Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

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Budismo no Globo Repórter

do site oficial do Globo Repórter
Um pequeno sítio perto de Porto Alegre e um nome cheio de significados: Caminho do Meio. Um lugar para aproximar o budismo da cultura ocidental. O encarregado dessa missão foi professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e é mestre em física quântica. Nasceu Alfredo Aveline, mas há dez anos foi ordenado líder espiritual com o nome de Lama Padma Samten.
Para o mestre budista, pode haver, sim, um caminho do meio entre ciência e espiritualidade. Só depende dos olhos de quem vê. “A física quântica talvez tenha introduzido a recuperação da importância do observador”.
Há mais ou menos cem anos, os cientistas descobriram que no mundo das coisas bem pequenas, dentro das moléculas que formam o Universo e o corpo humano também, a matéria tem um comportamento, no mínimo, estranho.
Dentro de cada átomo, ondas e partículas se misturam, dependendo de como o cientista faz a observação. Elétrons se comportam ora como partículas, ora como ondas de energia. Não são nem uma coisa, nem outra. Essa descoberta fez com que muitos teóricos vissem aí uma possibilidade de explicação científica para fenômenos espirituais.
O físico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Henrique Lins e Barros discorda da interpretação desses estudos. Mas não nega as surpresas e mistérios que a física quântica introduziu na ciência contemporânea.
“Na física quântica, as partículas atômicas podem ultrapassar obstáculos. Isso corresponderia, numa física macroscópica, na nossa física, a encostar numa parede e passar para o outro lado sem ter nenhuma porta e sem nunca ter estado dentro da parede”, explica o físico.
E quantas dúvidas, quantos questionamentos surgiram a partir destas descobertas…
“Essa é uma observação que nos faz abandonar a pergunta: ‘Qual é a realidade verdadeira?’. Eu tenho realidades para cada um, e é necessário que a gente consiga lidar com as pessoas na realidade que elas sentem que estão”, diz o mestre budista.
O centro budista Caminho do Meio atrai pessoas para quem conquistas como casa, carro e sucesso profissional têm hoje menos importância. No sítio, dividem tarefas, se alimentam de comida vegetariana. Uma vida simples em busca de paz interior, harmonia, felicidade.
Quem vive no local acredita que é possível viajar para fora do corpo, que existem vidas passadas e que esta vida de agora continua mesmo depois da morte. Para eles, tudo isso é muito natural.
E se a ciência vai conseguir um dia explicar todos estes fenômenos, pouco importa. Afinal, são ensinamentos que vêm sendo passados há mais de 2,6 mil anos que inspiram este jeito de enxergar o mundo.
“É uma questão de linguagem. Todos esses fenômenos são naturais. Em vez de pensarmos se temos vidas e mortes, dizemos que há uma consciência que atravessa a aparência de vida e morte”, diz o mestre budista.
Em uma casa simples, feita de madeira, no meio da mata, eles fazem retiros de até três meses. A maior parte do tempo, em silêncio. Uma grande intimidade com a natureza que traz muita paz. O designer Eduardo Seminari está descobrindo aos poucos. Ele ganhou muito dinheiro criando sites na internet. Mas não era feliz, mesmo achando que tinha tudo de que precisava.
“Você começa a perceber que depende muito das coisas externas – pessoas, objetos. Então, começa a perceber que está depositando toda sua felicidade no mundo externo”, constata Eduardo. E vivendo com muito menos, tem conseguido muito mais. “Tudo era muito passageiro. Era uma felicidade que não era permanente, como se a gente estivesse numa montanha-russa de emoções”, conta.
“Nessas tragédias do nosso mundo, você encontra alguém que diz que a esposa foi embora. Ele está muito mal, chorando. Três meses depois você o encontra sorrindo. A esposa voltou? Não. É que agora ele encontrou outra pessoa maravilhosa. Então, este é o fato. Nós consideramos tudo muito sólido, mas a própria vida arromba essas prisões. Porque essas prisões não são verdadeiras. O que é verdadeiro? É o fato de que nós somos seres livres”, conclui o mestre budista.
E assim como os elétrons que podem misteriosamente atravessar paredes, a espiritualidade pode ser a saída, quando parece que não há mais para onde ir.
“A espiritualidade, especialmente na visão budista, é a ciência do ‘ou não’. Nós estamos completamente presos, rodeados de inimigos, sem solução. Ou não! Por quê? Porque não há efetivamente uma rigidez no mundo onde nós aparentemente vivemos. Esta é a razão pela qual a espiritualidade é fundamental: o mundo é espiritual”, finaliza o mestre budista.

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