{"id":83226,"date":"2021-04-03T16:53:36","date_gmt":"2021-04-03T19:53:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cebb.org.br\/?p=83226"},"modified":"2021-04-03T16:53:36","modified_gmt":"2021-04-03T19:53:36","slug":"como-compatibilizar-pratica-espiritual-com-a-vida-das-relacoes-familiares-trabalho-e-com-o-ambiente-aflitivo-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cebb.org.br\/fr\/como-compatibilizar-pratica-espiritual-com-a-vida-das-relacoes-familiares-trabalho-e-com-o-ambiente-aflitivo-do-mundo\/","title":{"rendered":"Desafios contempor\u00e2neos para a pr\u00e1tica espiritual"},"content":{"rendered":"<p>Transcri\u00e7\u00e3o da palestra &#8220;Desafios Contempor\u00e2neos: Como compatibilizar pr\u00e1tica espiritual com a vida das rela\u00e7\u00f5es familiares, trabalho e com o ambiente aflitivo do mundo&#8221; oferecida por Lama Padma Samten no dia 13 de mar\u00e7o de 2021 pelo CEBB Porto Alegre.\u00a0<!--more--><\/p>\n<h3>O desafio de nascer e morrer em tempos de pandemia<\/h3>\n<p>Considero que os desafios contempor\u00e2neos s\u00e3o individuais &#8211; como podemos andar nesse tempo, pessoalmente \u2013 mas temos a consci\u00eancia de que s\u00e3o tamb\u00e9m um super desafio social e um desafio ambiental, da vida como um todo.<br \/>\nEra dif\u00edcil imaginar que as circunst\u00e2ncias da pandemia, que estamos vivendo hoje, pudessem chegar nesse grau de impacto. O n\u00famero de mortes \u00e9 espantoso, mas, al\u00e9m do n\u00famero de mortes, h\u00e1 o efeito sobre cada fam\u00edlia. As pessoas est\u00e3o perdendo seus pais, irm\u00e3os, m\u00e3es, av\u00f3s, e isso n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero, com certeza. Quando se ouve 270 mil mortos, a pessoa n\u00e3o est\u00e1 olhando para esse n\u00famero, ela est\u00e1 olhando para sua m\u00e3e ou seu pai que morreram. Esse \u00e9 o impacto humano, uma sensa\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m do fato de que as pessoas nascem e morrem \u2013 algo a que j\u00e1 est\u00e1vamos acostumados -, mas que est\u00e3o nascendo em um tempo estranho e morrendo de uma forma muito incomum. Pensamos, de modo geral, que podemos acompanhar as pessoas e nossos familiares, ficar perto deles para que seja um processo natural do final da vida, mas temos uma esp\u00e9cie de atropelamento, um acidente pelo qual as pessoas passam e n\u00e3o t\u00eam a possibilidade de se reencontrar, de trocar palavras, trocar olhares e cuidados. Se olharmos as consequ\u00eancias disso, podemos criar quadros de muita afli\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma ano, no in\u00edcio dessa pandemia, n\u00e3o pod\u00edamos adivinhar que hoje estar\u00edamos bem pior.<\/p>\n<h3>O olhar elevado: Terra Pura<\/h3>\n<p>Vou trazer os ensinamentos do Buda na perspectiva grosseira, na perspectiva sutil e, ainda, na perspectiva social e individual. Imaginem que o Buda foi conselheiro de reis. Vem um rei e diz: \u201ccomo posso fazer para invadir e dominar o territ\u00f3rio do outro rei?\u201d E o Buda diz: \u201cmelhor n\u00e3o, isso n\u00e3o vai ter \u00eaxito. Porque eles t\u00eam uma solidez, e essa solidez vem do fato de que eles cuidam dos mais velhos, ouvem os mais velhos, protegem os doentes, se ajudam entre si, t\u00eam uma pr\u00e1tica de virtude, evitam as a\u00e7\u00f5es de matar, roubar, a\u00e7\u00e3o sexual com viol\u00eancia ou inapropriada, evitam intrigas, falar inutilmente, mentiras e agress\u00f5es verbais. T\u00eam um n\u00edvel de maturidade na rela\u00e7\u00e3o com as experi\u00eancias de raiva, car\u00eancia, avareza ou fixa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a suas pr\u00f3prias identidades. Eles t\u00eam consist\u00eancia.