Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

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Khenpo Tsering Tashi entrevista Lama Padma Samten

Khenpo Tsering Tashi entrevista Lama Padma Samten | Garchen Institute (Phoenix/AZ, EUA) | 16 de março de 2026 

 

Após o retiro com Garchen Rinpoche, no Garchen Institute em Phoenix/AZ, EUA, Khenpo Tsering Tashi fez uma série de perguntas a Lama Padma Samten para seu podcast. As perguntas abordaram desde a conexão do Lama com a física quântica e o budismo, passando pela conexão com mestres como Tokuda San, Chagdud Rinpoche, Jamgon Kongtrul e Dalai Lama e o budismo Zen, Mahayana e Vajrayana. Lama Samten também foi questionado sobre a expansão do budismo no Brasil e sua resposta emocionou a todos. O encontro aconteceu na Estupa de Arya Tara, no dia 16 de março de 2026. Quando o podcast de Khenpo Tashi estiver pronto será divulgado também. Esta transcrição serve para fins de estudo e contemplação da sanga.

 

Khenpo Tsering Tashi: Em primeiro lugar, gostaria de saber sobre sua formação. Seus estudos em ciências, especialmente o estudo da mecânica quântica e a especialização do seu ensino. Você pode me explicar isso? 

Lama Padma Samten: Diferente dos países orientais, onde podemos encontrar o budismo em toda parte, de certa forma, no Brasil não era assim. Então, eu diria que quando comecei a pensar sobre o mundo, busquei o que fazer. Então decidi me dedicar à física, imaginando que nesse campo eu poderia encontrar as coisas mais profundas. Depois fui para a universidade e me tornei professor de física na universidade pública. E então tínhamos um dilema: como entender a física quântica? Os físicos não entendem os aspectos filosóficos da física quântica. Eles não conseguem realmente entender porque ela vem de outra base filosófica que desafia as pessoas. Mas eu tinha a convicção de que poderia entendê-la em algum momento. Então continuei estudando e, em algum momento, encontrei o Sutra Surangama com uma tradução ruim feita por padres cristãos que usaram palavras erradas. Mas, quando vi aquilo, pensei: “É isso!”. Depois, levou talvez dois anos para chegar a uma tradução melhor. Então, quando consegui isso, decidi sair da universidade e ficar lá estudando-o. Continuei estudando por um ano, então pude ver a conexão, de verdade. Não separatividade, não dualidade. Esse é o ponto. Mas estamos dentro de um mundo onde vemos tudo dividido. É a filosofia natural. Então, temos que ir além da filosofia natural. Mas a filosofia natural é uma filosofia samsárica. E ela não funciona nem mesmo na ciência. A ciência está mudando o tempo todo. Na física quântica, é um pouco pior. Porque vemos que podemos descrever realidades diferentes e não podemos escapar das realidades diferentes e opostas. Descrevemos realidades diferentes, mas não podemos dizer que uma está errada e a outra certa. Porque temos que trabalhar com todas elas, mesmo que sejam contraditórias. 

 

KTT: E quem foi seu primeiro professor budista, seu primeiro Guru?

LPS: É engraçado porque não encontrei pessoalmente o primeiro professor budista por muito tempo. Então ouvi falar de Tokuda San, um mestre zen japonês. Eu ouvia falar sobre sua maneira de agir e se expressar, a forma como ele se comportava com as pessoas. Isso me inspirou. Em algum momento, pude convidá-lo para vir à minha cidade e ele veio. Nos tornamos amigos íntimos. E ele ainda está vivo, eu o encontrei recentemente no Brasil. Ele é uma pessoa muito inspiradora. Ele chegou a São Paulo como missionário do Japão. Depois, ficou como abade responsável pelo templo. Mas decidiu ir para a Bahia, um lugar encantador no Brasil, pedindo carona a caminhoneiros. Mas sem saber português! E ele foi, ele é essa pessoa. Viajou por todo o mundo, pela Argentina também. E tivemos essa conexão, fizemos palestras públicas em Porto Alegre, a cidade onde começamos. Então ele me disse: “Bem, você se saiu bem com o texto Mahayana”. Ele também contemplava textos Mahayana e disse: “Sim, nos saímos bem com o Mahayana, este antigo texto Mahayana”. Depois de um tempo, quando eu já estava envolvido com Chagdud Rinpoche, ele voltou à minha cidade, foi ao meu templo e contou uma história de um peixe em um lago. Ele disse: “Eu te coloquei como um peixe em um lago. Mas você conseguiu pular e ir embora”. Então nós choramos.

 

KTT: Você conheceu esse mestre e aprendeu sobre o Soto Zen, e depois conheceu o Mahayana e o Vajrayana. O que você aprendeu com eles? O que você descobriu?

