando as pessoas est\u00e3o na UTI elas est\u00e3o cumprindo a \u00faltima etapa dos doze elos da origina\u00e7\u00e3o dependente. \u00c9 assim, todos os seres surgem e todos os seres cessam. Mesmo as coisas inanimadas surgem e cessam. A imperman\u00eancia est\u00e1 a\u00ed. Ent\u00e3o, durante a vida, n\u00f3s temos essa oportunidade de ouvir os ensinamentos. Quando a gente ouve os ensinamentos \u00e9 muito precioso. Se a gente tem a oportunidade de ouvir os ensinamentos do Buda, os ensinamentos verdadeiros, originais, que podem transformar nossa vida, isso \u00e9 o grande m\u00e9rito de ter nascido com um corpo humano perfeito.<br \/>\nIsso \u00e9 super raro! Ainda que os seres todos manifestem origina\u00e7\u00e3o dependente \u2013 e origina\u00e7\u00e3o dependente \u00e9 a mente do buda, ent\u00e3o todos os seres tem a mente de buda, n\u00e3o h\u00e1 essa capacidade, nos v\u00e1rios ambientes, de apontar o fato de que os seres t\u00eam a natureza de buda, os ensinamentos n\u00e3o est\u00e3o presentes em v\u00e1rios locais. Acho comovente isso.<br \/>\nEnt\u00e3o, ao longo de uma vida a gente tem essa oportunidade de tomar esses ensinamentos na nossa l\u00edngua, dentro dos significados ilus\u00f3rios, dentro dos meios h\u00e1beis, das apar\u00eancias ilus\u00f3rias, tomar isso e poder nos transformar verdadeiramente. Olhar e reconhecer aquilo que n\u00f3s temos. Os outros seres tamb\u00e9m t\u00eam, todos os seres t\u00eam. N\u00f3s temos manifesta\u00e7\u00f5es de Buda em todas as dire\u00e7\u00f5es, mas os seres n\u00e3o t\u00eam propriamente essa capacidade de manifestar o ensinamento, o ensinamento n\u00e3o est\u00e1 presente, esse que \u00e9 o ponto.<br \/>\nEnt\u00e3o, quando uma pessoa chega ao final da sua vida e ela n\u00e3o teve a oportunidade de ouvir e praticar os ensinamentos, ent\u00e3o, isso \u00e9 doloroso. Nesse sentido, \u00e9 carma. \u00c9 carma apenas no sentido de que a pessoa n\u00e3o teve o meio h\u00e1bil, n\u00e3o conseguiu ouvir e praticar o ensinamento. Ela estava num ambiente super favor\u00e1vel, mas ela n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n<h3>Ref\u00fagio e sensa\u00e7\u00e3o de morte<\/h3>\n<p>Uma vez que ela n\u00e3o conseguiu ouvir e praticar os ensinamentos, o ref\u00fagio que ela tem n\u00e3o \u00e9 um ref\u00fagio. A no\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio no budismo s\u00f3 faz sentido como ref\u00fagio no Buda. Quando n\u00f3s olhamos os aspectos comuns das nossas conex\u00f5es, aquilo n\u00e3o \u00e9 propriamente ref\u00fagio, \u00e9 o que n\u00f3s tomamos por recurso para mover as nossas a\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 um ref\u00fagio. Dependendo de como n\u00f3s nos vemos e de como descrevemos os ambientes, os nossos recursos s\u00e3o super limitados. De modo geral, quando a pessoa tem a sensa\u00e7\u00e3o de morte, \u00e9 porque ela est\u00e1 num ambiente onde os recursos que ela tem se esgotam. Ela n\u00e3o tem mais controle de coisa nenhuma, ela vai perder totalmente aquilo. Por outro lado, <strong>se a pessoa tem a clareza sobre a natureza primordial ela pode, simplesmente, relaxar. Relaxar no espa\u00e7o amplo porque esse espa\u00e7o \u00e9 vivo e a vida dela \u00e9 insepar\u00e1vel daquilo<\/strong>.<br \/>\nTudo que aconteceu ao longo da vida inteira, as m\u00faltiplas apar\u00eancias foram sempre apar\u00eancias surgidas por origina\u00e7\u00e3o dependente como express\u00f5es dessa natural liberdade e luminosidade que produz as experi\u00eancias. Ent\u00e3o, n\u00f3s vivemos isso constantemente. <strong>Isso significa n\u00f3s reconhecermos as apar\u00eancias como express\u00f5es insepar\u00e1veis de Darmata. Essa \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o que a gente precisaria desenvolver durante a vida.