\u201d. Outro rei pergunta: \u201co que eu fa\u00e7o diante dessa amea\u00e7a?\u201d Vejam, n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a comum, aqui n\u00f3s estamos dentro de uma pandemia. Mas imaginem se tivesse um reino ao lado, um poder militar olhando para n\u00f3s e imaginando que nos invadir, pilhar e destruir, isso seria realmente muito assustador. Quando estamos lidando com nossa situa\u00e7\u00e3o de pandemia, podemos imaginar que isso talvez n\u00e3o seja t\u00e3o horr\u00edvel quanto uma invas\u00e3o desse tipo.<br \/>\nNos tempos do Buda, aconteciam coisas muito complexas e dif\u00edceis e o que ele traz como ensinamento \u00e9 olharmos com virtude, olharmos de forma elevada, ele coloca esse ponto da Terra Pura: como podemos construir situa\u00e7\u00f5es melhores?<\/p>\n<h3>A\u00e7\u00f5es virtuosas<\/h3>\n<p>Se a gente, por exemplo, seguir a recomenda\u00e7\u00e3o sobre as nossas a\u00e7\u00f5es com respeito a corpo, fala e mente, ou seja, se melhorarmos socialmente nossas a\u00e7\u00f5es, a sociedade como um todo se torna muito mais forte. Esse \u00e9 um aspecto que o Buda lembra constantemente. A vis\u00e3o pol\u00edtica dele \u00e9 essa. Naturalmente isso se traduz, na pr\u00e1tica, por n\u00e3o matarmos os seres, mas protegermos os seres. De cada uma das a\u00e7\u00f5es n\u00e3o virtuosas, surge a a\u00e7\u00e3o virtuosa correspondente. Para voc\u00eas terem uma no\u00e7\u00e3o do grau de delicadeza daqueles tempos, se diz que os monges, os bikus caminhavam em todas as dire\u00e7\u00f5es, o tempo todo, levando os ensinamentos do Buda, dialogando com todas as pessoas e praticantes de outras tradi\u00e7\u00f5es. Em certo momento surgiu uma cr\u00edtica: na \u00e9poca das chuvas, os seres todos v\u00eam da terra e se manifestam sobre o solo, mas os praticantes budistas pisoteavam esses seres. Ent\u00e3o, o Buda instituiu os retiros das mon\u00e7\u00f5es, esses per\u00edodos de chuva. Nesse per\u00edodo todos ficam em retiro, n\u00e3o caminham sobre o solo, n\u00e3o matam os seres. Na pr\u00f3pria cultura indiana, bram\u00e2nica, v\u00e9dica, h\u00e1 essa sensibilidade pelos seres de todos os tipos.<br \/>\nQuando n\u00f3s pensamos em proteger os seres e n\u00e3o matar, isso inclui, no aspecto positivo, a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida em geral, e todos os seres da natureza. O n\u00e3o roubar introduz um outro elemento que \u00e9 muito interessante, porque socialmente, o n\u00e3o roubar surge quase como uma vis\u00e3o pol\u00edtica. O Buda, dentro da perspectiva de n\u00e3o roubar, tinha a vis\u00e3o de s\u00f3 tomar aquilo que fosse dado voluntariamente. \u00c9 o aspecto positivo do n\u00e3o roubar. Por isso a sanga surge, dentro de uma perspectiva quase extrema, como uma sanga de mendicantes. O modelo do Buda se torna esse, ele efetivamente agradece de forma elevada tudo que recebe e mendiga o m\u00ednimo, ele n\u00e3o pensa: agora vou acumular. Essa \u00e9 uma perspectiva super interessante e se reflete diretamente sobre as quest\u00f5es que n\u00f3s estamos vivendo, porque no tempo atual n\u00f3s vamos maximizando as nossas demandas, estamos sempre inventando outras demandas.