LPS: Quando eu estava no Zen, eu estava ciente dos ensinamentos do Vajrayana, mas decidi não me envolver nisso. Porque o Zen é superior.

 

KTT: Superior ao Mahayana ou superior ao Vajrayana? 

LPS: Naquela época… Podemos dizer que as pessoas do Zen diriam que somos superiores ao Vajrayana porque vamos diretamente. Quando nos sentamos, não estamos envolvidos em algo que precisamos fazer desaparecer em algum momento. Sentamo-nos praticando a iluminação diretamente. Não nos sentamos para alcançar a iluminação. Sentamo-nos para praticar a iluminação. Se não funcionar, voltamos e continuamos praticando. É isso. Então tem uma conexão próxima com Ati Yoga. É uma condição natural, nossa condição natural é a iluminação. Temos que nos sentar nesta condição natural. É tão simples. Mas é extremamente simples, então, não conseguimos realmente. E começamos a estudar. Enquanto estava no Zen começamos a estudar Longchenpa porque temos uma conexão próxima. Longchenpa também se senta nos ambientes naturais. Ele tem um estilo Zen, de se sentar em qualquer lugar e olhar e ver. Apenas isso. Então, por que desenvolver deidades? Estamos perdendo nosso tempo. Eu perguntei quando Rinpoche veio à minha cidade, “as deidades são vazias, não é?” Ele disse: “Sim”. Então, por que desenvolver coisas vazias? É a visão do Zen. Em certo sentido, é a visão se formos até Ati Yoga e voltarmos, diríamos quase isso: “Por que desenvolver deidades se já estamos no espaço aberto, vivos?” Entende? Esse é o ponto. Essa é a discussão. Mas não é apenas a discussão do Zen com o Mahayana. É o Ati Yoga com o Mahayana, em certo sentido. E Mahamudra também.  

 

KTT: O caminho do Zen é muito simples e o Vajrayana muito complexo. Como equilibrar isso? Como você pratica e equilibra o Zen e o Vajrayana? 

LPS: Tenho alguns problemas com o Mahayana e o Zen, porque as pessoas do Zen não estudam realmente o Mahayana. E temos os problemas do Zen e do Vajrayana. O ponto é que me sinto tão confiante na prática do Zen que poderia me envolver em qualquer coisa, que poderia entrar no Vajrayana sem medo, sem problemas, mas apenas para entender o que eles estão fazendo lá. Naquela época no Brasil, quando recebíamos um mestre, convidávamos toda a sanga de todo o país. Lembro que uma pequena sala era suficiente para todos… Quando os professores do Vajrayana começaram a chegar, fui até lá porque fui convidado. Minha primeira conexão foi com a linhagem Karma Kagyu, tomei refúgio nessa linhagem. E foi tão interessante, mudou minha mente, de certa forma. Porque no Zen nunca ouvimos as palavras compaixão ou amor. Não ouvíamos isso. Porque o ponto principal no Zen é avidya ou ma-rigpa. E eu entendo isso, é maravilhoso, perfeito. É realmente o ponto. 

Então, o Jamgon Kongtrul Rinpoche III foi para o Brasil e eu tomei refúgio com ele. É tão engraçado porque essas coisas vão muito, muito, muito longe… E agora eu tenho o mala dele! Alguém voltou e disse que era dele e contou como aquele mala partiu e chegou até mim. Meu mala é o mala dele. E ele falou sobre a compaixão, a paz e o amor. E eu acho que eu era essa pessoa, mas sinto que estava em um mundo onde ninguém usava essas palavras. Então achamos que não é… Pensamos que não podemos dizer essas palavras porque parece que somos pessoas fracas. Temos que ser capazes de lutar, superar e ser os melhores, não os amáveis, compassivos. Não temos isso. Então me sinto muito seguro, muito feliz, ao ver palavras muito claras sobre amor e compaixão. E acho que é muito bom. De qualquer forma, eu ainda estava conectado com a compaixão ao superar avidya, ma-rigpa, o ponto principal. Eu conseguia entender. Então ele explicou a Roda da Vida, que não usamos no Zen. Está lá, mas não a usamos de verdade, está nos textos Mahayana. E para mim também foi muito importante estudar Pratityasamutpada, os Doze Elos da Originação Dependente. É muito importante. Ainda uso isso com meus alunos o tempo todo porque temos que iluminar os doze elos. Os doze elos são o aspecto principal do samsara. Quando compreendemos que cada elo é luminosidade, então podemos ver todo o samsara como luminosidade. E que os doze elos estão conectados com avidya, porque qualquer salto de um elo para o outro é uma espécie de exercício de avidya. Esse é o ponto. E para mim foi muito importante. 