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, na medida em que n\u00f3s observamos isso, n\u00f3s podemos relaxar, n\u00e3o importa as apar\u00eancias que surjam, n\u00f3s relaxamos porque as apar\u00eancias s\u00e3o uma configura\u00e7\u00e3o de Darmata e quando a gente simplesmente relaxa, n\u00f3s estamos nesse espa\u00e7o aberto, que n\u00e3o \u00e9 atingido pelas configura\u00e7\u00f5es e nem por altera\u00e7\u00f5es de configura\u00e7\u00f5es. Daquele lugar aberto n\u00f3s podemos ressurgir. Os seres todos ressurgem do espa\u00e7o aberto. Ent\u00e3o, h\u00e1 essa possibilidade, essa mente comum se funde com a mente de Darmata. Isso \u00e9 o objetivo do nosso treinamento, objetivo do nosso caminho. \u00c9 o que n\u00f3s vamos fazer. E assim n\u00f3s somos iogues do cotidiano, porque n\u00f3s vamos aproveitando as m\u00faltiplas experi\u00eancias aparentemente comuns, mas as experi\u00eancias comuns s\u00e3o experi\u00eancias de configura\u00e7\u00f5es de Darmata.<br \/>\nNos mover no meio dessas configura\u00e7\u00f5es tomando por ref\u00fagio a natureza primordial \u00e9 a nossa pr\u00e1tica mais profunda. Mas, vamos supor, essa m\u00e3e da pergunta n\u00e3o fez isso, ela n\u00e3o tinha essa chance, ent\u00e3o, ela vai ter a experi\u00eancia de morte.<br \/>\nO Buda diz: envelhecimento, decrepitude, doen\u00e7a e morte. A gente poderia tamb\u00e9m colocar \u201cimpot\u00eancia\u201d dentro da decrepitude. Uma das caracter\u00edsticas da decrepitude \u00e9 a impot\u00eancia. Ou seja, os referencias que n\u00f3s temos come\u00e7am a enfraquecer, n\u00f3s n\u00e3o temos mais for\u00e7a para mover o que a gente precisa. Aquilo que a gente confiava que era seguro, forte e est\u00e1vel, que n\u00f3s usamos muitas vezes durante a vida, perde a efetividade. N\u00e3o funciona mais. N\u00f3s perdemos aquilo, nossa identidade vai se dissolvendo junto com essa impot\u00eancia, essa incapacidade de colocar as coisas em marcha, porque aquilo que n\u00f3s t\u00ednhamos vai desaparecendo, vai se esvaindo.<br \/>\nEu lembro de conversar com o professor Mario Schenberg que era um grande ser, em muitas dimens\u00f5es. Ele era um praticante budista tamb\u00e9m, pernambucano, foi exilado, foi uma figura, talvez o f\u00edsico mais importante do Brasil por um tempo. O M\u00e1rio Schenberg, no final da vida, tinha doen\u00e7as degenerativas que foram progredindo. Ent\u00e3o, num certo momento ele me disse assim, um pouco emocionado: \u201cesqueci tudo!\u201d Toda a f\u00edsica que ele tinha na mente dele, ele esqueceu tudo!<br \/>\nEu disse: \u201cBah, isso \u00e9 um grande m\u00e9rito, n\u00e9! Que vantagem, enfim, agora sua mente est\u00e1 clara, est\u00e1 aberta!\u201d Ele era budista, ele entendia essas coisas. Ou seja, tudo que ele tinha aprendido era in\u00fatil mesmo. Mas aquilo foi um pouco de consolo pra ele, porque ele n\u00e3o estava muito convencido do que eu estava falando. Ele, na verdade, estava sentindo a perda. Ent\u00e3o, ele era o qu\u00ea? Ele era aquele conjunto de conhecimentos, mas aquilo foi desaparecendo. Quando ele vinha a Porto Alegre, de vez em quando, ele, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m ficava ausente no meio de uma palestra. Ele estava dando uma palestra e daqui a pouco ele parava. Nenhuma vez ele roncou. Por um tempo indeterminado aquela pausa produzia uma eletricidade na plateia, que estava sempre cheia, pois ele era uma pessoa superimportante, as autoridades sentadas do lado dele. Ningu\u00e9m se animava a dar uma batidinha nele, todo mundo esperava. Daqui a pouco ele continuava na frase anterior. Era especial! Ele era artista e cr\u00edtico de arte tamb\u00e9m.