<\/p>\n<h3>Upadana: a mente devoradora dos seres e da natureza<\/h3>\n<p>Na perspectiva do Buda, isso \u00e9 descrito como Upadana: a partir de gostar ou n\u00e3o gostar temos desejo e apego, a partir de desejo e apego n\u00f3s temos as a\u00e7\u00f5es volitivas que nos levam a buscar sempre uma coisa a mais. Esse movimento \u00e9 chamado Upadana, o nono elo da origina\u00e7\u00e3o dependente. Quando operamos a partir dos \u00f3rg\u00e3os dos sentidos \u00e9 o quinto elo, o contato com as apar\u00eancias a partir dos \u00f3rg\u00e3os dos sentidos \u00e9 o sexto elo. O gostar ou n\u00e3o gostar \u00e9 Vedana, \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o que a gente tem quando experimenta sensorialmente as coisas. Disso brota desejo e apego, queremos algumas coisas e outras a gente n\u00e3o quer. De desejo e apego surge ent\u00e3o, como se fosse uma intelig\u00eancia, a busca do que n\u00f3s queremos e a tentativa de escapar do que n\u00e3o queremos. Essa habilidade, essa posi\u00e7\u00e3o de mente que constantemente busca alguma coisa a mais e se livrar de outras coisas \u00e9 Upadana. O Buda diz que estamos presos a Upadana, que isso seria um obst\u00e1culo.<br \/>\nQuando olhamos socialmente hoje vemos que Upadana \u00e9 a mente devoradora da natureza, devoradora dos seres. \u00c9 a mente que vai criar as injusti\u00e7as sociais, a domina\u00e7\u00e3o das pessoas sobre as pessoas, a escraviza\u00e7\u00e3o dos seres e vai criar uma sociedade que vai administrando tudo numa certa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Crises contempor\u00e2neas: rigidez das possibilidades<\/h3>\n<p>Dever\u00edamos olhar com cuidado o porqu\u00ea de os jovens resistirem um pouco \u00e0 escola, se a escola \u00e9 a fonte do saber, e o saber amplia nossa consci\u00eancia e \u00e9 interessante, por que \u00e9 que os jovens resistem um pouco \u00e0 escola? Vamos entendendo que a escola terminou se atrelando a um processo artificial atrav\u00e9s do qual os jovens v\u00e3o sendo encaixados dentro de uma estrutura e, quando s\u00e3o capazes de adotar as identidades que est\u00e3o reservadas como possibilidades para eles dentro dessa estrutura, s\u00e3o encaminhados dentro do processo que \u00e9 vida nessas estruturas. S\u00f3 que a vida dentro dessas estruturas \u00e9 sempre limitada e produz rapidamente insatisfa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 natural que as pessoas estejam sempre com uma divis\u00e3o na mente: elas fazem alguma coisa porque precisam fazer e parece que aquilo \u00e9 uma conting\u00eancia da vida, mas aquilo \u00e9 uma matriz de possibilidades que foi desenhada, sem que ningu\u00e9m saiba, por enquanto, quem desenhou isso, mas a cada tempo tem uma matriz de possibilidades e n\u00f3s terminamos nos ajustando a ela. Como essa matriz \u00e9 artificial, temos um estranhamento, ent\u00e3o, \u00e9 natural em cada pessoa a exist\u00eancia de uma regi\u00e3o imagin\u00e1ria onde se aspira a encontrar algo que esteja mais ligado ao seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, que seja mais favor\u00e1vel. A estrutura social brota como essa matriz de possibilidades, um gradeamento do funcionamento humano surgindo como estradas, ruas, pr\u00e9dios, que v\u00e3o espelhar, no n\u00edvel grosseiro, os lugares onde esse gradeamento matricial de possibilidades surge.<br \/>\nNo aspecto sutil, temos os espa\u00e7os de possibilidades mentais e das nossas a\u00e7\u00f5es. Isso surge como um processo de domina\u00e7\u00e3o individual e social, que est\u00e1 muito bem explicado por Wittgenstein. Essa \u00e9 uma conting\u00eancia de todos os seres, mas dentro da grande matriz da mente n\u00f3s temos espa\u00e7os espec\u00edficos. Parte das crises contempor\u00e2neas brota da rigidez dessas matrizes de possibilidades e da insatisfatoriedade associada a essa experi\u00eancia. Os jovens v\u00e3o sendo encaminhados, calmamente, naquela dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma ou outra vez, o Buda usa a vis\u00e3o de que as pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o s\u00e3o como um rebanho que vai sendo conduzido por prados floridos, aguadas e sombras, em dire\u00e7\u00e3o ao abatedouro. J\u00e1 est\u00e3o dentro do corredor que vai conduzir ao abatedouro, mas n\u00e3o veem. Dentro dessas circunst\u00e2ncias, em certo momento nos damos conta de que se trata de um abatedouro, quando n\u00f3s vemos que essa matriz vai conduzindo \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental e \u00e0 supress\u00e3o da possibilidade da vida, na forma como agora surgimos e nos estabelecemos. Essa matriz parece positiva, mas \u00e9 uma matriz de adoecimento, tamb\u00e9m.<br \/>\nA forma pela qual n\u00f3s nos estabelecemos dentro disso se assemelha \u00e0s v\u00e1rias monoculturas, que tamb\u00e9m s\u00e3o matrizes que se estabelecem sobre a natureza. Operamos de uma forma insens\u00edvel \u00e0 vida e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es locais, ou com uma sensibilidade reduzida, com o foco dirigido &#8211; uma vez que ele \u00e9 mantido, n\u00f3s perdemos a sensibilidade para outras intelig\u00eancias -, e esse processo de possibilidades restritas vai retirando a base de sustentabilidade do pr\u00f3prio processo. Quando a monocultura surge, a natureza vai sendo destru\u00edda. A pr\u00f3pria planta ali dentro tem uma fragilidade, porque no momento que surgirem contamina\u00e7\u00f5es elas se propagam muito facilmente, porque o ambiente \u00e9 favor\u00e1vel. As plantas est\u00e3o sempre submetidas a algum tipo de pandemia, porque quando algo acontece, se espalha. Mas quando aquilo vai acontecendo aqui e ali, vemos que os organismos que predam as plantas v\u00e3o se adaptando, desenvolvendo outras possibilidades e ampliando sua capacidade de atacar. Elas v\u00e3o dialogando com o ambiente e encontrando outras formas, e avan\u00e7ando. Isso faz com que outros venenos sejam introduzidos, chegando a um ponto em que n\u00e3o conseguimos mais produzir alimentos que n\u00e3o tenham uma contamina\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca. Isso termina gerando uma pacifica\u00e7\u00e3o do veneno: se tem veneno circulando no leite materno, achamos que \u00e9 assim mesmo; se tem veneno no corpo, tamb\u00e9m achamos que \u00e9 assim mesmo. Como vou fazer de outro modo, se eu quiser viver na cidade? \u00c9 isso. Vamos nos acostumando \u00e0s circunst\u00e2ncias aflitivas e antinaturais.<\/p>\n<h3>Adoecimentos coletivos, tratamentos individuais<\/h3>\n<p>Disso brotam v\u00e1rios tipos de doen\u00e7as: as doen\u00e7as emocionais, as doen\u00e7as mentais de v\u00e1rias ordens que v\u00e3o sendo tratadas sempre individualmente. \u00c9 como se a pessoa adoecesse individualmente. N\u00e3o trabalhamos em termos de estat\u00edsticas, vendo que tais comportamentos produzem tal impacto estat\u00edstico vis\u00edvel. A gente recebe no consult\u00f3rio cada pessoa que est\u00e1 com alguma coisa, d\u00e1 um rem\u00e9dio para ela; depois vem outra, a gente d\u00e1 outro rem\u00e9dio. N\u00e3o vemos a no\u00e7\u00e3o de pandemia de v\u00e1rias coisas. N\u00e3o vemos as epidemias de doen\u00e7a mental, suic\u00eddio, c\u00e2ncer. Ainda que a gente diga que tem muitos casos de c\u00e2ncer, s\u00f3 um n\u00famero muito restrito de pessoas olha isso de modo estat\u00edstico, de forma a associar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es antinaturais.