Depois de ter conhecido o Jamgon Kongtrul, um grande mestre Zen veio ao Brasil e fui lá encontrá-lo. As pessoas que organizaram foram à minha cidade e convidaram o grupo para ir até lá. E nós fomos, 16 pessoas da nossa sanga, e recebemos os votos leigos. Nós costuramos à mão nosso rakusu. Vestimos roupas brancas e o rakusu e nele o mestre colocou nosso nome, o local e as bênçãos. Depois recebemos um documento do Japão com nosso nome e com toda a linhagem. 

Depois disso, eu soube que o Dalai Lama viria ao Brasil, então eu disse aos organizadores que gostaríamos de convidá-lo para nossa cidade. Mas nossa cidade fica a uns 2.000km da capital. É um pouco longe, sabe. São 1.000km de São Paulo. 1.500km do Rio de Janeiro. Por isso, tivemos que organizar um grande evento, um grande convite. Organizamos um Congresso Internacional sobre amor, compaixão e ética, convidamos outros estudiosos de outras partes do mundo, e Dalai Lama faria o último discurso. Correu tudo muito bem, ele foi recebido pelo governador, foi à Assembleia Estadual, tocamos o hino tibetano, içamos a bandeira tibetana junto com a bandeira brasileira, ao som do hino brasileiro. O Dalai Lama fez um discurso na sala principal do Parlamento. Foi ótimo. Depois ele foi à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e depois à Universidade Católica, todos eventos lotados. 

Depois houve um grande momento, foi em 1992. Em 1991, fui para Nova York, porque era o ano internacional do Tibete. Ele se reuniu no Square Garden, em Nova York, o Dalai Lama estava ministrando ensinamentos e a iniciação de Kalachakra. Todos os mestres e todas as linhagens compareceram. E todas as noites, diferentes linhagens traziam ensinamentos. Então me conectei com as linhagens Nyingma, os ensinamentos Nyingma, e com Trulshik Rinpoche e pedi a ele para ir até lá. E ele disse que sim. Ele me deu as conexões de como chegar lá. Era 1992. Em 1993, recebi uma carta de Chagdud Rinpoche. Sua secretária perguntando se nós os receberíamos em Porto Alegre, minha cidade. Eu disse “sim, claro!”, confiando no céu, sabe? Porque não o conhecíamos. Mas esses movimentos são claros, então nós o receberíamos, com certeza. E tive uma conexão instantânea com ele. É como nos livros que lemos: “Aquela pessoa viu a coisa, então algo aconteceu.” É isso. Eu podia senti-lo como a pessoa que iria me matar. Matar. Porque eu tinha que ser morto, sabe? Eu era muito esperto e hábil em não ser morto, eu sabia como me proteger dos ensinamentos, sabia como ouvir isso e seguir por aqui e por ali e escapar dos ensinamentos. Mas eu sabia que Chagdud Rinpoche, com aqueles olhos, não me deixaria vivo. Então eu senti: “uau, é meu mestre!”. Eu nunca disse “ele é meu mestre”, mas senti essa conexão. E ainda agora consigo sentir isso. 

Então pensei: “Uau, tenho que aprender”. Então ele chegou e eu disse a ele: “Rinpoche, estávamos esperando por você. Porque não o convidaríamos, mas fazemos como os brasileiros quando querem um pássaro livre fique em nossa casa: preparamos um lar para o pássaro em algum lugar, então o pássaro vem e entra nele”. E ele sorriu. É isso. Então tivemos uma conexão íntima. Ele não tinha um bom inglês, na verdade. Na época ele tinha uma tradutora, Lama Tsering Everest. Ela traduzia do inglês para o inglês. Mas ele falava e eu conseguia entendê-lo! Esse tipo de conexão… Ele falava e eu conseguia entender tudo. Então me dediquei ao Vajrayana, fui fazer um retiro de Dudjom Tersar Nöngdro. Imediatamente, Rinpoche me deu a autorização para ministrar os ensinamentos de Dudjom Tersar Nöngdro e conduzir o grupo. E começou assim. 

 

KTT: Sabe, há dois meses, na Índia, encontrei a reencarnação de Chagdud Tulku Rinpoche, o Yangsi, junto com outros lamas recebemos alguns ensinamentos. 