<br \/>\nEnt\u00e3o, tem esse ponto. Quando a pessoa vai perdendo essa capacidade, como a pessoa n\u00e3o tem outra base de seguran\u00e7a, a pessoa vai se sentindo totalmente impotente. Mas a base de seguran\u00e7a do praticante \u00e9 o espa\u00e7o. Essa \u00e9 nossa conex\u00e3o com a mente livre. <strong>A mente livre seria justamente a condi\u00e7\u00e3o onde n\u00f3s podemos, a partir dela, exercer de forma mais direta a origina\u00e7\u00e3o dependente. N\u00f3s podemos construir.<\/strong> Ent\u00e3o, nesse sentido, o artista est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo desse ponto do que o cientista. Porque o artista essencialmente vai usar a origina\u00e7\u00e3o dependende de uma forma livre e o cientista fica tentando compor as coisas, pegar muitos elementos, juntar tudo aquilo e fazer uma outra coisa que parece que n\u00e3o \u00e9 totalmente presa. Ele tenta escapar da constru\u00e7\u00e3o, mas ele constr\u00f3i os mundos. \u00c9 muito comovente, muito interessante.<br \/>\nWittgenstein, por exemplo, vai estudar isso dentro de uma perspectiva filos\u00f3fica. O fil\u00f3sofo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um artista, mesmo que ele esteja olhando com cuidado a mente que produz as coisas, ele n\u00e3o tem a mente que produz as coisas. Ele n\u00e3o tem o dom de simplesmente fazer as coisas acontecerem. Ele est\u00e1 olhando, ele est\u00e1 analisando aquilo.<br \/>\nEnt\u00e3o, a pessoa tem a m\u00e3e que est\u00e1 se aproximando desse final, eu acho isso super comovente. A m\u00e3e est\u00e1 na UTI, est\u00e1 consciente. Eu acredito que o maior benef\u00edcio desse tempo, eu sempre sugiro isso: se a outra pessoa est\u00e1 consciente, a gente ajuda a outra pessoa a perdoar todos aos quais ela causou problema. Perdoar reconhecendo que, nesse momento que a vida est\u00e1 se esvaindo, os referenciais r\u00edgidos que a pessoa tinha para brigar com os outros e se manter fixada em algumas coisas e causar estresse nas rela\u00e7\u00f5es, aquilo tudo desaparece, ent\u00e3o, mais facilmente, n\u00f3s podemos olhar as situa\u00e7\u00f5es passadas e pensar: isso n\u00e3o teve import\u00e2ncia nenhuma. Aquilo n\u00e3o foi nada! A\u00ed a gente libera aquilo, a gente come\u00e7a a sorrir.<\/p>\n<h3>Purifica\u00e7\u00e3o dos carmas<\/h3>\n<p>Mas a gente precisaria olhar isso. Eu vou explicar como isso acontece. Na medida em que n\u00f3s guardamos esses aspectos como fixa\u00e7\u00f5es, que podem estar ocultos, n\u00e3o est\u00e3o expl\u00edcitos na nossa mente, essa mente segue operando e mais adiante ela pode produzir sonhos espec\u00edficos. \u00c9 como se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos ainda alguns n\u00edveis de trauma. Quando acontecem situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, aquilo surge como um carma que impulsiona nossa a\u00e7\u00e3o em uma certa dire\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a gente precisaria liberar aquilo para n\u00e3o ter a continuidade disso em outras vidas. Isso vale para quando a pessoa morre, mas vale em qualquer momento da vida. A pessoa deveria fazer essa purifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe a pessoa n\u00e3o consegue fazer durante a vida, est\u00e1 bem. Durante o per\u00edodo da aproxima\u00e7\u00e3o da morte, eu acredito que a pessoa est\u00e1 com a mente mais flu\u00edda. Ela seria mais capaz de fazer isso. Quando a press\u00e3o baixa, a pessoa est\u00e1 com menos energia, a mente est\u00e1 mais livre. Ent\u00e3o ela, mais facilmente, pode se libertar daquele tipo de estresse. Ela pode perdoar os outros e pode perdoar a si mesma. Isso \u00e9 crucial. Isso vale para a aproxima\u00e7\u00e3o da morte e naturalmente vale em qualquer momento.