<br \/>\nNesse momento, enquanto esse rebanho vai andando por prados que parecem floridos, aguadas e sombras, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ver as cercas do abatedouro. Na pr\u00f3pria experi\u00eancia da pandemia, vemos que primeiro abandonamos um ambiente saud\u00e1vel e nos aglomeramos em v\u00e1rios lugares. Aglomerados nesses lugares, n\u00f3s nos tornamos sens\u00edveis a doen\u00e7as que encontram um terreno f\u00e9rtil para se multiplicar e se ajustar ao pr\u00f3prio ambiente, \u00e9 quando vemos as variantes surgindo. Essa \u00e9 uma circunst\u00e2ncia natural do aglomeramento e est\u00e1 muito claro que quando as pessoas se isolam, elas se protegem, mas as pessoas que s\u00e3o obrigadas, pela sua pr\u00f3pria vida, a se manter aglomeradas dentro do metr\u00f4, dentro dos \u00f4nibus, nos v\u00e1rios lugares, \u00e9 que v\u00e3o parar nos postos de sa\u00fade e nos hospitais.<br \/>\nNa medida em que montamos uma sociedade de um certo modo, n\u00f3s maximizamos as circunst\u00e2ncias que v\u00e3o produzindo a imperman\u00eancia e as dificuldades associadas. \u00c9 totalmente natural que aconte\u00e7a. Agora a gente entende, tamb\u00e9m, como no passado algumas cidades foram abandonadas. \u00c9 muito mais favor\u00e1vel e mais resiliente termos o m\u00e1ximo de felicidade e lucidez, cuidado com sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, com o m\u00ednimo de demanda. Se n\u00f3s dependemos de muitas coisas, temos problemas.<br \/>\nDentro desse processo de expans\u00e3o perdul\u00e1ria e maximiza\u00e7\u00e3o do processo econ\u00f4mico n\u00f3s vamos encontrando limites, vamos adensando as cidades e nos tornando mais afastados da natureza, virando uma monocultura de seres humanos empilhados, que naturalmente v\u00e3o ter problemas variados. Como estamos vivendo em tempos escuros, caracterizados pelo fato de que as boas recomenda\u00e7\u00f5es parecem invi\u00e1veis, \u00e9 importante que a gente olhe de modo estrat\u00e9gico, porque quando o sofrimento se amplia \u00e9 preciso ter clareza sobre em que dire\u00e7\u00e3o devemos andar. Uma dire\u00e7\u00e3o clara \u00e9 nos tornarmos mais resilientes, termos a capacidade de depender menos e demandar menos e ampliar as experi\u00eancias verdadeiras, aquilo que realmente d\u00e1 sentido \u00e0s nossas vidas. Isso \u00e9 uma vis\u00e3o tradicional no n\u00edvel grosseiro sobre como podemos nos mover.<\/p>\n<h3>As Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho de Oito Passos<\/h3>\n<p>No n\u00edvel sutil, o Buda vai introduzir a vis\u00e3o de que n\u00f3s dever\u00edamos desenvolver um sentido verdadeiro para a nossa vida. Esse sentido verdadeiro vem da compreens\u00e3o das Quatro Nobres Verdades e do Nobre Caminho de Oito Passos, que \u00e9 a Quarta Nobre Verdade.<br \/>\nA gente deveria entender o sofrimento individual, o sofrimento causal &#8211; quando n\u00f3s apontamos causas &#8211; e o sofrimento estrutural, o fato de que todos n\u00f3s estamos presos a processos estruturais que nos impedem de gerar uma vida verdadeiramente feliz, que n\u00e3o seja submetida \u00e0s circunst\u00e2ncias aflitivas e sofrimentos peri\u00f3dicos. Percebemos que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os seres humanos que est\u00e3o dentro disso. Todos os seres, num n\u00edvel grosseiro ou sutil, manifestam essas fragilidades, porque est\u00e3o presos ao funcionamento dos doze elos da origina\u00e7\u00e3o dependente. No aspecto sutil, a primeira nobre verdade pode se tornar impactante quando n\u00f3s entendemos que os seres podem, internamente, guardar referenciais inauspiciosos.