LPS: Uau… Tínhamos essa conexão com a linhagem de Dudjom Lingpa. Por exemplo, Chagdud Tulku Rinpoche foi lá, com Dudjom Linpa. Temos muitas conexões diferentes. Agora, este ano, receberemos Wangdrak Rinpoche, que tem uma ligação de sangue com Dudjom Lingpa. Ele irá ao Brasil. Mas não posso dizer que realmente fiz qualquer movimento, mas esse movimento aconteceu. E ele veio. E o Lama Alan Wallace é um aluno de Gyatrul Rinpoche. Gyatrul Rinpoche foi colega de classe de Chagdud Rinpoche e de Dudjom Rinpoche. Temos a foto dos dois, a linhagem! E Alan Wallace estabeleceu uma conexão comigo e nós o convidamos. Ele veio e nos transmitiu todos os ensinamentos de Dudjom Linpa, traduzimos e estudamos tudo naquela época. E temos um grupo que publicou dois livros sobre isso e continuamos estudando Ati Yoga sob a orientação de Dudjom Lingpa. E a conexão de Dudjom Linpa é muito especial. Estamos usando em nosso centro o texto que começa com shamatha, semelhante ao Zen. Começamos com shamatha, vemos a mente livre de características, a mente livre de construções, então a mente olha para si mesma e começamos com Ati Yoga. É assim que funciona. Mas, de qualquer forma, como estamos em um mundo com muitos estágios de desenvolvimento, criamos uma conexão com o estágio de desenvolvimento do Vajrayana, porque temos que entender isso, temos que usar isso.

 

KTT: Nós ouvimos muito sobre você, que reuniu muitos estudantes e tem muitos templos em vários lugares diferentes no Brasil. Como você se desenvolveu isso? Porque no Brasil, não havia budismo… Como você conseguiu desenvolver isso? 

LPS: Às vezes as pessoas me fazem essa pergunta, mas quando eu explico, ninguém acredita! [risos] Porque não é uma maneira causal de fazer, sabe? Se eu explicar de maneira causal não vai funcionar. É uma espécie de milagre, funciona de outra maneira, não é uma coisa causal. Às vezes tentam fazer isso de maneira causal, mas não funciona. Até meus alunos, quando eles querem tornar as coisas mais fortes e começam a usar maneiras causais eu digo: “não, não façam isso. Vocês têm que voltar e tornar sua prática mais profunda. Só isso, nada mais. Esqueçam qualquer coisa causal. Porque as coisas causais virão até vocês como uma chuva de bênçãos. Não precisamos fazer nada. Não vá até lá e tente trazer água de volta… A chuva virá!”. Isso também é um ensinamento Zen. Um mestre Zen que veio para a América disse: “Não estou indo para a América para trazer o Darma, estou indo para a América para praticar.” Esse é o ponto. Em qualquer lugar que praticarmos, o Darma florescerá, mas se você quiser fazer as coisas, organizar as coisas de maneira causal, o Darma não perdurará. Se começarmos a observar com cuidado, com o que está acontecendo? A questão é que, quando praticamos bem, temos felicidade vinda de dentro, isso se chama bem-aventurança. A bem-aventurança vem de ver a verdadeira realidade das coisas. Quando começamos a ver a verdadeira realidade aqui e ali, o que acontecerá? Teremos uma joia. Se você der essa joia às pessoas, elas virão para recebê-la. Então a sanga aparece. Mas se você não tem joias para oferecer, por que elas viriam? Elas não virão porque estamos convidando, temos boas comidas, bom chá, um quarto agradável, um anúncio bonito. Não. Elas virão porque temos joias. Quando essas joias chegarem ao coração das pessoas, elas ficarão felizes. Elas não sabem por que estão felizes, estão felizes por causa do Darma. É esse ponto que faz as coisas funcionarem. Tão simples. Então as pessoas começam a pensar: “Uau, é melhor vivermos juntos”, e compram a terra. Eles podem comprar a terra. Então começamos a viver juntos,  olhamos uns para os outros com carinho e ficamos felizes! É uma espécie de Terra Pura, nós a construímos, mas essa terra pura começa com a prática. Começamos a ver as joias quando estamos praticando bem. Então, qual é o segredo do Rinpoche? Rinpoche tem joias para dar a todos. É isso. É o significado de se tornar fonte de refúgio. Se tivermos essa fonte de joias podemos oferecê-las aos que tomam refúgio, porque assim podemos criar um ambiente sutil onde as pessoas possam viver, trazer o melhor de dentro de si e oferecer joias por toda parte também. É isso. Então, agora temos dez locais, as pessoas compraram terrenos em dez locais.

 

KTT e outros participantes: [Os presentes começam a chorar.] Uau! É realmente impressionante. É realmente impressionante. O que quer que tenha sido dito, sua linguagem realmente nos deixa em silêncio porque estamos emocionados, comovidos… Mas Tsering Tashi não chorou porque ele não entendeu o inglês, mas, no fundo, ele sentiu sua sinceridade, especialmente pela sua expressão da linhagem e do guru.

LPS: O Tokuda-san tinha essa capacidade, Chagdud Rinpoche tinha também. 