<\/p>\n<h3>O que fazer na proximidade da morte<\/h3>\n<p>Se a pessoa est\u00e1 numa crise, \u00e9 bom que a pessoa perdoe todo mundo em volta, \u00a0todo mundo do passado, perdoe a si mesma tamb\u00e9m das coisas que a pessoa fez. Isso realmente ajuda. Se a pessoa tem esse comportamento, ent\u00e3o a morte come\u00e7a a ser encaminhada, tem um al\u00edvio.<br \/>\nNa sequ\u00eancia, seria crucial que a pessoa tivesse a oportunidade de localizar na sua m\u00e3e que est\u00e1 morrendo ou em quem ela quiser ajudar, localizar um ponto de confian\u00e7a que a pessoa tenha. Jesus Cristo vale com certeza, mesmo para budistas. Ent\u00e3o, a gente pensa sobre isso ou ajuda a outra pessoa a pensar se ela acredita que nesse momento em que ela se aproxima da morte, ela vai ficar sozinha, porque Jesus Cristo est\u00e1 ocupado do outro lado, ou porque o Buda n\u00e3o olha para ela, ou porque Amitaba, Cherezing, \u00a0Guru Riponche, a energia primordial, a natureza \u00faltima, buda primordial, n\u00e3o v\u00e3o estar presentes. Isso n\u00e3o, com certeza, o tempo todo houve essa inseparatividade e, agora, com certeza isso segue. Ent\u00e3o, <strong>n\u00f3s colocamos o olhar nesse aspecto profundo e esquecemos o resto.<\/strong> A pessoa j\u00e1 perdoou todo mundo, j\u00e1 se perdoou, agora mergulha no aspecto profundo. Quando a gente vai mergulhar, a gente diz: \u201cbom, t\u00f4 indo\u201d. \u00c9 mais ou menos isso, quando mergulhou no aspecto profundo, vai. E a\u00ed a pessoa morre.<br \/>\nSe a pessoa estiver muito mal e voc\u00eas descreverem esse aspecto, voc\u00eas encaminham o processo: \u201cagora voc\u00ea relaxa, olha o espa\u00e7o, pode ser que a pessoa morra ali mesmo\u201d. A energia vital da pessoa est\u00e1 s\u00f3 sustentada pelo medo, pelo terror, pela afli\u00e7\u00e3o, pela incerteza, tem um m\u00ednimo de energia que vem disso e nisso ainda tem uma adrenalinazinha que alimenta essa pessoa. Se a pessoa relaxar, olhar, ela encaminha a consci\u00eancia. Melhor com a pessoa consciente. Hoje est\u00e1 muito comum os m\u00e9dicos tamb\u00e9m darem uma analgesia, fazerem um coma provocado.<br \/>\nQuando o m\u00e9dico diz: olha ela est\u00e1 com muitas dores, n\u00f3s vamos induzir um coma, voc\u00eas j\u00e1 se despessam porque esse coma \u00e9 irrevers\u00edvel. \u00c9 o jeito que os m\u00e9dicos tem encaminhado a morte agora. Encaminha o coma, da\u00ed volta l\u00e1 no dia seguinte: e a minha m\u00e3e? Ela est\u00e1 no mesmo estado. No terceiro dia: e a minha m\u00e3e? Ela est\u00e1 a mesma coisa, respirando, est\u00e1 bem, sinais vitais est\u00e3o bem. Ela manifestou alguma consci\u00eancia? N\u00e3o, nada. Da\u00ed no quarto dia: Olha ela teve uma parada, faleceu.<br \/>\nAquilo \u00e9 mais para os familiares se acostumarem com o processo da morte. Assim eles aumentam a analgesia, aumentam as drogas, aprofundam o coma e a pessoa morre. Os budistas, de forma geral, em princ\u00edpio, prefeririam n\u00e3o morrer assim. Eles prefeririam, eu j\u00e1 n\u00e3o sei se \u00e9 uma unanimidade, mas eles prefeririam passar pelo que tiver que passar, porque se eles s\u00e3o praticantes do aspecto das apar\u00eancias, essa \u00e9 uma oportunidade super rara que acontece uma \u00fanica vez em uma vida inteira. A pessoa ter esse enfrentamento. A pessoa vai dissolver