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Como seguir conectado com a prática depois dos retiros?

O ponto central da prática cotidiana, aliás, de toda a prática, é perceber o aspecto secreto. O aspecto secreto parece uma coisa super complexa. Se a pessoa, de algum modo, já estudou, contemplou, olhou o aspecto secreto, é mais fácil recuperar. O aspecto secreto não é shamata propriamente. Ele é alguma coisa ligada à visão. Esse aspecto secreto surge no cotidiano como o fato de que as coisas não se fixam. Então, vamos pensar assim, a pessoa não tem lucidez, mas ela percebe que as coisas não se fixam, porque ora aquilo vem de um jeito, daqui a pouco a gente imagina que as coisas são de um outro jeito e aquilo muda. Esse é um ponto. Assim a gente vai intuindo que há uma dimensão livre nas coisas. Essa é uma forma muito leve, praticamente sem os ensinamentos budistas, de a pessoa começar a perceber isso. A pessoa pode, por exemplo, perceber a impermanência. Na medida que a pessoa percebe a impermanência, ela percebe que tem alguma coisa que percebe a impermanência, alguma coisa livre atrás.

As crises e o aspecto secreto

Quando a pessoa tem uma sensação de uma grande crise, a sensação de grande crise é como se fosse uma morte sem a morte física. A pessoa tem uma morte: a bolha que a pessoa estava, a identidade, a realidade não têm mais como seguir, explode tudo. Mas a pessoa segue viva. Tem algo livre ali dentro. E esse algo livre termina nos ajudando a nos reconstruírmos. Então, o aspecto secreto é quando a gente começa a viver a partir dessa dimensão livre e não fixado a alguma dimensão tentando defender algo de algum jeito. O aspecto secreto não precisa ser defendido. O que precisa ser defendido é o que é construído. A liberdade natural de onde a gente encontra a força para reconstruir é uma dimensão livre, não precisa ser reconstruída. Ela está lá sempre.

Então, quando andamos no cotidiano, é bom observarmos isso, olhar que a conjuntura toda é transitória, construída, luminosa! A gente sorri para isso. Porém, quando a pessoa está no meio do andar intenso, causal e temporal, dentro de um jogo, a pessoa não está olhando o aspecto livre; ela está olhando o aspecto fixo das coisas, aparentemente fixo. Mas dentro do aspecto fixo tem o aspecto livre. Por exemplo, a pessoa está jogando um jogo de tabuleiro, que tem uma base fixa que é aquele conjunto de regras. Mas mesmo que a pessoa esteja operando dentro de um conjunto de regras, ela tem uma liberdade natural de andar numa direção ou noutra direção. Então, essa liberdade está ali, as coisas não são fixas. E tem o momento em que a pessoa se levanta e deixa o jogo. Ela não deveria levar tão a sério aquilo ao ponto de imaginar que ela agora é aquilo. Então, essa é a nossa prática na vida cotidiana. Quando estamos envolvidos no meio das coisas, nós precisamos considerar esse aspecto.

Compaixão e o aspecto secreto

O outro aspecto é o de compaixão, amor, alegria e equanimidade. A gente vai reconhecendo as pessoas presas nos seus mundos. Vamos tentando descobrir um jeito de ajudar o outro. Mesmo na vida de pessoas que têm habilidade, como o próprio Buda, apareceram vários inimigos. Mas ele nunca considerou os outros como inimigos, ele sempre buscava salvar o outro. Então, essa é uma característica: na medida em que nós desenvolvemos essa visão que vem do aspecto secreto, quando olhamos para o outro, ele é como se fosse nós mesmos presos em alguma coisa. É a mesma coisa: a mente livre presa em alguma coisa. Então, nesse sentido brota compaixão, sabedoria da igualdade direto: “bah, o outro está preso! Não precisava”. Mas o outro pode seguir abusando. E nós vamos olhando desse modo: não precisava, é inútil, perda de tempo.
Então, surgem as quatro ações. Primeiro, tu não deverias te perturbar. Se existe uma visão mais ampla, naturalmente tu não te perturbas. Segundo, tu tentas acalmar o outro; terceiro, tu tentas promover os aspectos positivos do outro; quarto, tu não deixas o desequilíbrio passar de um ponto. Caso contrário, as próprias pessoas que estão desequilibradas vão passar por problemas ou aqueles problemas ainda vão se refletir sobre outros. De qualquer modo, dentro do mundo condicionado não há uma perfeição da ação, toda ação tem um nível de dano, é impossível evitar totalmente um dano. Então, a gente se move como pode.
Ensinamento oferecido por Lama Padma Samten em 28 de fevereiro de 2018, no templo do CEBB Caminho do Meio.
Transcrição: Gabriel Madeira
Edição: Stela Santin

Veja aqui o ensinamento completo:

A pergunta transcrita acima está em 9:36.

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