<\/p>\n<h4>Os seis reinos e a felicidade condicionada<\/h4>\n<p>Por exemplo, os seres podem se ver nos infernos, e podem dizer: isso aqui que n\u00f3s estamos vendo \u00e9 o reino dos infernos, portanto eu vou exercer a\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e agress\u00e3o. Eles podem dizer: aqui \u00e9 um mundo onde eu estou despreparado, eu estou totalmente carente, eu dependo de circunst\u00e2ncias, eu tenho muitas demandas, estou sempre aflito. Este \u00e9 o mundo dos pretas, os seres que t\u00eam afli\u00e7\u00e3o por car\u00eancia. A mente dos seres pode surgir como a mente dos animais, eles entendem o seu mundo, constroem um mundo que mais ou menos funciona e eles operam ali dentro, t\u00eam referenciais espaciais, t\u00eam dom\u00ednio sobre regi\u00f5es e se protegem, competem com outros animais pelas regi\u00f5es. Os animais t\u00eam uma vis\u00e3o estreita e limitada sobre o que \u00e9 a sua vida e o seu funcionamento.<br \/>\nVamos encontrar os seres humanos olhando em volta e definindo o que s\u00e3o propriedades, \u00e1reas de dom\u00ednio, o que pode acontecer ou n\u00e3o. Olham deste modo, acumulam, v\u00e3o ampliando sempre suas \u00e1reas de dom\u00ednio. Exercem dom\u00ednio sobre outras pessoas e sobre os animais, mas tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o a lugar nenhum, s\u00e3o submetidos \u00e0 imperman\u00eancia, morrem, e tudo o que imaginavam que era deles desaparece. Tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam dom\u00ednio sobre onde sua pr\u00f3pria mente e imagina\u00e7\u00e3o v\u00e3o, e assim se deslocam por dentro dos v\u00e1rios reinos. Vamos encontrar os seres que t\u00eam poder e capacidade de articula\u00e7\u00e3o, mentes articuladas que n\u00f3s poder\u00edamos, nesse tempo em que estamos vivendo, colocar como a mente das grandes organiza\u00e7\u00f5es e CEOs de grandes empreendimentos, ou mesmo chefes de estado, porque eles decidem sobre a vida das pessoas. Mandam matar advers\u00e1rios, deslocam drones que matam pessoas aqui ou ali. Dentro dos pa\u00edses v\u00e3o surgindo mil\u00edcias, grupos em torno de pessoas poderosas que fazem o que bem entendem, burlam as leis dos pr\u00f3prios pa\u00edses, s\u00e3o totalmente inalcan\u00e7\u00e1veis pelas leis do pa\u00eds e pelas leis e acordos internacionais.<br \/>\nEncontramos nessas figuras os asuras, que correspondem aos seres chamados de semideuses, seres de poder \u2013 t\u00eam poder sobre todos os seres. Com certeza estamos submetidos a essas circunst\u00e2ncias, querendo ou n\u00e3o. Os asuras se manifestam nesse tempo e determinam os rios que v\u00e3o sobreviver, decidem a sorte do mar, dos seres todos das v\u00e1rias regi\u00f5es, tamb\u00e9m dos seres humanos. N\u00f3s vamos encontrar o choque dos asuras, eles se batem o tempo todo e n\u00e3o conseguem encontrar um equil\u00edbrio, e esses choques respingam sobre os seres humanos e os outros reinos.<br \/>\nAcima disso vamos encontrar o reino dos deuses, seres que operam dentro da perspectiva de felicidade condicionada, ligada a desejo e apego. Eles t\u00eam a felicidade ligada a condi\u00e7\u00f5es, t\u00eam dom\u00ednio sobre as condi\u00e7\u00f5es e s\u00e3o o ideal que os asuras &#8211; seres de poder \u2013 olham, aspirando um dia ter essa tranquilidade e repousar em algum lugar, e n\u00e3o conseguem, porque t\u00eam que estar sempre lutando, em afli\u00e7\u00e3o. Mas os pr\u00f3prios deuses pairam sobre as circunst\u00e2ncias todas por um tempo e depois sucumbem. A vida deles tamb\u00e9m \u00e9 impermanente.