literalmente tudo que era ilus\u00f3rio, vai se desfazer e a pessoa n\u00e3o tem apoio em mais nada. Ent\u00e3o, isso \u00e9 considerado uma coisa favor\u00e1vel. Os mestres contam v\u00e1rias hist\u00f3rias. Chagdud Rinpoche contou muitas hist\u00f3rias a respeito de mortes assim, mesmo mortes de grandes praticantes que, enfim, n\u00e3o se comportavam como grandes praticantes nessa hora. Aquilo dava uma decep\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTem uma hist\u00f3ria de uma mulher, que era uma grande praticante. Ela passou muito mal, ela gritou, passou mal. A\u00ed, num certo momento, ela recuperou. Clarificou a mente. Ela retornou e viveu mais um tempo. Ent\u00e3o, ela explicou: eu passei por isso e purifiquei essas estruturas todas de carma nesse processo. Ela purificou aquilo, retornou e viveu mais um tempo. N\u00e3o sei se mais seis meses, um ano, uma coisa assim. Ent\u00e3o, isso \u00e9 trazido como um exemplo de que mesmo que a pessoa passe mal, isso pode ser algo favor\u00e1vel, porque a vis\u00e3o comum sobre o passar mal \u00e9 uma vis\u00e3o associada \u00e0 estrutura c\u00e1rmica nossa. N\u00f3s olhamos sempre num aspecto grosseiro, mas o aspecto profundo \u00e0s vezes a gente n\u00e3o consegue reconhecer que aquilo pode ser trabalhado desde uma dimens\u00e3o profunda. Essa praticante tinha isso. Ela tinha uma estrutura de carma que n\u00e3o tinha aflorado e aquilo aflorou. E quando aflorou ela passou mal, mas ela tinha recurso. Ent\u00e3o, ela lidou com aquilo e ultrapassou.<br \/>\nO melhor exemplo que eu ouvi desses foi Chagdud Riponche que contou. Ent\u00e3o, ainda assim, eu acho que, por exemplo, se a pessoa est\u00e1 com muito sofrimento e ela n\u00e3o est\u00e1 aproveitando o sofrimento, n\u00e3o tem estrutura para aproveitar o sofrimento, eu n\u00e3o acho muito bom que o sofrimento continue. Certas coisas nunca s\u00e3o 100% certas. Tudo que a gente faz tem consequ\u00eancias boas e consequ\u00eancias ruins. Mas eu considero que aliviar o sofrimento de quem n\u00e3o est\u00e1 aproveitando o sofrimento \u00e9 uma boa coisa.<br \/>\nEu n\u00e3o acho, por exemplo, que algu\u00e9m que est\u00e1 em sofrimento necessariamente se torna uma pessoa melhor por causa do sofrimento. Eu tenho a tend\u00eancia a acreditar que \u00e9 o contr\u00e1rio. As pessoas em sofrimento v\u00e3o ficando amargas, v\u00e3o ficando duras, v\u00e3o ficando dif\u00edceis. Eu tenho a tend\u00eancia a proteger e evitar que aquilo passe de um ponto. Mas eu entendo que as pessoas possam criticar essa posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Ainda assim, eu prefiro desse modo.<br \/>\nSe a pessoa ou os familiares acharem que \u00e9 \u00fatil tomar analgesia, tudo bem, mas, em princ\u00edpio, para os praticantes \u00e9 melhor que a pessoa n\u00e3o apague a sua vida antes que ela passe pelas v\u00e1rias coisas em um certo n\u00edvel.<br \/>\n<em>Ensinamento oferecido por Lama Padma Samten no CEBB Caminho do Meio, durante sess\u00e3o de perguntas e respostas, no dia 22 de novembro de 2017.<\/em><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nTranscri\u00e7\u00e3o: Adrea Nochi<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o: Stela Santin<\/p>\n<div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":119,"featured_media":56134,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[352],"tags":[],"class_list":["post-56129","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-perguntas-respostas"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Como acompanhar algu\u00e9m que est\u00e1 morrendo? 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