 

Tradutora: Ontem você fez aquele pequeno gesto que o impressionou… 

Khenpo: Eu filmei tudo, quero mostrar para vocês. [nesse momento mostra um vídeo com a gravação do Lama recitando e acumulando mantras com um mala]. Este é um ato singelo, mas é perfeitamente belo. É como o Khenpo vê. Os olhos dele, a mão dele.

LPS: Eu estava com a mão aqui, com o mala, recitando para este lado (não trazendo para a direção dele, mas para a direção contrária) porque estou oferecendo. Não estou trazendo para mim, estou oferecendo. 

 

KTT: Normalmente, quando o guru pratica, eles fazem assim. Deidades atuam dessa forma. Ok, onde estávamos? [risos]. 

Voltamos para a física quântica… Comparando física quântica com o estudo de Budismo agora. O que você descobriu? Há conexões interessantes entre eles, sobre o aspecto da vacuidade e visão do Darma com a física quântica? 

LPS: Eu diria que, do ponto de vista filosófico, seria bastante simples de explicar. Porque toda a ciência não pode escapar da filosofia natural. E se usarmos essa expressão, filosofia natural, então compreendemos a abordagem samsárica da realidade. E o Darma vai além da separatividade. Então, quando vemos as coisas separadas — mas elas não estão — então é vazio, naturalmente vazio. Mas talvez seja uma maneira elusiva e simplista de pensar. Porque a ciência desafiará o budismo. Porque então pegamos o carro e partimos. “Como pode ser vazio se ele segue por aqui?”. Então o samsara revida e estamos no meio dessas coisas. Então temos o vazio do outro. Mas temos que ver o vazio dentro de nós. Não é muito simples ver isso. Temos que ver a cidade dos canais e chakras. Temos que ver isso. Se não vemos isso, não escapamos. Temos que ver o vazio ao redor e o vazio dentro de tudo. Não haverá diferença entre o interior e o exterior, mas, para nós, quando começamos a praticar, é natural que estamos vivendo em nosso corpo, com todas as conexões cármicas que aparecem, como uma compreensão correta das coisas. Mas não é assim. Então começamos a analisar as coisas ao redor, mas isso não é suficiente. Temos que ver a linguagem do corpo. A linguagem do corpo é energia. Não é matéria. Não é realmente cognição. Está além da cognição, além dos nomes. A realidade realmente funciona além dos nomes, mas quando estamos analisando ao nosso redor, usamos nomes. Não é suficiente. Temos que ver por dentro. 

 

Tradutora: Existe alguma conexão interessante com o estudo dos cientistas?

LPS: Eu diria que, no segundo ponto, temos essa abordagem filosófica simples. Então temos um segundo passo que é a compreensão da complementaridade na física quântica. É uma chave muito importante porque explica filosoficamente o desafio. O desafio é que, quando explicamos a realidade ao nosso redor, não podemos explicá-la a partir de um único e definitivo ponto de vista. Temos que explicá-la a partir de diferentes pontos de vista. E quando adotamos diferentes pontos de vista, encontramos realidades diferentes. E não podemos colocar todas essas realidades juntas porque elas se opõem umas às outras. São opostas, excluem umas às outras. Então temos que entender isso, temos que trabalhar com realidades que excluem mutuamente uma à outra. Mas temos que trabalhar com essas contradições. Portanto, a filosofia natural agora não se sustenta mais. Porque a filosofia natural trabalha com uma realidade externa, apenas uma. Ela não depende de como somos, da base da mente que estamos usando para contemplar realidades externas. Então isso introduz a palavra base, que dialoga com alayavijinana. Começamos a olhar para dentro de nossa mente, porque introduzimos a palavra base. E na filosofia natural, a base não importa, a realidade está lá, está além do que pensamos sobre a realidade. Mas agora compreendo que quando olho para o que está lá fora, vejo coisas diferentes de acordo com a base que estou usando para observar isso. E não posso evitar isso com equipamentos, com laboratórios. Não posso evitar isso. Niels Bohr nos mostrou isso com a complementaridade, seu trabalho mais importante. Vemos que temos que introduzir a base. A matemática da teoria quântica introduz a base. 

