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A limitação da disciplina e a importância da visão


Cada uma das seis emoções perturbadoras introduz um impulso correspondente às dez ações não virtuosas. Vamos supor, por orgulho, a pessoa mata; por orgulho, a pessoa rouba; por orgulho, a pessoa se conduz sexualmente de forma inapropriada; por orgulho, a pessoa agride o outro com palavras, cria intrigas, e assim por diante. As dez ações não virtuosas brotam do orgulho. Mas se a gente olhar a inveja, o desejo, o apego, vemos que a pessoa pode matar, roubar, etc, a partir dessas emoções também, tudo igual. Ou seja, cada uma das emoções perturbadoras produz dez ações não virtuosas. E a pessoa faz isso com o corpo, com a energia, com a mente, e com a visão de mundo, então tem quatro níveis. Por exemplo, a pessoa faz com o corpo e a gente diz: não faça! E a pessoa para. Mas a energia dela a impulsiona a fazer, a mente dela diz para fazer e a forma como ela compreende tudo diz para fazer, então ela guarda aquilo e ela vai desgastando aquele voto de disciplina de não fazer e daqui a pouco faz de novo. Então, a disciplina não resolve, esse é o ponto.
A disciplina tem um problema, pois opera dentro da bolha, não opera fora da bolha. Só que a disciplina tem outro efeito colateral: aparentemente, ela resolve, porque ela interrompe a ação não virtuosa, então parece que ela resolve, mas ela não resolve. Então, eu acho que é super importante usar a disciplina para não fazer as ações não virtuosas, mas ao mesmo tempo a gente considera esse método como um tratamento sintomático e não como um tratamento da doença. A gente sabe que vai virar um paciente crônico e o remédio que a gente está usando vai perdendo a efetividade, a doença gera resistência ao remédio. É necessário usar a disciplina como tratamento sintomático.
Ao mesmo tempo, é necessário tratar as causas para o surgimento dos impulsos, que estão ligadas à não construção da realidade daquele modo. A base de tudo não é o aspecto do corpo, nem da energia, nem da mente, mas o gerador de tudo isso, que é a visão de mundo, que, enfim, eu posso dizer que é a mente também. Mas ela surge não como uma operação mental – isso é o que, usualmente, nós chamamos de mente. Mas a mente inclui a própria paisagem, ou seja, quando nós estamos jogando um jogo, como o jogo de xadrez, parece que a operação da mente é pensar a jogada, mas a operação da mente inclui a sustentação do jogo como uma realidade.
Nós temos uma visão de mundo também que aqui está descrita como paisagem, mas pode ser bolha. Quando nós vamos trabalhar com a noção de samsara, estamos trabalhando na visão de mundo, que é o samsara. Quando nós estamos trabalhando com a visão de uma Terra Pura, nós temos uma visão apropriada que nos conduz no caminho, mas não é a visão última ainda. Quando estamos olhando a mandala, é a visão última das aparências, é a visão da deidade lúcida. Na verdade, o nosso caminho é sair das paisagens das bolhas, andar em direção às Terras Puras e das Terras Puras em direção às mandalas, é isso que nós estamos fazendo.
O ponto central do êxito, se a gente quiser examinar com cuidado, pode ser observado através da operação da energia. Vamos supor que a pessoa olhe o jogo de xadrez. Se ela tiver a tendência de sentar-se ali, jogar e quiser ganhar do outro, a energia está presente. Mas se alguém disser: “agora você sente aqui, olhe esse jogo, e ganhe do outro!” E a pessoa disser: “eu não tenho isso, não sei como fazer isso, não tenho essa vontade, eu vejo que as pessoas jogam, mas…” Então, ela não está na bolha correspondente a manifestar aquilo. A liberação daquilo é não estar na bolha correspondente a manifestar aquilo. Mas a pessoa, eventualmente, pode mergulhar naquela bolha, como um ornamento do espaço livre. Ela joga, se alegra, sorri e está livre. A liberdade daquilo não precisa ser a rejeição, nem a fixação. A liberação pode incluir um movimento dentro daquilo, um movimento livre, com um sorriso. O ponto central na observação do êxito é a energia.
O primeiro aspecto da energia é saber se a gente está operando com a energia que está associada ao condicionamento. Se nós formos aprofundar um pouco mais, precisaríamos ver se essa energia tem uma autonomia. Nós podemos estar operando de modo condicionado, mas essa operação condicionada está brotando de uma condição ampla, que permite o funcionamento autônomo da energia, ou seja, a energia opera condicionada, mas se ela afundar não tem problema nenhum, porque ela não se origina daquele conjunto de condicionamentos. Ela tem uma origem autônoma que está livre da bolha. Todos os bodisatvas vão operar a partir da energia autônoma.
Ensinamento oferecido por Lama Padma Samten no retiro online “Está tudo aberto: sabedoria para tempos de incerteza”, nos dias 23 e 24 de maio. Esse trecho foi retirado do ensinamento da manhã do dia 24.
Transcrição: Clarissa Gleich
Edição e revisão: Stela Santin
 

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