<br \/>\nEnt\u00e3o, s\u00e3o seis estados mentais. Temos problemas n\u00e3o s\u00f3 no n\u00edvel grosseiro, mas temos tamb\u00e9m esse n\u00edvel sutil, onde nos vemos existindo dentro de certo tipo de vida. Essas vidas s\u00e3o quase incompreens\u00edveis umas \u00e0s outras. A gente n\u00e3o entende bem a vida no reino dos infernos, dos deuses ou semideuses, pois \u00e9 muito diferente da forma como os seres humanos operam. Do mesmo modo, n\u00e3o entendemos bem o reino dos animais ou a vida dos seres carentes.<br \/>\nTodos os reinos t\u00eam um tipo de malandragem, um tipo de opera\u00e7\u00e3o de encontrar o que querem e escapar do que n\u00e3o querem, todos t\u00eam um n\u00edvel de apego. Essas s\u00e3o circunst\u00e2ncias adicionais das crises do nosso tempo contempor\u00e2neo, dentro de uma contemporaneidade al\u00e9m do tempo, porque \u00e9 o que acontece desde sempre, quando a ignor\u00e2ncia e os doze elos se estabelecem. Essa \u00e9 a circunst\u00e2ncia pela qual os seres passam, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, enquanto a vida se mant\u00e9m.<\/p>\n<h3>Como as nossas mentes funcionam: os doze elos da origina\u00e7\u00e3o dependente<\/h3>\n<p>A compreens\u00e3o dos doze elos \u00e9 crucial para que possamos compreender esse n\u00edvel de sofrimento. A gente v\u00ea que os seres todos est\u00e3o submetidos a isso, s\u00e3o mentes que operam segundo caracter\u00edsticas espec\u00edficas. O Buda explicou esse ponto, e isso se manteve como uma vis\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, at\u00e9 os dias de hoje. No entanto, a gente n\u00e3o escuta isso na escola, e n\u00e3o v\u00ea isso como uma verdade maior. \u00c9 como se a gente entrasse num curso de agronomia e aprendesse a colocar sementes no solo, colocar o adubo qu\u00edmico, comprar os venenos e saber como colocar. A gente n\u00e3o entende a vis\u00e3o ampla da natureza. Entramos na escola e aprendemos como vamos adotar uma identidade em meio ao mundo, que parece que \u00e9 um mundo s\u00e9rio, sustent\u00e1vel e verdadeiro, mas o mundo tem esses obst\u00e1culos todos.<br \/>\nAs crises contempor\u00e2neas incluem isso que \u00e9 chamado de avidya, perda de vis\u00e3o, estreitamento da vis\u00e3o. Quando olhamos as coisas de uma forma espec\u00edfica, focada, n\u00f3s perdemos a vis\u00e3o ampla do que estamos fazendo e para onde estamos indo. A compreens\u00e3o do sofrimento no n\u00edvel grosseiro e no n\u00edvel sutil remete \u00e0 compreens\u00e3o do funcionamento da mente, que \u00e9 um ensinamento super importante do Buda: como nossas mentes funcionam. Gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, precisamos estudar de novo os doze elos da origina\u00e7\u00e3o dependente.<\/p>\n<h4>A libera\u00e7\u00e3o do sofrimento, o surgimento do talo do l\u00f3tus e a a\u00e7\u00e3o no mundo<\/h4>\n<p>Quando a gente entende as causas do sofrimento, como tudo se organiza e surge desse modo, na sequ\u00eancia brota uma luz e a gente diz: entendi! O sofrimento \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o artificial, toda essa circunst\u00e2ncia descrita pelos doze elos, pela origina\u00e7\u00e3o dependente e pela primeira nobre verdade n\u00e3o domina, de fato, a estrutura da nossa mente. A base da nossa mente pode se envolver nisso como quem se envolve em um jogo, mas ela n\u00e3o fica prisioneira do jogo. Qualquer pessoa que jogar qualquer jogo entra e sai, ela n\u00e3o est\u00e1 presa dentro daquilo. A vida termina surgindo como um jogo, onde n\u00f3s somos personagens dentro de panoramas espec\u00edficos. A\u00ed n\u00f3s precisar\u00edamos pensar: o que eu sou dentro disso? E descobrimos que