Era o ano de 1986, eu estava na Europa, fui a Roma para assistir ao congresso de física quântica. No final, fui conversar com um filósofo que veio da Dinamarca e estava explicando física quântica, complementaridade quântica. E ele disse: se você quer entender Niels Bohr — que é o pai da complementaridade — você tem que estudar Wittgenstein. Então eu diria a vocês, de coração, agora: se quiserem entender isso, por favor, estudem o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein. Então Wittgenstein apresenta a base. Como um engenheiro explicando como a mente funciona. No budismo, seria o ensinamento de sems (mente em tibetano). Muito devagar… 0.1, 0.1.1, 1.2, 1.3… Devagar. Então ele disse: “o que vemos na realidade é o que pode ser visto”. Vemos algo que outras pessoas do meu lado não veem. Por quê? Porque temos um espaço de possibilidades dentro de nossa mente. Então a base, alayavijinana, é aqui introduzida como espaço de possibilidades. Quando fazemos uma pergunta, não é uma pergunta livre, é uma pergunta que pode vir do nosso espaço de possibilidades. Portanto, é muito difícil ver a realidade além desse espaço de possibilidades que abrimos. É difícil. 

 

Tradutora: Basicamente, o que eu entendi dele é que a física, originalmente o estudo da física tradicional[quântica]… o livro sobre o qual ele falava, já explica o que o livro budista [Surangama] já dizia há mil anos?

LPS: Em certo sentido, sim, concordo com você. Mas o Buda disse outras coisas. O mais importante — peço desculpas por explicar isso agora neste momento — é que temos que estudar o texto em Pali. Nos textos em Pali o Buda foi muito direto, ele não explicou desta maneira. Ele disse que passou por muitos diferentes estados mentais, do Reino do desejo ao Reino da forma e ao Reino da não-forma. Ele avançou passo a passo nisso e pôde ver que qualquer um desses estados são estados fabricados e não podem perdurar. Ele percebeu, a partir dessa qualidade de abertura, que não se envolveria mais em estados mentais parciais, em estados mentais fabricados. Então ele se declarou liberto, liberto dos estados mentais parciais. Naquele momento, no texto em Pali, ele não explicou alayavijnana. Isso veio depois, nos textos Mahayana, onde ele explicaria alayavijnana e também o Tathagatagarbha.

 

Tradutora: Se fala que Albert Einstein disse que, se existir uma religião no futuro que possa acompanhar os cientistas por muito tempo no futuro, esta seria o budismo. O que você acha? 

LPS: Eu diria que o Niels Bohr está mais próximo do budismo do que Einstein. Niels Bohr e Einstein eram amigos. Mas Niels Bohr está mais próximo do budismo, muito próximo. Por quê? Porque ele desenvolveu a complementaridade. Ele compreendeu que precisamos trabalhar com uma base quando olhamos para a realidade, ele descobriu isso. E Einstein ainda acreditava, até o fim da vida, que a realidade externa tem apenas uma face, independente do observador. Então, ele estava, de certa forma, ligado à filosofia natural. Porque isso está ligado à sua religião, ele era judeu, e realmente acreditava que Deus criou as coisas. E isso está no nascimento da ciência. Deus está no nascimento da ciência. Porque essa ideia vem dos antigos egípcios. Os antigos egípcios acreditavam que Deus criou o mundo estabelecendo leis, não por ação direta nas coisas, então, os cientistas começaram a procurar as leis. Depois daquela época, quando esses textos começaram a ser traduzidos no centro da Europa, eles desenvolveram sociedades secretas que começaram a observar e perceber: “Uau, olha isso e olha aquilo, é a mesma coisa”. Então eles puderam ver que as árvores obedecem à mesma lei em diferentes países, em diferentes lugares. “É real, Deus criou as leis e os seres obedecem às leis.” Os cientistas estão o tempo todo procurando as leis que podem guiar as aparências. Isaac Newton, que era um dos líderes desse movimento naquela época, dizem que ele era ocultista. Porque ocultista? Porque eles estão procurando o oculto, os aspectos ocultos da realidade.

 

KTT: Portanto, a última pergunta desta parte. Neste momento, temos a ciência moderna mais as Inteligências Artificiais. Você acredita que podemos conviver com elas, podemos viver sem elas? Neste momento, isso já está aí, então, como podemos viver, como podemos colocá-las juntas? 

LPS: Poderíamos ter medo disso, muitas pessoas têm medo da IA, mas eu diria que a IA não possui a oitava consciência, nem mesmo a sétima, ela opera com a sexta consciência. É a mente, a mente comum, muito rápida, mas não possui a capacidade de alterar a base. Ela não está ciente da base. Ela não tem a mente aberta, a capacidade de mudar de bolha, ou ir para o reino puro, ou ir para a mandala. Ela não tem essa capacidade. Ela não tem a capacidade de permanecer em Dharmakaya, vendo as coisas a partir de Dharmakaya. Então Sambhogakaya não surge. Portanto, tenho que estabelecer o que é a sétima consciência, a consciência deludida, e dizer como a IA funcionará. Tenho que dizer à IA como trabalhar com a sétima consciência. Então tudo acontece muito rápido, mas está dentro do samsara. Mas, de qualquer forma, se com algumas bênçãos especiais ela chegar ao Dharmakaya, então teremos um Buda novamente. E isso é maravilhoso porque coisas boas virão. Mas não espero isso, realmente não espero isso. É uma mente comum trabalhando muito rápido. 

