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Como se relacionar bem com os pais? E que conselhos o Lama daria para um futuro pai?


Lama Samten: As 5 sabedorias resolvem tudo. Mesmo casos difíceis de namoro, as 5 sabedorias resolvem. Eu acho maravilhoso. A gente tem o enrosco dos pais, então, serenamente, tentamos adivinhar o funcionamento dos pais no mundo deles. Assim, a gente começa a entender o mundo deles, o quê eles fazem com a mente, com as emoções, como é que eles se movem. Quando a gente os entende, aí a linguagem se estabelece direto.
A gente não consegue se relacionar direito, porque a gente fala desde o nosso mundo e eles ouvem desde o mundo deles e aquilo não funciona direito. Mas isso não é uma coisa com os nossos pais, é com todos os seres, não é mesmo? A sabedoria do espelho nos ajuda muito em todas as relações.
Um outro ponto interessante, que melhora as relações com todas as pessoas, é quando nós olhamos para os outros e nos alegramos com as coisas boas que eles têm e os ajudamos a superar os obstáculos que eles estão passando. Isso é nossa alegria, o que acontece de bom com o outro nos alegra. Então, quando nós, verdadeiramente, manifestamos isso, as outras pessoas se alegram com isso, elas nos tomam como amigos verdadeiros, se aproximam. Para os pais isso é muito importante.
Num certo momento, a gente pode olhar para eles e ajudá-los nos projetos deles, nas coisas deles. Isso é muito interessante. Eu lembro de um praticante que andou por aqui uma época, meu amigo. Ele foi ajudado pelo pai um bom tempo, mas teve um momento em que o pai dele fez uma operação equivocada e afundou economicamente. Eu disse a ele: “vende teu carro e dá pro teu pai”. Aquilo foi fulminante. E então eles ficaram super amigos. Mais adiante, o pai de novo estava bem e o ajudou, mas aí a relação deles estava num outro nível.
É muito importante a gente ajudar dessa forma, pois, assim, aquilo que é bom pro outro nos alegra. Esse praticante se alegrou de fato por poder ajudar o pai. Isso é o segundo buda, o buda amarelo. O amarelo por vezes é associado ao ouro porque é algo que nos enriquece. Essa capacidade de se alegrar com o outro nos enriquece.
E assim por diante, nós vamos olhando um por um dos cinco Diani Budas e se a gente olha desse modo a gente também tem a sabedoria discriminativa, então, entendemos o que está acontecendo com o outro de modo profundo. A gente para e olha. Isso é a sabedoria discriminativa. Eventualmente, os pais já tem uma certa idade, eles vão viver mais um pouco, não muito, talvez já não estejam mais com muita saúde. Essa é a situação deles, eles talvez nem percebam, mas é isso. Então, a gente olha com esse olhar de sabedoria discriminativa.
Também entendemos o que deve ser feito e o que não deve ser feito e a gente procura seguir desse modo e assim a gente se relaciona com eles. Isso é sabedoria da causalidade, buda verde. Especialmente, a gente não se perturba.
Não se perturbar com a negatividade do outro é muito importante. Se a gente consegue não se perturbar, a negatividade que o outro causa pode se tornar uma forma de proximidade conosco. A gente consegue girar isso. Por quê? Porque toda pessoa que faz uma ação negativa fica vulnerável, diretamente. Se uma pessoa faz uma coisa negativa e nos deixa perturbados, nossa tendência é fazer uma bobagem maior ainda. Mas se não fizermos bobagem, podemos ficar equilibrados: um a zero! O outro aprontou, mas não deu nada. Dessa forma, fica visível que o outro aprontou e ele fica muito vulnerável. Nessa situação, não judiamos, não castigamos, mas procuramos proximidade e assim as coisas melhoram.
Existe também a sabedoria de Darmata, que representa o fato de que nós, naturalmente, estamos além da vida e da morte, além do sofrimento, além das complicações, essa é nossa condição natural. Então, a gente precisaria entender isso.
Quando a gente guarda em mente essas Cinco Sabedorias, a gente pode se mover por todos os lugares.
Lama Samten: Tu tens filhos pequenos?
Praticante: Vou ter.
Lama Samten: Ah, então é essa a situação! Isso é uma boa coisa. Daí os mestres vão aparecendo, é muito bonito, porque as crianças são naturais, espontâneas, ou seja, o carma brota naturalmente nelas, espontaneamente. Super bonito isso.
E elas se tornam mestres, rapidamente, porque elas são implacáveis. Os pequeninos são poderosos, maravilhosos. Se a gente está cansado ou não está, não importa nada, não tem negociação. Você está se preparando para viajar e eles adoecem. Isso ainda é uma sorte, porque pior é adoecer na viagem.
Então, as coisas vão acontecendo, acontece em qualquer direção, a gente tem que estar pronto para qualquer coisa. Se a gente aspira ter um domínio sobre as situações e poder planejar, é melhor desistir. A gente tem que ter uma flexibilidade constante, logo, melhor manter os cinco lungs equilibrados, esse é um bom treinamento.
Também precisamos treinar as quatro ações: ação de poder para não se perturbar, ação pacificadora, ação incrementadora e ação irada. Ação irada é super útil. Ação irada não é raivosa, nem agressiva, é uma ação que ajuda o outro, dirige o outro. Nem sempre ele acha aquilo bom, mas como a gente tem uma motivação verdadeira de compaixão e amor, eles entendem.
Outro praticante: Com relação a esse mesmo assunto, pais e filhos, que tipo de prática a gente deve focar para a superação da mágoa e do rancor?
Lama Samten: A gente precisaria ver que os pais são crianças que viveram muito. Eles têm obstáculos, naturalmente, como todos os seres. E, assim, eles aprontam, aprontaram, se enganaram, e é melhor a gente não julgar. Não julgar mesmo. Não faz sentido julgar, porque as pessoas se equivocam. A gente faz coisas equivocadas, é assim. Não tem solução.
Então, quando as pessoas estão errando, estão aprontando, elas já estão naturalmente perdoadas, porque é assim, elas estão no meio do Samsara, fazer o quê? É assim mesmo.
Então, a gente precisa dessa compaixão por eles. Além disso, se eles aprontam, não ganham nada com isso. Aquilo é só um engano, não vai a lugar nenhum. Eles não têm vantagens permanentes pelo que aprontam.
Ensinamentos oferecidos por Lama Padma Samten na noite do 7º dia do retiro de verão de 2014.
Transcrição: Marcos Bauch
Edição: Stela Santin

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