Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

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O sentido da Sanga

É uma alegria da Sanga, tem uma satisfação a gente praticar junto. Acho que é um testemunho. Uma vez que a Sanga existe, significa que os ensinamentos tem alguma utilidade, senão a Sanga não existiria. É maravilhoso!

Tá certo que cada um entende um pouco do seu jeito, mas assim são os ensinamentos mesmo. Porque nós precisamos entender, nós damos sentido às palavras a partir do lugar onde nós estamos. Nós vamos fazendo a nossa prática e aquelas palavras vão nos ajudando de algum modo. A Sanga é inseparável do Buda e do Darma. Isso é maravilhoso! Do mesmo modo que a condição primordial está incessantemente presente, dentro da confusão do samsara, a Sanga é incessantemente presente. Isso é muito maravilhoso! Os mestres vêm e vão, mas a Sanga segue. A Sanga é uma das Três Joias. A Sanga é o próprio Buda. Não que cada uma das pessoas seja uma molécula do Buda, não é isso. A Sanga surge porque a mente dos seres é inseparável da mente primordial e, quando o som do Darma vem, a mente búdica presente ouve o som do Darma. Quando ela ouve o som do Darma, a Sanga aparece milagrosamente. É como o oceano. O vento vem, é como se fosse o vento do Darma. Não é toda água que se levanta, mas as ondas se levantam. As ondas são a manifestação da Sanga. Essa manifestação da Sanga vem da própria propriedade da água. A propriedade da água pode produzir ondas seja onde for; aquelas ondas são algumas, mas elas são incessantes, estão sempre lá. É muito comovente, muito bonito que a cada época as ondas se manifestam de um jeito, de acordo com as águas, com as aparências como elas estão. Agora, a essência disso é sempre a mesma. É muito incrível!
Quando vocês ouvem as histórias dos mestres do passado que foram levando esses ensinamentos daqui pra lá, de lá pra cá, é muito comovente! Bodidarma, quando chega na China, é mal recebido: o imperador bloqueia ele. Quando os ensinamentos do Surangama Sutra surgem, eles são proibidos, o imperador proíbe aquilo. Aquilo é considerado muito subversivo. Vocês vejam, dentro de uma estrutura imperial que tenta dar um sentido extraordinário ao mundo comum e ritualizar todo o funcionamento, estratificar toda a sociedade, tu começas a falar sobre vacuidade, não faz sentido os vários postos que as pessoas têm, as várias honras que as pessoas têm, as várias funções, as várias missões, o papel do imperador, tudo aquilo é construído. É muito subversivo. Os ensinamentos desse tipo são muito perigosos. É para grupos pequenos, fechados, em lugares… Como se tivesse um coronavírus em algum lugar e a gente tivesse que ficar agrupados. [risos] Esses ensinamentos são difíceis num certo sentido. Dentro de um mundo polarizado, é como se fosse muito estranho tu não te polarizar também, não te colocar de uma forma polarizada, identificada a grupos específicos. Eu vejo o budismo como uma abertura que vitaliza as sociedades nos lugares, nos tempos em que isso é possível. Mas, essencialmente, o budismo é libertador. Tá certo que o budismo pode ser cooptado, arrumado, e submetido ao império. Está cheio de exemplos disso. Tu começa nomeando os superiores, cria uma estrutura, dá um significado mundano à existência daquilo e transforma as práticas todas em rituais. Aí começa a desaparecer o sentido profundo. O sentido profundo vai ficar nos iogues, ou seja, naqueles que estão aí por um tempo e pensam: “Isso é profundo, mas aqui dentro não está dando certo”. Aí eles plum; pulam pra fora. Tem muitos exemplos. Mesmo na época de ouro do budismo tibetano. Quer dizer, a gente nunca pode dizer que é uma época de ouro. Se vocês olham o tempo onde aquilo foi vivido, tinha muita tensão também. Mas nesses tempos vocês vão encontrar essas figuras extraordinárias como Patrul Rinpoche, que era um andarilho: ele andava por todo lugar, não vai se fixar. Vocês vão encontrar Shantirakshita também, ele não se fixa. Ele olha, não funciona bem, sofre bullying dentro do mosteiro. Vocês vão encontrar os iogues chegando e desafiando os monges nos mosteiros, com a própria prática deles. É um ponto interessante. Ou seja, o caminho é dentro do samsara, então ele tem os traços do samsara, as contradições do samsara. Mas isso não chega a obstaculizar a manifestação da Natureza Primordial. Ela vai ultrapassando os limites sempre. Nós estamos no meio disso, querendo ou não querendo. Quem não é budista também, não está praticando, não escuta ensinamentos está também no meio disso. Não tem como dizer: ‘Eu tô fora!’ Nós estamos no meio desse movimento todo. É muito interessante!
Lama Padma Samten durante o retiro Contemplação das Quatro Nobres Verdades na Perspectiva da Iluminação da Sabedoria Primordial, ocorrido entre 02 e 15.jan.2021.
Transcrição por José Benetti e revisão por Ana Nedochetko e Tirza Myga Garcia

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