 

Tradutora: Funciona rápido, mas você acha que isso vai ajudar as pessoas a desenvolver a inteligência humana? 

LPS: Eu gostaria de dizer que sim, mas já vi muitas vezes a tecnologia ser rapidamente usada para a guerra. E agora podemos ver a IA atuando na guerra, instantaneamente, neste momento, está matando pessoas. 

 

Tradutora: Agora estamos abertos a perguntas. Todos podem fazer perguntas. 

Participante 1: Então, uma vez que você já conheceu muitos mestres em sua experiência passada, como ouvimos em sua história… É realmente gratificante e maravilhoso de ouvir. Qual foi a principal coisa que você tirou deste retiro? E também a coisa importante que você quer contar a todos nós… 

LPS: Acho que a proximidade com Garchen Rinpoche é muito especial. Porque, veja, todo o mundo é Dharmakaya, sabe? É isso. Então, amor e compaixão é Dharmakaya. É um meio hábil maravilhoso viver com amor e compaixão, de nos expressarmos com amor e compaixão, e com essa compreensão clara de que isso é apenas luminosidade do Dharmakaya, do espaço aberto. E então temos uma conexão direta, a energia, todos os canais, e todo o corpo e o mundo externo estão conectados com amor e compaixão, como luminosidade. Então podemos compreender que ele está explicando a iluminação diretamente. Ele não está realmente explicando, ele está mostrando isso por meio de sua presença. É isso. É maravilhoso. Tenho que dizer obrigado, Garchen Rinpoche, obrigado. Vem diretamente do espaço aberto,precisávamos disso. 

 

Participante 2: Gostaria de ouvir um pouco mais do Lama sobre a vacuidade, a visão paralela do budismo e da física sobre a vacuidade. Na primeira vez que ouvimos falar sobre a vacuidade no budismo, parece a ausência de qualquer coisa, então começamos a entender que existe um tipo especial de vacuidade que possui alguma luz, uma clara luz, que faz com que as coisas sejam criadas, desde o Dharmakaya de alguma forma. A história da física também é um pouco parecida, porque inicialmente o vácuo era a ausência de matéria. Hoje em dia, a física começa a compreender que o vácuo tem, em si mesmo, seu próprio tipo de energia, e não é exatamente a ausência de nada. Então, minha pergunta é: você acha que algum dia a física desenvolverá a mesma visão da vacuidade que o budismo tinha há mil anos? 

LPS: Acho que os cientistas estão sempre próximos das pessoas do Darma a todo momento. Eles estão tentando encontrar uma base comum para isso, então, acredito realmente que isso será compreendido em algum momento. Neste momento, dizem que estamos no grande vácuo, que temos a energia do grande vácuo. É muito próximo da ideia de que estamos no Dharmakaya e temos a energia nesse momento. O Dharmakaya não é ausência, mas uma presença. É o ensinamento dos antigos mestres Zen da China e do Japão. É o ensinamento de Bodhidharma. É isso, as pessoas vão descobrir isso. Mas o que temos que descobrir é a felicidade que surge quando compreendemos a realidade. Chama-se êxtase. Êxtase em tudo. Às vezes vejo meus filhos jogando no computador, eles vão a algum lugar por aquela tela e nesse lugar encontraram energia. Então colocam energia, avançam um pouco mais, e então colocam mais energia novamente… É parecido. Nós vemos isso e vemos a realidade das coisas, então a energia aparece. Isso nos mantém no Dharma. É a bênção de Guru Rinpoche, está em toda parte. Não precisamos ir além das aparências. As aparências não são aparências, são aparências sagradas, são aparências mágicas, encantadas. E tem energia dentro delas. A energia parece uma joia. Essa joia nos dá vida. Mas o mundo foi criado pelos cinco elementos. Os cinco elementos vêm de Rhi, que vem da essência do amor e da compaixão. 

 

Participante 3: Ela está interessada em saber as diferenças entre cristãos e budistas. 