essa natureza \u00e9 a construtora desses aspectos dos doze elos, a gente n\u00e3o entende bem o que seja isso, mas a gente aspira a entender e compreender que, enfim, eu construo a mim mesmo e o lugar onde eu vivo. Se eu n\u00e3o construir de forma inauspiciosa, o sofrimento cessa. Ent\u00e3o, eu posso construir coisas auspiciosas, posso estar livre dos aspectos dos doze elos. Essa \u00e9 a terceira nobre verdade, ou seja, a libera\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<br \/>\nNa quarta nobre verdade o ponto central \u00e9 simbolizado pelo fato de que as circunst\u00e2ncias inadequadas s\u00e3o vistas como lodo, mas olhando para as circunst\u00e2ncias inadequadas a gente pode ter compaix\u00e3o pelos seres. A gente olha para os seres e aspira que eles se livrem do sofrimento. Quando n\u00f3s encontramos os seres fazendo coisas inadequadas conosco, tamb\u00e9m, a gente poderia ter uma atitude adversarial, mas nos damos conta de que eles est\u00e3o agindo assim porque est\u00e3o dominados pela pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia, mas a mente deles n\u00e3o fica verdadeiramente presa \u00e0 ignor\u00e2ncia. A mente deles pode tomar uma outra dire\u00e7\u00e3o, tem uma liberdade al\u00e9m das pr\u00f3prias identidades e suas vis\u00f5es de mundo. Se eles se acalmarem um pouco, e reduzirem um pouco a responsividade da mente, terminam vendo tudo de forma mais ampla. Isso \u00e9 simbolizado por Amitaba sentado, em sil\u00eancio. <strong>Simplesmente ao sentar em sil\u00eancio, a loucura responsiva se reduz<\/strong>, e podemos nos ver surgindo de outro modo, por exemplo, surgindo como o talo do l\u00f3tus, que \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da compaix\u00e3o, do amor, da alegria e da equanimidade voltadas a beneficiar todos os seres.<br \/>\nSe as coisas est\u00e3o muito dif\u00edceis para os seres, n\u00f3s podemos surgir como o talo desse l\u00f3tus e aprender a desenvolver habilidades para beneficiar os seres. Esse \u00e9 o ponto mais importante, esse \u00e9 o ensinamento do Buda que \u00e9 o in\u00edcio do Nobre Caminho de Oito Passos. N\u00f3s temos esse nascimento, e com esse nascimento j\u00e1 temos os m\u00e9ritos para viver, mesmo em regi\u00f5es de crise e mesmo em dificuldades.<br \/>\nEu queria incentivar que as pessoas contemplem as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho de Oito Passos. Que as pessoas evitem as a\u00e7\u00f5es negativas, produzam as a\u00e7\u00f5es positivas, e, a partir disso, que elas encontrem os m\u00e9ritos que permitam que elas vivam em meio ao mundo, trazendo um exemplo favor\u00e1vel de como outras pessoas tamb\u00e9m podem encontrar formas de viver em meio ao mundo, trazendo benef\u00edcio aos seres.<br \/>\n<em>Transcri\u00e7\u00e3o de Clarissa Gleich<\/em><br \/>\n<em> Edi\u00e7\u00e3o e e revis\u00e3o: Andrea Nocchi e Stela Santin<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transcri\u00e7\u00e3o da palestra &#8220;Desafios Contempor\u00e2neos: Como compatibilizar pr\u00e1tica espiritual com a vida das rela\u00e7\u00f5es familiares, trabalho e com o ambiente aflitivo do mundo&#8221; oferecida por Lama Padma Samten no dia 13 de mar\u00e7o de 2021 pelo CEBB Porto Alegre.\u00a0<\/p>","protected":false},"author":119,"featured_media":83227,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[417,364],"tags":[],"class_list":["post-83226","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensinamentos","category-treinamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - 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