LPS: Prefiro explicar isso do ponto de vista de Ati Yoga, assim, podemos ver de muitas, muitas maneiras diferentes. Eu diria que os cristãos estão procurando Deus, mas quando dizem Deus, eles realmente não pensam naquela pessoa sentada em um trono. Eles não estão pensando nisso, mas eles não têm uma ideia do que seria Deus, eles não sabem… Chamam isso de mistério. Então, nesse mistério, podemos colocar Buda no lugar, sabe? Mas quando vemos Buda, é triste, temos que matá-lo, porque Buda não é uma pessoa, uma coisa do samsara, sabe? Então, se você está no samsara e vê Buda, é melhor matá-lo porque não é o verdadeiro Buda. O verdadeiro Buda é outra coisa. Jesus também tem esse mistério. E diríamos que, se eles puderem seguir esse caminho, contemplando, buscando Deus, também verão a Grande Abertura. E muitos contemplativos cristãos também se aproximam dessa visão. Tenho bons amigos cristãos que praticam conosco, mas eles se sentem como budistas e não acham que são traidores do cristianismo. Acham que o budismo pode ampliar a visão cristã deles. 

 

Participante 4: Como encontrar a natureza de Buda, Tathagatagarbha? Como praticar a natureza de Buda? 

LPS: A natureza de Buda está aqui. Eu estava trazendo aquele exemplo: “Veja, estamos nesse retiro aqui, em Garchen Gompa, mas vai terminar.” Agora não estamos percebendo que é algo que desenvolvemos, que é algo artificial. Nós não entendemos isso. Tathagatagarbha é a oitava consciência. Está lá, está funcionando, mas você não consegue ver. Mas está funcionando porque vemos o seu efeito. Por exemplo, estamos agora nesta pequena reunião aqui e em breve vamos nos levantar e ir embora. Por que estamos aqui agora? O que nos une aqui? É com a oitava consciência que temos essa naturalidade.. Com luz construímos este evento. A luz deste evento vem de Tathagatagarbha, ela nos une. Mas não estamos pensando: “Bem, estamos juntos. Não vamos nos perder. Estamos juntos.” Não precisamos pensar nisso. É a sexta consciência. E então é Tathagatagarbha. E de Tathagatagarbha vem a sétima consciência. Isso nos faz pensar dentro deste evento e não fora dele. É a mente que vem da oitava, depois vem a sétima. E então, estamos explicando as coisas e falando sobre elas, é a sexta. E a sexta trabalha com os olhos, os ouvidos, nariz, língua e tato, mas faz sentido na sexta. Isso está sob a sétima e a sétima está sob a oitava. Tudo funciona em conjunto. Portanto, precisamos das quatro iniciações. Primeiro, Dharmakaya, segundo, Sambhogakaya, terceiro, Nirmanakaya. Temos corpos que estão trabalhando com a sétima e oitava consciência, mas nós não somos realmente aquela pessoa que aparentamos ser. E esses três juntos, por estarem juntos formam o quarto corpo, trabalhando o tempo todo em nós. Se vemos, tudo bem. Se não vemos, é isso. Não vemos. Mas quem não vê? A sexta consciência não vê. Porque é cega para a sétima. E a sétima, às vezes, é cega para a oitava. Mas tudo está funcionando. Todas as iniciações são as quatro iniciações, o que muda é a deidade central que nos torna conscientes de tudo isso. Aqui estamos na Terra Pura de Arya Tara, a lente de Arya Tara nos oferecerá os quatro corpos. 

 

Participante 5: Eu estava pensando se alguém gostaria de estudar um pouco mais sobre esses oito tipos de consciência. Qual seria o melhor texto para estudar isso? 

LPS: Você está na linhagem Kagyu? Por favor, consulte os ensinamentos de Thrangu Rinpoche. Ele treinou os principais tulkus da linhagem Kagyu, é da linhagem Karma Kagyu. Ele também treinou o Karmapa. Tenho uma dívida com Thrangu Rinpoche. Ele veio ao Brasil e seu secretário perguntou se ele poderia vir à nossa cidade, da mesma forma que Chagdud Rinpoche esteve lá. Mas eu estava muito doente naquela época, sofri um acidente e estava doente. E então tive que dizer não. Então eles disseram: “Mas nós queremos ir”. Eu disse não. E ele não foi. Foi muito ruim. Mas tenho devoção por Thrangu Rinpoche e estudamos seus livros em nossa sanga. 

 

 

Lama Padma Samten e Khenpo Tsering Tashi

 

Ricardo Zanardi, Lama Padma Samten, Khenpo Tsering Tashi, Talitha Monfort

Grupo que participou da entrevista para o podcast

 


Entrevista feita por Khenpo Tsering Tashi a Lama Padma Samten para seu podcast. O encontro aconteceu na Estupa de Arya Tara, após o retiro com Garchen Rinpoche no Garchen Institute no dia 16 de março de 2026. Este áudio foi a gravação feita por Talitha Monfort para fins de estudo e contemplação da sanga. Aguardamos o podcast editado para compartilhar. Transcrição feita com IA por Bruno Menegat, tradução com DeepL, edição por Polliana Zocche e revisão por Polliana Zocche e Rafaela de Paula.

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